Primeira Viagem

Na abertura dos Naufrágios, o relato de suas peripécias pela América do Norte, Cabeza de Vaca se apresenta como tesoureiro e alguacil da expedição de Pánfilo de Narváez à Flórida. Não era. O alguacil tinha salário vitalício e exercia as funções de juiz e governante local. O termo vê do árabe al-wazīr (‘o oficial’, de onde derivaria mais tarde a expressão vizir).

Ao assinar a capitulação real que lhe deu o poder no rio da Prata, Cabeza de Vaca conseguiu o posto de alguacil mayor.

O fato de ser neto do conquistador das ilhas Canárias e de ter nascido pouco antes da primeira viagem de Cristóvão Colombo fez com que Álvar Núñez Cabeza de Vaca  fosse muito influenciado pelos êxitos e fracassos dos conquistadores do chamado Novo Mundo.

A maneira mais simples de imaginar o que foi aquela época e como os espanhóis foram impactados pelo êxito de algumas empreitadas é voltar ao dia 9 de janeiro de 1534, quando a chegada de um navio vindo do Peru paralisou Sevilha. O relato é de Francisco Jerez, testemunha da cena,:

De acordo com Robert E. Lewis, autor de Los Naufragios de Álvar Núñez: Historia y Ficción, o sistema interpretativo ao qual Cabeza de Vaca recorre com mais freqüência é o da simbologia cristã. A vida de Cristo lhe proporcionou um modelo que serviu para entender e enfrentar as peripécias de sua própria experiência.

No tempo de Cabeza de Vaca, a navegação oceânica fez grandes avanços, mas ainda não dispunha de um sistema seguro de estabelecimento da longitude. Isso e o fato de não haver mapas precisos sobre a costa da Flórida fez com que Pánfilo de Narváez e seus homens cometessem um erro enorme de avaliação, que levou ao fracasso da expedição. nna costa da Flórida demonstra bem as limitações que os navegadores do século XVI tinham em termos de localização e estabelecimento preciso de suas rotas.

Ao longo dos Naufrágios, Cabeza de Vaca descreve dezenas de tribos, vários animais, algumas paisagens, além de hábitos e costumes dos nativos, da Flórida ao México. De modo geral, na condição de observador distanciado, quase um antropólogo. Mas há exceções. Uma daas passagens mais intrigantes do livro é a que apresenta o Mala Cosa, ou Coisa Ruim. Nesse caso, o autor simplesmente incorpora a história contada pelos índios. Primeiro, com alguma desconfiança e reserva. Depois, como se houvesse uma base factual para o caso.

Quando saiu da Europa, Pánfilo de Narváez, o comandante da expedição em que Cabeza de Vaca era o tesoureiro, nunca tinha ouvido falar nos Apalaches, muito menos pensaria em desviar a rota de suas explorações para chegar a tal lugar. No entanto, ao chegar à Florida, depois do desastrado início de viagem e depois de tentar, através de mímicas, descobrir alguma coisa sobre o lugar onde tinha ido parar, muda de opinião. Apenas uma conversa e umas poucas peças de ouro seriam capazes de fazê-lo desobedecer a uma ordem real? A questão parece ser um pouco complicada.