Censura

A censura não se instalou nas redações imediatamente após o golpe militar. Grande parte dos jornais apoiava o movimento. Os jornais esquerdistas foram fechados sem mais. A Última Hora, que imprimia mais de 100 mil exemplares por dia no Rio e em Recife, foi empastelada. certamente tentaria resistir, empastelados. Seu dono, Samuel Wainer, ainda estava asilado na embaixada do Chile quando recebeu a primeira proposta de compra do jornal, vinda de um grupo de empreiteiros de obras públicas.

Sandra Reimão, professora na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e pesquisadora do CNPq no estudo Fases do Ciclo Militar e censura a livros – Brasil, 1964-1978, ressalta que durante os primeiros quatro anos do regime militar conviveram um governo “de direita” e a presença, nas telas de cinema, nos teatros, nos shows e nas livrarias, de várias obras que faziam críticas a este mesmo regime.

Era o caso da revista Pif-Paf, lançada em maio de 1964, por Millôr Fernandes e que, na definição de Jânio de Freitas, “foi a primeira iniciativa editorial de resistência ao arbítrio do regime policialesco. O editorial da revista brincava com o assunto: “Em todos os números do Pif Paf falaremos da Liberdade. É um assunto que nos tem presos.”

Dois meses depois, Carlos Heitor Cony deu mais de 1.600 autógrafos no lançamento do livro O ato e o fato, coletânea de suas ácidas crônicas sobre o golpe, originalmente publicadas no Correio da Manhã, que em pouco tempo deixara de apoiar o golpe.

Na literatura surgiram obras críticas ao novo regime, como Quarup, de Antonio Callado, Senhor Embaixador, de Érico Veríssimo, Depois do Sol, de Ignácio de Loyola Brandão e Pessach, a travessia, do próprio Cony. Grande parte desses livros tinha Enio Silveira da Civilização Brasileira como editor.

Ligado ao Partido Comunista, respeitado como intelectual, Ênio foi preso várias vezes – a primeira, por ter escondido o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes – e sua editora, invadida. Tentou ainda reagir no campo jurídico impetrando um mandado de Segurança contra o Departamento Federal de Segurança Pública questionando o confisco de vários livros, todos feitos sem base legal, ou inquérito policial.

Essas firulas não tinham mais grande importância no Brasil do golpe. O ministro da Educação Flávio Suplicy de Lacerda, “organizou pessoalmente o expurgo de bibliotecas, queimou livros de Eça de Queiroz, Sartre, Graciliano Ramos, Guerra Junqueiro, Jorge Amado, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, segundo o jornalista Elio Gaspari.

Em 12 de dezembro de 1968, o general Jayme Portella de Mello “determinou a polícia Federal que se preparasse para calar as emissoras de rádio e televisão e enviar censores aos jornais do Rio e de São Paulo”. Carlos Castello Branco, do Jornal do Brasil, foi preso em Brasília; Osvaldo Peralva, diretor do jornal Correio da Manhã, no Rio. Era a preparação do AI-5.

No dia seguinte, censores invadiram as redações e realizaram uma blitz geral. No Jornal do Brasil, as tesouras foram enganadas pelo experiente –e corajoso – Alberto Dines, que usou e abusou das metáforas. A edição do dia 14 destacava que o dia anterior fora “o dia dos cegos”. A metereologia nada tinha a ver com o que os leitores podiam constatar no Rio e sim com o clima político: “Tempo negro. Temperatura sufocante, o ar está irrespirável, o país está sendo varrido por fortes ventos”.

O governo devolveu a bola com força: proibiu as agências internacionais de transmitirem boletins meteorológicos para o exterior e prendeu um diretor do jornal, levando a proprietária do JB, a condessa Pereira Carneiro, a suspender a sua circulação enquanto durasse a prisão do embaixador.

No início de janeiro, os censores começaram a deixar as redações. Mas a censura não acabara: a edição de 7 de janeiro de 1969 do Correio da Manhã, com a
“Abolida a censura à imprensa” teve sua tiragem apreendida e a própria dona do jornal, Niomar Muniz Sodré foi detida.

Elio Gaspari assinala que a dispensa dos censores foi quase negociada em encontros entre as autoridades com proprietários de empresas jornalísticas. “Criou-se, assim, uma rotina de comunicações entre a Censura e as empresas, quase sempre telefônica, informal. Duas tentativas de codificação das proibições fracassaram pela megalomania de seus objetivos. Uma delas vetava notícias que pudessem “tumultuar o comércio”, e outra determinava que não se divulgasse “notícia falsa ou fato verdadeiro, parcialmente ou de maneira deformada”. No começo, a preocupação dos militares era com notícias relacionadas a prisões ilegais e torturas. Mas o espectro da censura foi aumentando gradativamente: um decreto-lei encaminhado à Câmara ( e aprovado por 174 votos contra 42 e uma abstenção formalizou a censura prévia a livros e periódicos.

“Durante a presidência do general Medici”, anota Gaspari, “foram expedidas 360 proibições, uma das quais determinava que se esquecesse uma declaração pública do senador Filinto Müller, presidente do partido do governo, de que não existia censura no país. O diário mais massacrado foi a Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro. Sofreu mais de vinte apreensões, e teve censores dentro de seu prédio por dez anos e dois dias. Antes mesmo que Medici chegasse ao Planalto, o jornalista Helio Fernandes, seu proprietário e alma panfletária, passara por quatro cadeias e dois desterros, um na ilha de Fernando de Noronha, outro em Mato Grosso. Voltaria a ser preso em 1973, para uma permanência de seis dias no quartel da PE da Barão de Mesquita.”

No jornal O Estado de S. Paulo e no Jornal da Tarde, da família Mesquita, os espaços que deveriam ser ocupados por notícias censuradas foram ocupados por trechos d’Os lusíadas, de Luís de Camões e por receitas de bolo que nunca davam certo. Houve algumas manobras para driblar os policiais encarregados de apreender uma edição do jornal, como recordam os jornalistas Carlos Brickmann e Miguel Jorge. Nas emissoras de rádio e TV, as ordens vinham por telefone, rememora o jornalista Carlos Nascimento.

A chamada imprensa alternativa também foi atingida: os editores do Pasquim foram presos e os jornais como Opinião, Movimento, Versus, Ex e outros tiveram edições apreendidas e foram impedidos de divulgar até o que outros jornais publicavam. No Opinião, o conselho editorial incluía Fernando Henrique Cardoso e José Alvaro Moises. A canção Apesar de Você, de Chico Buarque, um dos mais atingidos pela tesoura, circulou por apenas um mês. Vendeu 100 mil cópias até ser proibida. Tropas do Exército fecharam a fábrica, e todos os discos guardados no estoque foram quebrados.

O jornalista Zuenir Ventura estima que foram censurados “cerca de 500 filmes, 450 peças de teatro, 200 livros, dezenas de programas de rádio, 100 revista, mais de 500 letras de música e uma dúzia de capítulos e sinopses de telenovelas”.

A Constituição de 1988 estabeleceu, na área cultural, o fim das censura às artes e aos meios de comunicação. Os livros que não tinham sido ainda liberados foram-no automaticamente, graças ao o inciso IX do artigo 5 que determina: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. O parágrafo 2. do artigo 220, no capítulo reservado à comunicação social, estabelece: “é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.”

De lá para cá, tem ocorrido episódios de censura vinculados a decisões judiciais, mas a liberdade é a regra.

Miguel Jorge fala da cobertura da Campanha e da censura prévia que era imposta aos jornais.

Marcelo Tas conta sobre a cobertura da votação da Emenda Dante de Oliveira, em Brasília

Sem comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Episódios

Episódios

A morte de Vladimir Herzog

Vladimir Herzog morreu no dia 25 de outubro de 1975, durante uma sessão de tortura, na rua Tomás Carvalhal, 1030,...
Leia mais
Episódios

AI-5

Quinto de uma série de decretos emitidos pelo regime militar, o Ato Institucional nº5 é diferente dos demais. Tido como...
Leia mais
Episódios

Anistia

No dia 2 de abril de 1964, o jornalista Austregésilo de Athayde publicou um artigo no Diário da Noite, pedindo...
Leia mais
Episódios

Atos institucionais

O instrumento utilizado pelos militares para impor a nova ordem foram os atos institucionais. Era uma forma de dar alguma...
Leia mais
Episódios

Brasil Nunca Mais

Em 1979, um grupo de religiosos e advogados iniciou um projeto extremamente ambicioso: obter junto ao Superior Tribunal Militar, em...
Leia mais
Episódios

Censura

A censura não se instalou nas redações imediatamente após o golpe militar. Grande parte dos jornais apoiava o movimento. Os...
Leia mais
Episódios

Comício da Central

“Desgraçada Democracia a que tiver que ter que ser defendida por esses democratas” Com a temperatura política cada vez mais...
Leia mais
Episódios

Congresso de Ibiúna

“Dirceu – cabelo comprido, barba por fazer, olhar cansado –, disse a seu velho rival na disputa pela liderança na...
Leia mais
Episódios

Diretas Já

Desde que o primeiro ato institucional permitiu a eleição indireta do marechal Castello Branco, as diretas passaram a fazer parte...
Leia mais
Episódios

Eleições de 1982

As primeiras eleições diretas para governador após o golpe militar ( e a parcial de 1965) aconteceram em 15 de...
Leia mais
Episódios

Exílio

O golpe militar acabou com o governo de Jango e jogou centenas de governistas na oposição. Ao mesmo tempo, a...
Leia mais
Episódios

Frente Ampla

Calros Lacerda, ex-governador da Guanabara e participante ativo do golpe de 1964 logo se desencantou com o regime militar, que...
Leia mais
Episódios

Generais no poder

João Baptista de Oliveira Figueiredo foi o último general a chegar à presidência da República na ditadura. A ele caberia...
Leia mais
Episódios

Golpe de 64

30 de março de 1964, madrugada. Em Juiz de Fora, o general Olympio Mourão Filho, prestes a se aposentar, ouviu...
Leia mais
Episódios

Greves do ABC

Na edição de primeiro de abril de 1964, o Jornal do Brasil informou que Comando Geral dos Trabalhadores decretara greve...
Leia mais
Episódios

Legalidade

Eleito vice-presidente para o período 1956 a 1960, João Goulart se reelegeu para o cargo, que assumiu em 1961. Obteve...
Leia mais
Episódios

Luta Armada

Foi Leonel Brizola quem primeiro tentou derrubar a ditadura de 1964 pelas armas. Chegou mesmo a estabelecer um contato direto...
Leia mais
Episódios

Maria Antônia

Quem passasse pela rua Maria Antônia, no centro de São Paulo no dia 2 de outubro de 1968, seria surpreendido:...
Leia mais
Episódios

MDB e Arena

O golpe militar de 1964 não acabou imediatamente com os partidos políticos existentes, muito embora o primeiro dos atos institucionais...
Leia mais
Episódios

Morte de Edson Luís

Relatório das circunstâncias da morte de Edson Luiz Dados PessoaisNome: Edson Luis de Lima SoutoCidade: (onde nasceu) BelémEstado: (onde nasceu)...
Leia mais

Personagens

Personagens

Dante de Oliveira

Desde que o primeiro ato institucional permitiu a eleição indireta do marechal Castello Branco, as diretas passaram a fazer parte...
Leia mais
Personagens

Franco Montoro

Filho de um tipógrafo descendente de italianos e de uma dona de casa descendente de espanhóis, André Franco Montoro nasceu...
Leia mais
Personagens

João Figueiredo

João Baptista de Oliveira Figueiredo foi o último general a chegar à presidência da República na ditadura. A ele caberia...
Leia mais
Personagens

José Dirceu

Aos 22 anos, o líder dos estudantes paulistas era mineiro, mas nem um pouco discreto. Do teto de um ônibus...
Leia mais
Personagens

Leonel Brizola

Nasceu Brizola, mas não Leonel: até um ano e três meses sua mãe, Onívia de Moura Brizola, só o chamava...
Leia mais
Personagens

Lula

Luis Inácio da Silva nasceu no dia 27 de outubro de 1947 numa pequena casa rural com a uma légua...
Leia mais
Personagens

Mário Covas

Mário Covas Júnior nasceu no dia 21 de abril de 1930, em santos, no litoral paulista. Filho de um português...
Leia mais
Personagens

Miguel Arraes

Único filho homem e o caçula dos sete irmãos, Miguel Arraes de Alencar nasceu em 15 de dezembro de 1916...
Leia mais
Personagens

Paulo Evaristo Arns

Ele chefia oito bispos, 2.100 sacerdotes, quase 300 paróquias, 4.000 freiras pertencentes a 124 organizações e meia centena de grupos...
Leia mais
Personagens

Tancredo Neves

Quinto dos doze filhos de Francisco de Paula Neves, um misto de comerciante e político com Antonina de Almeida Neves,...
Leia mais
Personagens

Teotônio Vilela

Um dos dez filhos de um bem sucedido proprietário rural, o alagoano Teotônio Brandão Vilela nasceu em Viçosa no dia...
Leia mais
Personagens

Ulysses Guimarães

Primeiro dos cinco filhos da professora Amélia Correa Fontes e do coletor de impostos Ataliba Guimarães, Ulysses Silveira Guimarães nasceu...
Leia mais