Paulo Evaristo Arns

Ele chefia oito bispos, 2.100 sacerdotes, quase 300 paróquias, 4.000 freiras pertencentes a 124 organizações e meia centena de grupos e movimentos leigos. 

Vendeu o majestoso palácio episcopal por 17 milhões de cruzeiros e foi morar numa casa comum, com muro baixo, na rua Mocóca, no alto do Sumaré. E com o dinheiro do palácio, comprou ou deu entrada em pequenos lotes espalhados pela periferia, permitindo a centenas de mllhares de paulistanos, construir um espaço coletivo onde hoje discutem os problemas comunitários, realizam cursos de treinamento profissional e cultos, mesmo sem a presença de padres. 

D. Paulo Evaristo, cardeal Arns, como assina os documentos, é corintiano fanático, a ponto de ter sido capa da revista Placar. Um homem tranquilo, sem angústias, capaz de falar, num tom de voz moderado e suave, quase inaudível para quem não está acostumado, em histórias terríveis de perseguições e torturas a presos políticos e na miséria brutal do povo da periferia, sem perder a fé e a esperança que o faz preocupar-se com a construção de uma nova sociedade, mais justa, mais humana.

Durante dez anos e meio viveu em Petrópolis, trabalhando com o povo dos morros, das favelas, percorrendo vielas, entrando em barracos, cativando crianças e moradores com balas, carinho e sorrisos. Poucos sabem disso, pois na linguagem fria e objetiva da imprensa não há espaço para essas referências, como também não existe lugar para suas lembranças do tempo de criança, quando gostava de brincar no rio que corria pelas terras da pequena propriedade de seu pai, ou das intermináveis conversas ao pé do tacho que cozia a ração para os porcos, povoadas de lendas e assombrações. D. Paulo fez pós-graduação em Paris, na Sorbonne. Mas não foi ali que acumulou imenso conhecimento do sentimento dos homens, sua fé total na solidariedade, por cima das divergências de credo e de opiniões políticas, sua confiança absoluta no futuro da humanidade, que permitem a esse homem sereno seguir adiante na luta em favor dos direitos humanos, sem perder a tranquilidade, ostentando uma firmeza permanente que levou a Universidade Notre Dame, a maior organização universitária católica dos Estados Unidos, a conceder-lhe o título de doutor honoris causa numa solenidade presidida pelo próprio presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter.

Foi esse homem que o papa tornou cardeal da maior arquidiocese católica do mundo – e que pouco depois, dividiria esse poder imenso com oito bispos, chamando outros religiosos para um trabalho conjunto que revolucionou a Igreja brasileira, sem sobressaltos nem publicidade demasiada. Um homem que nunca nutriu Simpatia pelo regime militar. Mas disse pouco. E não falou que nos porões da repressão o nome do cardeal era sempre citado, na relação dos maiores inimigos dos torturadores e assassinos. Posto que ele conquistou apesar – ou justamente por causa – de toda sua capacidade de diálogo, de sua argumentação tranquila, porém firme, de episódios como este, ocorrido em fins de 1974, num almoço em Brasília. Presentes, D. Paulo, o general Golbery do Couto e Silva e uma terceira pessoa. Num momento em que ficou sozinho com o general, todo-poderoso senhor dos gabinetes do Planalto, o cardeal dirigiu-se a Golbery e disse:

“Só acreditarei que o senhor é contra a tortura se o senhor suspender a censura aos grandes jornais”.  

Golbery disse que era impossível realizar o o do cardeal, pois o governo tinha medo que os jornais “atirassem pedras para trás”, ou seja, publicassem o que havia sido censurado nos anos anteriores. O cardeal garantiu-lhe que não aconteceria. E dois meses depois – ninguém pode dizer ao certo quanto pesou a conversa – os censores deixavam a redação de Estado de S. Paulo. Mas permaneceriam no combativo semanário da Cúria Metropolitana, O São Paulo, um dos últimos a serem atingidos pelo fim da censura. 

A Carteira da ABI 

D. Paulo fuma cachimbo, usa em sua pasta, permanentemente, uma carteirinha da Associação Brasileira de Imprensa, adora laranja –  chupa três por dia, manipulando-as como se fossem bifes: segura com o garfo e abre a casca com a faca, comendo aos, nacos — e uma secretária, irmã Lourdes, como verdadeira barreira seletiva: era impossível conseguir contato sem passar pelo crivo dela. 

Mas sua agenda não se parece nem um pouco com a de outras autoridades, seguramente menos conhecidas do que ele. O próprio cardeal reconhece que não tem rotina, a não ser a de reservar pelo menos um dia por semana para ler e se informar sobre questões teológicas e leigas. A maior parte do tempo, percorre a cidade: faW, escolas, paróquias vicariatos, ou consome em reuniões de avaliação com seus auxiliares. É nessas reuniões, por voto direto, que se traçam as grandes linhas de ação da Igreja em São Paulo. 

O Plano Espiritual  

Um dos únicos hábitos religiosos do cardeal, no sentido figurativo, é o de dormir entre 10h30 e 11 horas. Acorda sempre às seis e meia € em casa, não usa o clergyman ou batina, preferindo um blusão marrom escuro. 

Suas preocupações com questões vinculadas à vida terrena dos homens não quer dizer que deixe de lado o plano espiritual: ao contrário, desde sua ascensão ao posto de cardeal arcebispo, as grandes festas religiosas, como o Natal e a Páscoa têm sido marcadas por gigantescas m Concentrações de fiéis na praça da Sé, que foi efetivamente transformada em um espaço do povo, que ali se reuniu para chorar a morte de Vladimir Herzog, ou para assistir a missa de Sexta-Feira da Paixão. 

Histórias sobre seu modo singular de agir não faltam. Entre elas, a de que, momentos depois de saber que o cronista Lourenço Diaféria seria enquadrado na Lei de Segurança Nacional, por sua crônica relatando o feito de um sargento que morreu no zoológico de Brasília, ao salvar uma criança — onde o Ministro do Exército encontrou “ofensas à imagem de Caxias” – ele tirou cinco cópias xerox do texto e mandou “para cinco amigos influentes” lerem. Depois de algumas horas, perguntou a cada um deles o que tinha achado. Todos elogiaram e o cardeal perguntou: 

“Mas não há uma ofensa ao Duque de Caxias?” 

Ninguém a tinha localizado, maravilhados com a homenagem ao heroísmo do sargento. 

Um Corintiano 

Sua paixão pelo futebol começou no tempo que vivia no Rio. “Cada vez que o Flamengo perdia- conta – os favelados se embebedavam, brigavam e eu tinha que ir lá. Se perdia gol, tomavam um pileque; dois gols, dois pileques”. Para evitar isso, passou a ir ao campo e apaixonou-se pelo Flamengo. Em São Paulo, é Corintiano. E já jogou muito futebol, embora limite-se a apitar partidas entre religiosos, torcendo sempre para os mais velhos.

Em seu caso, nem mesmo uma antiga lenda de religiosos tem significado. Conta a história que  estavam numa sala três padres: um dominicano, um franciscano, um jesuíta. De repente, acaba a luz. O dominicano aproveita a oportunidade para improvisar um magnífico sermão sobre as luzes e as trevas, o bem e o mal. O franciscano, em silêncio, agradece a Deus a oportunidade de meditar e inicia as suas preces. O jesuíta sai por momentos da sala e troca o fusível.  D. Paulo soma os dons oratórios do dominicano, a tranquilidade do franciscano e o pragmatismo do jesuíta. E de esperança em esperança, como diz seu símbolo de cardeal, segue dom Paulo. O cardeal do povo. 

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