Processo

01 – Saques em La Palma
02- Roubo de vacas em Santiago de Cabo Verde.
02 – Proibição de comércio entre índios e europeus na viagem entre Santa Catarina e Assunção.
03 – Abandonar 13 cristãos desamparados no meio da mata durante essa viagem.
04 – Roubar provisões dos índios durante a viagem, enviando para isso seus criados à frente da expedição.
05 – Entregar 25 índios a aliados para serem mortos.
06 – Enforcamento de Aracaré.
07 – Uso de uma moeda cunhada com o brasão de uma cabeça de vaca para identificar-se.

Segue a transcrição de parte dos documentos referentes ao processo de Mencia de Carvajal, segunda esposa de Juan de Villalobos, a respeito de sua herança:

 

Podemos dividir as acusações feitas a Cabeza de Vaca em três tipos:

A)    Acusações em torno de sua responsabilidade na degeneração das relações entre espanhóis e indígenas no Rio da Prata;
B)    Acusações relacionadas com a infidelidade de Cabeza de Vaca à Coroa e à Cristandade;
C)    Acuações relativas a problemas econômicos ou administrativos gerados por Cabeza de Vaca com os cristãos.

Roubos e Saques nas Canárias e em Cabo Verde

A primeira acusação apresentada pelo fiscal Juan de Villalobos era relacionada a saques que teriam sido realizados a mando de Cabeza de Vaca nas ilhas de la Palma e em Cabo Verde. Os homens de Álvar Núñez teriam roubado mantimentos de navios mercadores e também algumas vacas de habitantes locais, que usou para alimentar sua tripulação.

Comércio entre europeus e indígenas

Cabeza de Vaca teria proibido as relações comerciais entre indígenas e europeus durante a viagem entre Santa Catarina e Assunção, levando os cristãos a passarem necessidades.
Em sua defesa, o ex-governador afirmou que sua única intenção era racionalizar as relações entre os dois grupos, marcadas por confusões e fraudes. Para isso, delegou responsáveis pelo comércio e distribuição dos mantimentos entre as pessoas do grupo.

Desamparo de companheiros de viagem

Cabeza de Vaca é acusado de deixar 13 cristãos para trás, mesmo sabendo dos perigos, como a natureza e os índios hostis. Em consequência, três espanhóis morreram.
Álvar Núñez se defendeu dizendo que só deixou o grupo para trás porque um soldado fora mordido por um cachorro. Como não sabiam quanto tempo ele demoraria para se restabelecer, deixou-o com alguns homens tomando conta dele. Eles se reencontrariam em seguida.

Envio de criados à frente do grupo

Neste capítulo, o fiscal Juan de Villalobos acusa Cabeza de Vaca de enviar alguns de seus criados com um dia de vantagem às aldeias indígenas para tomar seus recursos a fim de depois vender aos espanhóis, durante toda a jornada até Assunção. Além disso, segundo o fiscal, esses emisarios muitas vezes deixavam de negociar para saquear os povoados indígenas, causando conflitos.

Degeneração das relações com índios.

Cabeza de Vaca teria entregue vários índios aliados (agazes) para serem mortos pelos guaranis, além de ter mandado cristãos matarem alguns desses índios.

Enforcamento de Aracaré

Cabeza de Vaca teria mandado matar o chefe guarani Aracaré, (ou Azacaré) aliado dos espanhóis. Isso teria gerado revolta entre os índios, que atacaram e mataram alguns cristãos.

Uso do brasão de Cabeza de Vaca

Cabeza de Vaca foi acusado de usar o brasão de sua família, e não o brasão real, para identificar a expedição perante os índios e submetê-los às suas vontades.
O réu explicou que fizera isso para facilitar, não por infidelidade. Segundo o ex-governador, havia muitas fraudes, homens que se aproveitavam dos índios usando o nome da monarquia espanhola.

Permissão para venda de índias

Colaboração com o canibalismo

Morte de dois caciques guaranis

Não foram localizados documentos a respeito disso. Todas as testemunhas que falam sobre andar na companhia de índios e serem guiados e protegidos por eles falam sobre como eles lhes foram fiéis e muito mais úteis que Cabeza de Vaca. No entanto, nenhuma menciona este caso em específico.

Confisco de bens de cristãos para benefício próprio

Acusado de tomar os bens dos cristãos durante uma entrada pelo rio Paraná e usá-los em seu próprio proveito, deixando os seus companheiros em necessidade, Cabeza de Vaca apresentou uma explicação pouco convincente, dizendo que tomou os bens para que os cristãos não maltratassem os índios com eles e para que os mantimentos não encarecessem . Disse ainda que depois que voltaram da entrada, devolveu todos os bens para os respectivos donos.
Não há informações a respeito disso nos testemunhos.

Morte de cristãos pelas mãos indígenas.

Mais um item que acusa Cabeza de Vaca de degenerar as relações com os índios da região. Dessa vez, com a agravante de que, por culpa das más relações estabelecidas pelo governador, os índios teriam matado cinco cristãos. Cabeza de Vaca se defendeu dizendo que os índios se revoltaram porque um dos espanhóis, Martín de Orue, matara um deles primeiro.
Nenhuma dessas acusações a respeito das relações com os indígenas tenha contrapartida de testemunhas cujos depoimentos foram transcritos para este trabalho.

Tentativa de monopólio dos recursos

Os inimigos de Cabeza de Vaca diziam que ele queria monopolizar o comércio com os indígenas na região de Porto dos Reis, para tirar proveito dele e por isso enviava criados seus a cada aldeia para que negociassem com eles. Segundo essa versão, os emissários tomavam os produtos a despeito da vontade dos nativos. O ex-governador e seus homens teriam inclusive partido para a violência.

Outros conflitos com índios em Porto dos Reis

Quando Cabeza de Vaca enviou um oficial a povoados de outra etnia, os socorinos, os soldados mataram todos e saquearam as cabanas, mesmo tendo sido recebidos pacificamente pelas mulheres e crianças da tribo.

Novos conflitos com índios em Porto dos Reis

Uma nova acusação a respeito de guerras com índios travadas durante a permanência em Porto dos Reis. As vítimas dessa vez eram os índios do local conhecido como Pueblo del Viejo. Cabeza de Vaca mais uma vez justificou os ataques, dizendo que eles faziam parte dos grupos que já os tinham atacado e que os guaranis só os “botaram pra correr”, não mataram.


Documentos

Pergunta:

Falta de recursos no Rio da Prata

Cabeza de Vaca é acusado de ter levado à América menos recursos que o necessário para a sobrevivência dos espanhóis que lá residiam. Ele rebate isso com uma referência à probanza feita por ele a respeito de quanto ele gastou para equipar sua viagem.
Temos apenas um dos seis depoimentos da probanza citada por Cabeza de Vaca, que confirma exatamente o que o réu diz.


Documentos:

Pergunta:

Substituição das armas em navio

Esta acusação diz respeito ao episódio ocorrido em Puerto de los Reyes. Estavam quase prontos para iniciar a entrada quando Cabeza de Vaca manda energicamente trocar a bandeira que identificava o navio como sendo parte do Império de Carlos V por uma que trouxesse o brasão de sua família. Além disso, também fala de um suposto hábito de Cabeza de Vaca de entitular-se Príncipe e Senhor daquelas Terras.

Brasão esculpido em pedra

Se refere à ocasião da tomada de posse da região de Cananéia, em que Cabeza de Vaca mandou esculpir as armas de sua família em vez das reais. Álvar Núñez diz que não mandou esculpir armas nenhumas e que poderiam ter feito isso para prejudicá-lo.
Em uma das probanzas feitas pela oposição algumas testemunhas confirmam o ocorrido.


Documentos:

Pergunta:
29. Que esculpió sus armas en las de su Majestad,

Defesa – Cabeza de Vaca

Desrespeito a provisões reais

[[Capitulação que Apresentou Alvar Núñez Cabeza de Vaca no Pleito que Trata sobre Socorro que se Oferece à Provincia de Rio da Prata]]
[[Processo de Martín de Orduña em Nome de Juan de Ayolas com Alvar Núñez Cabeza de Vaca sobre Certas Coisas de que o Acusa]]
[[Relação das Pessoas que Levava Alvar Núñez Cabeza de Vaca nos Navios que Preparou para a Viagem à Província do Rio da Prata]]
[[Acusação do Governador Contra os que o Prenderam]]
[[Resposta de Alonso Cabrera à Acusação Apresentada por Alvar Núñez Cabeza de Vaca]]

Na longa batalha judicial entre a coroa e os herdeiros de Cristovão Colombo em torno dos direitos sobre as terras descobertas pela Espanha a partir de 1492, ele tentou provar que o navegador tivera um papel secundário no descobrimento da América.

Em sua última batalha, Cabeza de Vaca não enfrentou nem índios, nem a natureza selvagem e desconhecida, mas um fiscal duro e tenaz. Em nome do imperador Carlos V, Juan de Villalobos tentou levá-lo à forca, manuseando as probanzas preparadas pelos inimigos do ex-governador quando ele estava preso em Assunção para tentar provar que ele fora um traidor e um incompetente. O contra-ataque de Cabeza de Vaca utilizou outros processos e muitos depoimentos, também acolhidos, pelo menos em parte por Villalobos.

Esta é a lista dos processos em que Juan de Villalobos atuou como fiscal do Conselho das Índias (sem tradução e encontráveis na documentação disponível no Arquivo das Índias):
1525-09-13 - 1535-06-11: María de Guzmán, viuda de Gil González Dávila, capitán que fue en el descubrimiento del Mar del Sur, contra Juan de Villalobos, Fiscal del Consejo, sobre el pago de los salarios que se le quedó debiendo al dicho su marido.

Seqüência de fiscais do Consejo, a partir de Villalobos:
3) [numeração é essa porque Villalobos foi o terceiro fiscal do Consejo.] Licenciado Juan de Villalobos. 22/08/1530 – 08/11/1550 (data de sua morte).
    - Licenciado Santander, relator, fiscal interino, 1550.
    - Licenciado Rabaval, relator, fiscal interino, 1550.
    - Doctor Verástegui, fiscal interino 1550-1551.
4) Licenciado Martín Ruiz de Ágreda. 13/06/1551 – 26/05/1558 (nomeado conselheiro);

A Defesa de Juan Pavón

 

Ameaças a índios

Mais uma dessas acusações a respeito da maneira como Cabeza de Vaca tratava os índios e que não tem respaldo de testemunhas. O governador teria ameaçado matar os índios que não entregassem tudo o que tivessem.

Documentos:

Pergunta:

Conflitos com indígenas em Porto dos Reis

Cabeza de Vaca teria mandado um funcionário aos povoados dos curianicoas para pegar mantimentos. Diante de uma recusa, tinham carta branca para guerrear contra eles. O governador não teria tido nenhuma pena desses indígenas, que eram pacíficos; os guaranis (aliados dos espanhóis) destruíram 9 povoados dessa etnia, sem ao menos enfrentarem resistência.

8000 ducados em provisões

1546/04/07 – É entregue ao Conselho das Índias probanza feita por Cabeza de Vaca a respeito dos preparativos feitos por si para a viagem à província do Rio da Prata.

Informações sobre o documento:

1540/11/19 – Cabeza de Vaca finaliza probanza em que “quiere probar como llevaba en provisiones y otras mas de los 8000 ducados que era obligado a gastar”

Não se sabe quando nasceu Juan de Villalobos, mas é certo que viveu em Valladolid e morreu em de novembro de 1550. Entrou para o Conselho das Índias por volta de 1525 e exerceu por cinco anos o cargo de fiscal sem ser nomeado oficialmente, o que só ocorreu em 22 de agosto de 1530.
Em 1545 recebeu um aumento de salário, saltando de 100.000 para 160.000 maravedis por ano. No ano seguinte, receberia outro aumento, passando para 200.000 maravedis anuais, importância que seguiria recebendo até sua morte.