Greves do ABC

Na edição de primeiro de abril de 1964, o Jornal do Brasil informou que Comando Geral dos Trabalhadores decretara greve geral “em apoio ao Presidente João Goulart, paralisando de imediato os trens da Central do Brasil e da Leopoldina, o Porto de Santos e os bondes da Guanabara, com a adesão de universitários.” A greve anti-golpe chegou a ser esboçada, mas não foi geral, nem capaz de manter Jango no poder. O golpe provocou a debandada das lideranças sindicais que não foram imediatamente presas.

No dia primeiro de junho de 1964, o governo baixou a chamada “lei de greve”, criando dificuldades e entraves para engessar o movimento sindical.
Em dezembro de 1966, os trabalhadores de 16 engenhos de açúcar do município do Cabo, em Pernambuco entraram em greve por salários atrasados, depois de cumprir todas as formalidades. No ano seguinte, houve nova greve legal na região. Em 1968, trabalhadores de empresas de Contagem (MG) e de Osasco (na Grande SP) realizaram greves e manifestações por aumento salarial e contra a ditadura militar, num clima aquecido pelos protestos estudantis.

As comemorações do dia do Trabalho na praça da Sé em São Paulo, organizadas pelo Sindicato dos Metalúrgicos, com a participação de militantes do Partido Comunista se transformaram num pandemônio, quando militantes da Dissidência Comunista – entre os quais estava José Dirceu – apedrejaram o palanque onde estava o governador de São Paulo, Abreu Sodré. Era uma demonstração evidente das divergências entre a esquerda: enquanto o Partidão considerava um avanço atrair o governador para o ato em que seriam apresentadas reivindicações dos trabalhadores, a Dissidência festejou a dissolução do protesto e a reação posterior da polícia, que a partir de então, abandonou a neutralidade diante das passeatas estudantis.

Dez anos mais tarde, exatamente às seis da manhã de 12 de maio de 1978, mais de 3.000 metalúrgicos da Scania, em São Bernardo, liderados pelo ferramenteiro Gilson Menezes, entraram na fábrica, mas não ligaram as máquinas. A pauta de reivindicação tinha aumento salarial e melhores condições de trabalho. Ao chegar à fárica parada, o delegado regional do Trabalho, Vinícius Ferraz Torres tentou serenar os ânimos com a delicadeza de um mamute:

– Tá na hora de vocês voltarem a trabalhar, porque o país precisa de muita produtividade.

A resposta de um dos peões dá ideia do clima entre os operários:

– Olha, a gente não vai voltar e quem começar a encher o saco vai apanhar.

Na DRT, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, Luís Inácio da Silva, o Lula, procurou interpretar o papel de mediador, mas só ouviu ameaças. O governo agia de modo ambíguo: enquanto o ministro da Justiça Armando Falcão telefonava para emissoras de rádio e TV pedindo moderação na divulgação do noticiário, funcionários da Polícia Federal proibiam os diretores de mencionar o assunto. Ambas as informações saíram nos jornais do dia seguinte, em mais uma demonstração das nuances da ditadura brasileira.

Várias outras empresas do ABC seguiram a Scania. O Tribunal Regional do Trabalho (TRT) considerou as greves ilegais, o que não impediu que acontecessem outras paralisações em grandes, médias e pequenas empresas do ABC, de Osasco e de São Paulo. Os militares acusaram infiltração comunista na greve. A oposição saiu em apoio ao movimento.

Na madrugada de 31 de maio, depois de 20 horas de negociação, trabalhadores e empresários celebraram a primeira convenção salarial sem a mediação do governo ou da Justiça do Trabalho. Ela concedia 15% para todas as empresas e 20% para a Scania, recuperando a imagem do sindicato e da diretoria de Lula, taxados de conciliadores.
A vitória teve consequências: em 1979, cerca de 3,2 milhões de trabalhadores entram em greve. Foram 27 paralisações de metalúrgicos, 20 greves de professores e outras tantas de bancários, médicos, construção civil e outras categorias por todo o país. Tudo começou à zero hora do dia 13 de março de 1979, qando os metalúrgicos do ABC decretaram uma greve geral – a primeira manifestação de massa dos operários, pós-64, com piquetes e assembléias gerais. Cinco horas mais tarde, quando dez mil trabalhadores chegaram aos portões da Volkswagen para o primeiro turno de trabalho, as lideranças armaram um cordão de isolamento e depois de muita conversa conseguiram a adesão dos companheiros. Os operários queriam um reajuste maior que o índice oficial, para compensar a manipulação da inflação feita pelo então ministro Delfim Neto e descoberta por Eduardo Suplicy, na época editor de economia da Folha de S. Paulo num relatório do Banco Mundial.

No dia 15 o Tribunal Regional do Trabalho fixou o reajuste em 44% e decretou a ilegalidade do movimento, que começou a receber a solidariedade da Igreja, de parlamentares da oposição e de trabalhadores de diversas cidades e profissões. O ministro do Trabalho, Murilo Macedo reuniu as partes em seu apartamento e depois de muita discussão, ficou combinada uma trégua, que os operários de São Bernardo, reunidos no estádio de Vila Euclides recusaram. O governo decretou intervenção nos sindicatos de São Bernardo, Santo André e São Caetano. A greve acabou em 27 de março, quando 70 mil trabalhadores voltaram ao estádio e aprovaram afinal a trégua de 45 com a reabertura das negociações e Lula tornou-se uma figura nacional.

Também em 1979 houve greve dos bancários em Porto Alegre, liderada por Olívio Dutra, de trabalhadores da construção civil em Belo Horizonte, e de metalúrgicos em São Paulo e Guarulhos. Um dia depois do início desta última, a PM reprimiu uma manifestação em Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo e feriu de morte o operário Santo Dias da Silva. No cortejo do enterro, 30 mil pessoas gritavam “o povo não tem medo, abaixo Figueiredo!

Em abril de 1980, não por acaso, dois dias antes da posse do general João Figueiredo, os trabalhadores do ABC começavam um novo movimento grevista. Os principais líderes do movimento foram presos e iniciaram uma greve de fome. No dia primeiro de maio, uma passeata de quase cem mil pessoas, comandada pelas mulheres dos trabalhadores, cruzou o centro de São Bernardo do Campo. Após 41 dias de paralisação, o fim da greve foi oficializado no dia 11 de maio, numa assembléia no interior da igreja matriz de São Bernardo, num ato muito tenso.

Depois de discursar, Osmar Mendonça o Osmarzinho, líder de base em São Bernardo e ligado ao MR-8 foi preso por quatro agentes do Doi-Codi. Airton Soares, que acompanhava o sindicalista, acha que o intuito dos agentes era provocar um tumulto que justificasse a intervenção da Tropa de Choque. Um apelo aprovado na assembleia e transmitido por dom Claudio Hummes acabou com a greve de fome dos sindicalistas presos. Mas para frustração de Lula, ele não pode realizar seu desejo mais imediato:

“Eu até sonhava em comer um frango daqueles assados naquelas máquinas que rodava na frente do bar, bicho! Na hora que a gente acabou com a greve de fome: “Vamos buscar frango!”. Aí, vem um médico e fala: “Trinta gramas, um copinho de suco de laranja, de mamão”. Bicho, a minha boca espumava de água, de vontade de comer o frango. Eu queria comer com couro e tudo. Aí, levou uns três dias para comer esse maldito frango!

Sem comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Episódios

Episódios

A morte de Vladimir Herzog

Vladimir Herzog morreu no dia 25 de outubro de 1975, durante uma sessão de tortura, na rua Tomás Carvalhal, 1030,...
Leia mais
Episódios

AI-5

Quinto de uma série de decretos emitidos pelo regime militar, o Ato Institucional nº5 é diferente dos demais. Tido como...
Leia mais
Episódios

Anistia

No dia 2 de abril de 1964, o jornalista Austregésilo de Athayde publicou um artigo no Diário da Noite, pedindo...
Leia mais
Episódios

Atos institucionais

O instrumento utilizado pelos militares para impor a nova ordem foram os atos institucionais. Era uma forma de dar alguma...
Leia mais
Episódios

Brasil Nunca Mais

Em 1979, um grupo de religiosos e advogados iniciou um projeto extremamente ambicioso: obter junto ao Superior Tribunal Militar, em...
Leia mais
Episódios

Censura

A censura não se instalou nas redações imediatamente após o golpe militar. Grande parte dos jornais apoiava o movimento. Os...
Leia mais
Episódios

Comício da Central

“Desgraçada Democracia a que tiver que ter que ser defendida por esses democratas” Com a temperatura política cada vez mais...
Leia mais
Episódios

Congresso de Ibiúna

“Dirceu – cabelo comprido, barba por fazer, olhar cansado –, disse a seu velho rival na disputa pela liderança na...
Leia mais
Episódios

Diretas Já

Desde que o primeiro ato institucional permitiu a eleição indireta do marechal Castello Branco, as diretas passaram a fazer parte...
Leia mais
Episódios

Eleições de 1982

As primeiras eleições diretas para governador após o golpe militar ( e a parcial de 1965) aconteceram em 15 de...
Leia mais
Episódios

Exílio

O golpe militar acabou com o governo de Jango e jogou centenas de governistas na oposição. Ao mesmo tempo, a...
Leia mais
Episódios

Frente Ampla

Calros Lacerda, ex-governador da Guanabara e participante ativo do golpe de 1964 logo se desencantou com o regime militar, que...
Leia mais
Episódios

Generais no poder

João Baptista de Oliveira Figueiredo foi o último general a chegar à presidência da República na ditadura. A ele caberia...
Leia mais
Episódios

Golpe de 64

30 de março de 1964, madrugada. Em Juiz de Fora, o general Olympio Mourão Filho, prestes a se aposentar, ouviu...
Leia mais
Episódios

Greves do ABC

Na edição de primeiro de abril de 1964, o Jornal do Brasil informou que Comando Geral dos Trabalhadores decretara greve...
Leia mais
Episódios

Legalidade

Eleito vice-presidente para o período 1956 a 1960, João Goulart se reelegeu para o cargo, que assumiu em 1961. Obteve...
Leia mais
Episódios

Luta Armada

Foi Leonel Brizola quem primeiro tentou derrubar a ditadura de 1964 pelas armas. Chegou mesmo a estabelecer um contato direto...
Leia mais
Episódios

Maria Antônia

Quem passasse pela rua Maria Antônia, no centro de São Paulo no dia 2 de outubro de 1968, seria surpreendido:...
Leia mais
Episódios

MDB e Arena

O golpe militar de 1964 não acabou imediatamente com os partidos políticos existentes, muito embora o primeiro dos atos institucionais...
Leia mais
Episódios

Morte de Edson Luís

Relatório das circunstâncias da morte de Edson Luiz Dados PessoaisNome: Edson Luis de Lima SoutoCidade: (onde nasceu) BelémEstado: (onde nasceu)...
Leia mais

Personagens

Personagens

Dante de Oliveira

Desde que o primeiro ato institucional permitiu a eleição indireta do marechal Castello Branco, as diretas passaram a fazer parte...
Leia mais
Personagens

Franco Montoro

Filho de um tipógrafo descendente de italianos e de uma dona de casa descendente de espanhóis, André Franco Montoro nasceu...
Leia mais
Personagens

João Figueiredo

João Baptista de Oliveira Figueiredo foi o último general a chegar à presidência da República na ditadura. A ele caberia...
Leia mais
Personagens

José Dirceu

Aos 22 anos, o líder dos estudantes paulistas era mineiro, mas nem um pouco discreto. Do teto de um ônibus...
Leia mais
Personagens

Leonel Brizola

Nasceu Brizola, mas não Leonel: até um ano e três meses sua mãe, Onívia de Moura Brizola, só o chamava...
Leia mais
Personagens

Lula

Luis Inácio da Silva nasceu no dia 27 de outubro de 1947 numa pequena casa rural com a uma légua...
Leia mais
Personagens

Mário Covas

Mário Covas Júnior nasceu no dia 21 de abril de 1930, em santos, no litoral paulista. Filho de um português...
Leia mais
Personagens

Miguel Arraes

Único filho homem e o caçula dos sete irmãos, Miguel Arraes de Alencar nasceu em 15 de dezembro de 1916...
Leia mais
Personagens

Paulo Evaristo Arns

Ele chefia oito bispos, 2.100 sacerdotes, quase 300 paróquias, 4.000 freiras pertencentes a 124 organizações e meia centena de grupos...
Leia mais
Personagens

Tancredo Neves

Quinto dos doze filhos de Francisco de Paula Neves, um misto de comerciante e político com Antonina de Almeida Neves,...
Leia mais
Personagens

Teotônio Vilela

Um dos dez filhos de um bem sucedido proprietário rural, o alagoano Teotônio Brandão Vilela nasceu em Viçosa no dia...
Leia mais
Personagens

Ulysses Guimarães

Primeiro dos cinco filhos da professora Amélia Correa Fontes e do coletor de impostos Ataliba Guimarães, Ulysses Silveira Guimarães nasceu...
Leia mais