Frente Ampla

Calros Lacerda, ex-governador da Guanabara e participante ativo do golpe de 1964 logo se desencantou com o regime militar, que acabou com a democracia e barrou seu caminho até a presidência. Em 1966, Lacerda foi procurado por oposicionistas como Renato Archer e adotou a tese da Frente Ampla, uma ampla aliança em favor da democracia, que buscava juntar lideranças que no passado tinham sido inimigos mortais, praticamente. Em outubro de 1966, o jornal Tribuna da Imprensa publicou um manifesto de Lacerda em favor da Frente. No mês seguinte, ele foi a Lisboa encontrar-se com Juscelino em Lisboa. Dez meses mais tarde, aconselhado por Tancredo Neves, foi a Montevidéu para um encontro quase inacreditável. A matéria publicada na época pelo jornal Folha de S. Paulo no ida 26 de setembro de 1967 resume bem o que aconteceu:

O sr. Carlos Lacerda foi a Montevidéu procurar o sr. João Goulart, para obter o apoio do ex-presidente da republica, deposto pela Revolução de Março, para a Frente Ampla. Uma declaração conjunta, emitida por ambos, na capital Uruguai, afirma, entre outras coisas, que ambos estão convencidos “da necessidade inadiavel de promover o processo de redemocratização do Brasil”. O encontro se deu na presença de um representante do sr. Kubitschek, sr. Renato Archer. O ex-presidente Goulart dá, com sua assinatura à declaração, o seu apoio total á Frente Ampla. Ao regressar, ontem, ao Brasil, o sr. Carlos Lacerda declarou em Viracopos, de passagem para o Rio, que estava satisfeito com a adesão do sr. Goulart. O sr. Leonel Brizola, tambem asilado no Uruguai, emitiu uma declaração condenando violentamente a atitude de Goulart. No Ministerio da Justiça, informava-se que, em face do encontro de Montevidéu, o governo brasileiro poderá pedir ao Uruguai o internamento do ex-presidente. No Rio, comentava-se que o momento do encontro foi cuidadosamente escolhido pelo sr. Lacerda, que aproveitou a realização da reunião do Fundo Monetario Internacional, a fim de obter maior repercussão para o acordo. Jango recebe Lacerda e entra na frente.

Os srs. Carlos Lacerda e João Goulart concordaram ontem, em Montevidéu, “em unir seus esforços em busca de soluções pacificas para a crise brasileira, sem cultivar ressentimentos pessoais nem propositos revanchistas”. Os dois politicos, inimigos acérrimos, conversaram durante toda a manhã de ontem, para chegar à convicção da “necessidade inalienavel de promover um processo de redemocratização do Brasil”. Lacerda chegou incognito à capital uruguaia, acompanhado do deputado Renato Archer, representante pessoal do sr. Juscelino Kubitschek. O encontro realizou-se no apartamento de João Goulart, no bairro de “Villa Biarritz”. Em Montevidéu, Lacerda declarou que “somente a união do povo brasileiro pode provocar uma mudança para a verdadeira democracia”. Acrescentou que os que queriam colaborar na Frente Ampla sem distinção de cor política – terão as portas abertas “para alcançar a mobilização da opinião publica”. “Hoje está comprovado que Jango não é um homem do Partido Comunista nem eu dos Estados Unidos”, disse Lacerda.

Ao passar por Viracopos às 19h20 de ontem, procedente de Montevidéu e com destino à Guanabara, o sr. Carlos Lacerda disse que o sr. João Goulart aceitou participar da Frente Ampla. Acompanhava o ex-governador o deputado Renato Archer, que esteve na capital uruguaia representando o sr. Juscelino Kubitschek. Lacerda acrescentou: “Aos poucos, estamos eliminando as duvidas sobre a Frente Ampla. Agora partimos para mobilização do povo. Tivemos três longas conversas (ele e Jango) que correram muito bem. Cheguei ontem, na hora do almoço, e logo depois tivemos nossa primeira conversa que durou até o jantar. Logo depois reunimo-nos novamente, até a madrugada. Nossa ultima conversa começou hoje de manhã e acabou à hora do embarque”.

Lacerda fez questão de desmentir uma agencia noticiosa que informou ter o sr. Leonel Brizola se recusado a manter conversações com ele.

“Fui ao Uruguai procurar o dr. João Goulart. Não houve de minha parte qualquer tentativa de encontro com o sr. Brizola”, declarou.

Os preparativos

O sr. Carlos Lacerda seguira para Montevidéu às 10h25 de domingo. O avião devia deixar o Galeão às 8horas, mas, devido ao mau tempo em Porto Alegre (onde faria escolta), acabou decolando com mais de duas horas de atraso.

A chegada a Montevidéu ocorreu às 14h30. No aeroporto, varios amigos comuns (dele e de Goulart) aguardavam o ex-governador carioca, que seguiu imediatamente para o Hotel Alhambra, onde ficou hospedado, aguardando o encontro com o ex-presidente.

Desde terça-feira da semana passada estava praticamente decidida a viagem de Lacerda a Montevidéu, faltando apenas alguns pormenores de que se encarregaram os emissarios de ambos os lados. Quarta-feira, um representante de Lacerda seguiu para a capital uruguaia, onde conversou demoradamente com Jango, obtendo deste a palavra final: “Não só concordava com o encontro, como o considerava indispensavel para o equacionamento da situação nacional, para os trabalhos de redemocratização e para a aceleração da Frenta Ampla”.

Quinta e sexta-feira, através de seguidos telefonemas, estabeleceu-se o roteiro do encontro, assentando-se os principais pontos a serem debatidos.

O texto da declaração conjunta

Eis o texto da declaração conjunta assinada ontem pelo ex-presidente João Goulart e o ex-governador Carlos Lacerda:

“Convencidos da necessidade inadiavel de promover o processo de redemocratização do Brasil, reunimo-nos em Montevidéu. Sabemos o que significam as privações e as frustrações do povo, especialmente dos trabalhadores, os que mais sofrem as consequencias da supressão das liberdades democraticas. Sabemos o que quer dizer o silencio de reprovação dos trabalhadores, submetidos à permanente ameaça da violencia e privados do direito de reivindicar seus direitos. É preciso que se transforme, corajosa e democraticamente, a estrutura de instituições arcaicas que não mais atendem aos anseios de desenvolvimento do país. É preciso assegurar aos brasileiros o aproveitamento das riquezas nacionais, em favor do seu povo e não de grupos externos e internos, que sangram e exploram o seu trabalho. Ninguem tem o direito de suprimir pela mistificação, pela usurpação total do poder civil, ou pelo odio, as esperanças do país de solucionar, pacificamente, os grandes problemas do nosso tempo. Pensamos que é um dever usar todos os recursos ao nosso alcance na busca de soluções pacificas para a crise brasileira, sem cultivar ressentimentos pessoais, nem propositos revanchistas.

“Não nos entendemos para promover a desordem, mas sim para assegurar o estabelecimento de verdadeira ordem democratica, que não é a do silencio e da submissão. O salario mais justo, mais do que nunca, é uma exigencia do trabalhador, esmagado pela pobreza, e de todo o país, para a expansão do mercado interno. A retomada do processo democratico, pela eleição direta, é essencial para conquistar, ao mesmo tempo, o direito de decisão, que pertence ao povo, e a pacificação nacional, instrumento de mobilização do Brasil para o esforço do desenvolvimento com justiça social e autonomia nacional. Queremos que a paz com liberdade, a lei com legitimidade, a democracia não como uma palavra, mas como um processo de ascenção do povo ao poder. A frente Ampla é o instrumento capaz de atender com esse sentido, responsavelmente, ao anseio popular pela restauração das liberdades publicas e individuais, pela participação de todos os brasileiros na formação dos orgãos de poder e na definição dos principios constitucionais que regerão a vida nacional, e pela retomada dos esforços para formular e pôr em execução as reformas fundamentais e a reconquista da direção dos órgãos que decidem do destino do Brasil. A formação desse movimento – uma verdadeira Frente Ampla do povo, integrada por patriotas de todas as camadas sociais, organizações e correntes politicas – é a grande tarefa que nos cabe realizar com lealdade e coragem civica, mobilizando nossas energias e concentrando-as, sem desfalecimento, para reconduzir o Brasil ao caminho democratico. Movidos exclusivamente pela preocupação com o futuro do nosso país, não fizemos pactos, não cogitamos de novos partidos, nem de futuras candidaturas à presidencia da Republica. Conversamos sim, longamente, com objetividade e respeito, sobre a atual conjuntura politica, economia e social do país. Não temos ambições pessoais, nem o nosso espirito abriga odios; anima-nos tão somente o ideal, que jamais desfalecerá, de lutar pela libertação e grandeza do Brasil, com uma vida melhor para todos os seus filhos. Assim, só assim, evitaremos a terrivel necessidade de escolher entre a submissão e a rebelião, entre a paz da escravidão e a guerra civil. Montevidéu, 25 de setembro de 1967, (aa.) João Goulart, Carlos Lacerda.”

Lacerda tentou por todos os meios incluir Leonel Brizola na Frente. O ex-governador, que também vivia no exílio em Montevidéu recusou-se terminantemente e ainda fustigou seu cunhado, dizendo que não se surpreendera com o fato de Jango ter se entendido com Lacerda:

Foi por essa mesma falta de fidelidade a seus princípios que Goulart acabou deposto.

Na Câmara dos Deputados, o líder do MDB, Mario Covas, convocou a bancada para discutir a adesão à Frente Ampla. Houve alguns comícios, até que o movimento foi posta no ilegalidade pelo governo em abril de 1968, quando o movimento estudantil já estava nas ruas.

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