Os Papéis

O ofício de adelantado, muito presente na Espanha medieval, foi revitalizado no processo de descobrimento e conquista da América. O título era concedido pelo rei da Espanha (de forma vitalícia ou em propriedade) aos que fossem por ele autorizados a descobrir, conquistar e povoar as então chamadas Índias Ocidentais. Mas havia um detalhe: em termos práticos, o título de adelantado na América foi uma mera mercê honorária, sem função alguma.

Uma das passagens mais polêmicas da vida de Álvar Núñez Cabeza de Vaca ocorreu no tempo em que servia o quinto duque de Medina Sidonia, como camareiro. O jovem Alonso Pérez de Guzmán tinha problemas mentais e não conseguia nem assinar seu nome. Muito menos consumar o casamento com Ana de Aragão, neta do rei Fernando, o católico – que iria se casar com o irmão de Alonso.

Em 1532, durante o processo de anulação do mal sucedido casamento do duque, o nome de Cabeza de Vaca apareceria várias vezes, na condição de testemunha da impotência de seu chefe.

Abaixo, a repdoução de algumas partes dos autos do processo sobre a nulidade do casamento entre o duque Alonso e Ana de Aragón em que Cabeza de Vaca aparece como alcoviteiro.

 

Depois de ter enfrentado três naufrágios, de perder a maior parte de seus companheiros e de servir de ajudante primeiro e pouco depois, como escravo, Cabeza de Vaca deixou a ilha do Mau Fado para se juntar aos índios charrucos no continente. E sua vida melhorou:

Depois de abandonar a carreira militar e de passar um período sabático em Jerez de la Frontera, Álvar Núñez Cabeza de Vaca voltou à vida movimentada de aventureiro. No dia 17 de junho de 1527, ele deixou o porto de Sanlúcar de Barrameda na condição de tesoureiro da expedição de Pánfilo de Narváez, que obtivera da coroa espanhola o direito de explorar a Flórida. Seu salário era de 130.000 maravedís por ano. Não tinha direito a benefícios hereditários - deveria servir como tesoureiro por quanto tempo quanto o rei assim quisesse.

No local que batizaram de ilha do Mau Fado, os espanhóis fizeram as primeiras experiencias como curandeiros, por imposição dos índios: “Tentaram nos transformar em médicos, sem nos pedir para prestar exames ou apresentar nossos diplomas”, ironizaria Cabeza de Vaca mais tarde em suas memórias.

Relación escrita por Álvar Núñez Cabeza de Vaca sobre todos os fatos ocorridos desde sua chegada à costa do Brasil e ao Rio da Prata, em que se prova que ele tomou posse da ilha de Cananéia.  

Relação geral que eu, Álvar Núñez Cabeza de Vaca, adelantado e governador e capitão-geral a provincial do Rio da Prata, pela graça de Sua Majestade, faço, para informá-lo e aos membros de seu Real Conselho das Índias, de coisas que aconteceram na dita provincial, para a qual me dirigi, a partir deste reino, para socorrer e conquistar.

Depois de encontrar o grupo que viajava no barco comandado pelos capitães Andrés Dorantes e Alonso del Castillo, Cabeza de Vaca  deve ter imaginado que tinham acabado seus problemas. Mas ele não conseguiu acompanhar o grupo em sua tentativa de alcançar Pánuco, o posto avançado da Espanha na região. Doente, permaneceu junto à uma tribo de índios e tornou-se escravo dos nativos:

A viagem de Pánfilo de Narváez foi objeto de vários textos assinados por Cabeza de Vaca. Cada deles, com características e objetivos diferentes. Sem falar em algumas imprecisões informativas de menor relevo. O primeiro documento desapareceu: uma carta enviada ainda em 1527 para a corte a partir de Santiago de Cuba, quando a expedição nem havia chegado a seu destino. O segundo texto foi entregue ao vice-rei do México, Antonio de Mendoza, após seu reencontro com os espanhóis, em 1536.

Ao deixar a Flórida em 1537, Álvar Núñez Cabeza de Vaca tinha um plano: tornar-se governador da província e repetir – sem os erros – o trajeto de Pánfilo de Narváez Durante a viagem de volta, no arquipélago dos Açores, encontrou os desafortunados passageiros de outro navio. Seu comandante, Pedro de Mendoza, o primeiro governador da província do Rio da Prata, morrera a bordo no dia 23 de junho de 1537. É bem possível que na pacata vida do porto, Cabeza de Vaca tenha ouvido falar sobre as fabulosas riquezas do rei branco e sua Serra de Prata, alvo de nove entre dez conquistadores da época.

Durante sua primeira estada na América, Cabeza de Vaca sobreviveu a três naufragios. O primeiro, causado por um furacão que atingiu seu barco no porto de Trinidad, na ilha de Cuba. Eis o relato do ocorrido, segundo suas palavras:

Depois de ver fracassada a maior expedição em busca da Serra de Prata – e de contrair uma febre estranha (malária, provavelmente), Cabeza de Vaca voltou a Assunção. Antes de se recuperar, foi preso por um grupo de oficiais que, segundo seu secretário particular, estavam “revoltados com as proibições que lhes foram impostas, bem como pelo fato de ter sido despovoado o melhor e principal porto da província.”

No dia 25 de abril, eles foram à casa do governador e o prenderam, como descreve Pero Hernández:

Em 1503, Álvar Núñez Cabeza de Vaca tinha perto de 15 anos (ao que tudo indica, ele nasceu em 1488) quando tornou-se um dos caballeros de Jerez, a serviço do duque de Medina Sidonia, sendo remunerado por isso.