Congresso de Ibiúna

“Dirceu – cabelo comprido, barba por fazer, olhar cansado –, disse a seu velho rival na disputa pela liderança na ex UNE: ‘Dentro de um mês fazemos um novo Congresso’. No fim da tarde úmida e chuvosa de São Paulo, horas depois, a única tentativa de resistência à prisão: de um ônibus parado diante do QG da Força Pública, na Avenida Tiradentes, o ex-presidente da ex-UNE, Vladimir Palmeira, foge pela porta de emergência e corre descalço pela rua. Os soldados da Força logo o cercam; na luta, Vladimir perde a camisa. Sem camisa, Vladimir junta-se na prisão a Travassos e Dirceu, enrolados em cobertores. Os três líderes estudantis estavam com prisão preventiva decretada, finalmente executada depois de muitas vezes terem enganado a polícia”.

No dia 10 de outubro, quinta-feira, o sitiante Miguel Góis, de Ibiúna, a 70 quilômetros de São Paulo, foi reclamar com Otávio Camargo, que tinha sido barrado na porteira do sítio do amigo Domingos Simões, quando pretendia cobrar uma dívida pelo fornecimento de milho, por dois jovens armados. O delegado de polícia então juntou os fatos: no bairro de Curral, a 6 km de Ibiúna, sitiantes japoneses tinham visto “muita gente jovem com jeito de cidade”; a 2 km de Ibiúna, na estrada que liga a cidade a São Paulo, um dentista amigo do delegado havia encontrado espalhados, junto às árvores, folhetos sobre o movimento estudantil. Com isso, concluiu que o Congresso da proscrita União Nacional dos Estudantes, que os jornais anunciavam para aqueles dias, estava sendo realizado em sua jurisdição. Avisou o Dops que, na madrugada do dia 12, de sexta praa sábado, enviou três destacamentos da Força Pública para cercar as três únicas vias de acesso ao sítio. Um estudante de sentinela deu tiro para o ar ao ver os soldados, que também dispararam para cima com suas metralhadoras. Minutos depois, 920 estudantes se renderam sem luta e a Força Pública agiu pacificamente. No acampamento improvisado a polícia encontrou uma pistola Lugger, duas Berettas e um carabina.
O delegado Otávio Camargo descreveu assim o que viu:

“Moços e moças amontoados na casa, dormindo em camas de lona ou no chão. Como não cabiam todos na casa, muitos foram aproveitar a cobertura dos currais desocupados. Ficava porco num chiqueiro, gente no outro”.

Franklin Martins cuidava da organização do Congresso e logo viu que as condições era muito precárias, para dizer o mínimo. Apoiado por Vladimir Palmeira, José Dirceu disputava o comando da UNE com Jean Marc von der Weid, presidente do diretório acadêmico da Faculdade de Química, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, sustentado por Luís Travassos da Ação Popular. A diferença de votos era muito pequena e enquanto a AP queria desmobilizar o congresso, a Dissidência Comunista pretendia completar o processo. O cancelamento da votação manteria a UNE sob o comando da AP –e foi o que aconteceu.

Para Maria Paula Araujo, em Memórias Estudantis, o congresso “foi o marco final de todo aquele processo político, de confronto e radicalização, que estava sendo vivido pelo movimento estudantil, principalmente a partir de 1966, e que se acirrou depois do assassinato de Edson Luís”.

A polícia teve problema é para organizar a volta de tantos presos, como registraria a revista Veja:

“Junto ao galpão da Cooperativa de Cotia, vendo o embarque dos presos, o Coronel Ivo Barsotti – cansado de uma noite em claro – ouvia a queixa trazida por um tenente: ‘Onde vamos pôr os soldados que estão aí na rua? Os caminhões estão lotados com estudantes’. O coronel respondeu secamente: ‘Ora, não tem lugar? Então vai tudo a pé daqui até São Paulo’. Mas deu-se um jeito: apertando, empurrando, soldados e estudantes vieram juntos para São Paulo. Pelos 70 quilômetros de estrada, o comboio parou algumas vezes para não dispersar. Caboclos perguntavam: ‘É romaria, é excursão, é revolução?’, aos estudantes que pediam pão e água”.

Em fila indiana, os estudantes foram encaminhados aos ônibus. Num deles, oitenta moças se amontoaram de qualquer maneira, em função do pouco espaço. A primeira preocupação dos estudantes era evitar dar informações sobre o Congresso durante suas conversas. Após a prisão, constatou-se que metade dos presos não eram estudantes, o que não os impediu de serem enquadrados na Lei de Segurança Nacional. Somente às cinco horas da tarde, estudantes de várias faculdades reunidos no Crusp – Conjunto Residencial da USP – tiveram a confirmação do fim do Congresso.

Vladimir Palmeira quase escapou da prisão quando o ônibus parou. Segundo o Jornal do Brasil do dia seguinte à prisão, 32 estudantes foram detidos, dos quais nove líderes estudantis seriam removidos para o Forte de Itaipu, deliberação de uma reunião no Quartel-General que contou com a presença do comandante do II Exército, General Carvalho Lisboa, o Secretário da Segurança, Sr. Heli Lopes Meireles, e representantes da 2ª Auditoria Militar.Os detidos: Luis Travassos, Vladimir Palmeira, José Dirceu, Marco Aurelio Ribeiro, Luís Raul da Mata Machado, Franklin Martins, Antônio Guilherme Ribas, Valter Cover e Omar Lamo.

Fontes:

Veja, O Congresso interrompido, 16/10/68.

Jornal do Brasil, Estudantes detidos em Ibiúna serão levados para quartéis, 13/10/68.

ARAUJO, Maria Paula. “Memórias estudantis: da fundação da UNE aos nossos dias”. Rio de Janeiro: Relume Dumará; Fundação Roberto Marinho, 2007.

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