Lula

Luis Inácio da Silva nasceu no dia 27 de outubro de 1947 numa pequena casa rural com a uma légua – cerca de seis quilômetros de Caetés e a três léguas de Garanhuns, no Planalto da Borborema, interior de Pernambuco. Cimento só no piso da sala, no mais, chão batido. Os móveis eram poucos: mesa de comer ladeada por banco e tamboretes de madeira, várias redes e uma cama de casal.

Como outras propriedades rurais do agreste pernambucano, o pequeno sítio não tinha luz elétrica. O fogão era a lenha e a água – amarela, escassa, salobra e cheia de sapinhos – vinha de um buraco cavado no chão. Lavar roupa, só no Riacho Fundo, distante quase duas horas a pé. Banho, um por semana. Era o oitavo lance da escadinha que ainda teria mais uma menina, cinco anos mais tarde. Quando o garoto nasceu, o marido de dona Lindu estava longe: partira para o sul, levando uma nova mulher.

A família acabou se reencontrando em Vicente de Carvalho, um subúrbio do Guarujá, no litoral de São Paulo, mas os pais se separaram definitivamente e dona Lindu e seus filhos foram para a Vila Carioca, bairro operário na divisa de São Paulo com São Caetano do Sul, onde já viviam alguns parentes. Lula, como ficaria conhecido, trabalhou como engraxate e numa tinturaria até entrar no curso de torneiro mecânico no Serviço Nacional da Indústria.

Ao contrário do irmão, conhecido como Frei Chico, que ligou-se ao Partido Comunista, ele não ligava para política. Ainda assim, esteve num comício de Adhemar de Barros, um dos candidatos a presidente em 1960. Na volta para casa, com um adesivo na lapela, foi posto para fora do bonde por um grupo que empunhava vassouras, símbolo da campanha de Jânio Quadros – adversário de Adhemar. Em março de 1964, ficou alheio à movimentação política:

Meu negócio era ler o Diário da Noite porque tinha a coluna que falava de futebol e eu queria ler tudo que falava do Corinthians, era isso. Não tinha cabeça para outra coisa.

Mas 1964 o marcaria definitivamente: ele segurava um parafuso de estampo em plena madrugada, quando seu companheiro, provavelmente sonado, largou o braço da prensa e esmagou seu dedo mindinho. Ficou meses desempregado e foi trabalhar na Villares em São Bernardo. Em 1968, atendendo a mais um convite de Frei Chico, participou, pela primeira vez, de uma reunião no sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo, ao término da qual decidiu se associar. Na eleição seguinte, Frei Chico o colocou na chapa do sindicato.

Casou com uma tecelã, que morreu de hepatite durante a gravidez. Quando houve nova eleição, Lula já figurou como primeiro-secretário da chapa da situação. Sua tarefa era atender casos relacionados com a Previdência e assim conheceu uma viúva, Marisa Letícia, com que se casou. Por essa mesma época, teve um contato com um dirigente do Partido Comunista, mas recusou o convite para tornar-se um militante como o irmão. Recusou a proposta.

No dia 19 de abril de 1975, Lula tomou posse como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Uma das grandes preocupações de sua gestão foi a de modernizar a comunicação com os trabalhadores, por meio de jornais e boletins que utilizavam intensamente os cartuns de Laerte.

A descoberta de que o governo havia expurgado os reajustes salariais manipulando os dados da inflação, levada a Lula por Eduardo Suplicy fez com que ele e outros sindicalistas fossem a Brasília, na esperança de conversar com o presidente Ernesto Geisel. Foram recebidos por quatro ministros e ganharam uma capa da revista Veja, com o desenho de três trabalhadores que pareciam encaram o leitor e a pergunta Redemocratização – E os operários? Segundo a revista, os metalúrgicos estavam mais interessados em mudar a política salarial e ampliar seu espaço de atuação do que em reaver os 34,1%. Numa frase, a matéria informava que os metalúrgicos de São Bernardo podiam até entrar em greve pela reposição.

Em 1978, Fernando Henrique Cardoso saiu candidato a senador numa sublegenda do MDB e teve Lula como seu cabo eleitoral entre os trabalhadores. O metalúrgico diria mais tarde que a escolha de FHC ocorrera em função da postura de Franco Montoro:

Minha opinião é a mesma sobre Arena e MDB. São dois partidos dos patrões, dos burgueses, e pouco farão pelo trabalhador, salvo raríssimas exceções. Quando nós mantivemos contato com o professor FHC, foi dito a ele, e ele mesmo tem consciência disso, de que o ideal pra nós seria que tivéssemos como candidato um dirigente sindical ou um trabalhador, mas que, devido a isso não ser possível e por sabermos que o Montoro não era ligado à classe trabalhadora e também de não termos condições de defender a Arena; só nos restava apoiar o FHC e ele mesmo fazia questão de dizer que não era o candidato dos trabalhadores.

Às seis da manhã do dia 12 de maio de 1978, mais de 3.000 metalúrgicos da Scania, em São Bernardo, entraram na fábrica, mas não ligaram as máquinas, na primeira greve operária depois do AI-5. Nessa greve, Lula atuou como negociador e ajudou a costurar um acordo favorável aos trabalhadores, que ele mesmo conseguiu aprovar na assembleia da fábrica.

Em março de 1979, nova greve, agora geral, levou 80 mil metalúrgicos ao estádio da vila Euclides (São Bernardo), exigindo reajustes acima dos índices oficiais. De acordo com o sindicato 113 mil trabalhadores cruzaram os braços em São Bernardo e Diadema, acompanhados por 47 mil e Santo André e região e outros 25 mil de São Caetano. O governo de João Figueiredo endureceu, intervindo no sindicato e a greve acabou duas semanas mais tarde, sem conquistas, exceto a de uma trégua, durante a qual foram retomadas as negociações.

Em fevereiro de 1980, na esteira do reforma partidária aprovada pelo Congresso, Lula fundou o Partido dos Trabalhadores. Menos de dois meses depois, comandava outra greve em São Bernardo. Durou 41 dias, foi duramente reprimida, teve grande apoio da sociedade e de políticos como Teotônio Vilela, Fernando Henrique Cardoso, Airton Soares e Franco Montoro. Lula foi preso e afastado do sindicato. Um dos muitos episódios daquela greve dá ideia do clima tenso da época. No sábado, 26 de abril, a polícia prendeu dois dirigentes que estavam no carro do deputado Freitas Nobre. Alemão escapou de ser detido em operação semelhante em torno do carro do então deputado estadual e jornalista Fernando Morais, onde também estava o vice-governador Orestes Quércia. Acabaram todos no gabinete do prefeito Tito Costa, do PMDB, onde encontraram outros políticos. Teotônio Vilela telefonou para o ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, que só fez uma pergunta:

E o outro, onde anda o outro?

Era Osmar Mendonça, o Osmarzinho, ligado ao MR-8, que continuava foragido. A resposta de Teotônio Vilela, curta e grossa indica por que esse alagoano tornou-se uma lenda:

Não sei. E se soubesse, não lhe diria.

Embora os protestos estivessem proibidos, o Comando de Greve programara uma missa na matriz de São Bernardo e uma caminhada até o estádio de Vila Euclides, no dia primeiro de maio. E naquela manhã, oito mil policiais ocuparam o centro de São Bernardo, enquanto nas rodovias estaduais, bloqueios e comandos da Polícia Rodoviária e do DSV dificultavam o acesso dos manifestantes – e por tabela, de outros cidadãos que pretendiam apenas passar o feriado no litoral. Vigiada pela Tropa de Choque e pelo pessoal do Doi-Codi, uma multidão lotou a matriz de São Bernardo, onde dom Claudio Hummes e 30 sacerdotes vestidos de branco oficiaram a missa. Na homilia, o bispo reafirmou seu apoio aos grevistas e aos presos, mas deixou claro que não a Igreja não comandava nada. Houve confronto entre os manifestantes e a polícia, até Brasília liberar a caminhada e a manifestação no estádio ou no paço municipal. No momento em que os policiais começaram a se retirar, a fïlha de um metalúrgico, Cláudia Mari Palma, de 10 anos, parou o comandante da operação e entregou-lhe uma rosa amarela. Emocionado, o coronel Braga deu seu apito de comando para a menina. Pouco depois, na igreja vazia, o senador Teotônio Vilela ajoelhou-se e caiu em prantos.

No estádio, depois de constatar que o ato fora realmente liberado, parte da multidão foi para casa. Quem ficou pode ouvir o discurso de Osmarzinho, que entrou e saiu de Vila Euclides graças à cobertura de um grupo de deputados e jornalistas. E quando os helicópteros do Exército sobrevoaram o estádio, a multidão acenou com as bandeiras brasileiras e cantou o Hino Nacional. Lula acompanhou toda a movimentação pelo rádio de sua cela no Dops. No dia seguinte, o Superior Tribunal Militar negou habeas-corpus a ele e aos outros sindicalistas cuja prisão preventiva já havia sido pedida. A greve começava a fraquejar, com muitos trabalhadores voltando ao trabalho para evitar a demissão por abandono de emprego, possível depois do trigésimo dia de paralisação. No dia cinco de maio, os presos iniciaram uma greve de fome – contra a opinião de Lula:

Quando decretaram a greve de fome eu até tentei guardar umas balinhas embaixo do travesseiro. O Djalma descobriu e jogou fora minhas balinhas.

No dia oito, o juiz Nelson da Silva Machado Guimarães, da 2a Circunscrição da Justiça Militar decretou a prisão preventiva de Lula e de outros nove membros da diretoria do Sindicato de São Bernardo, enquanto mulheres e crianças percorriam o centro de São Bernardo pedindo a reabertura das negociações.

Após 41 dias de paralisação, o fim da greve foi oficializado no dia 11 de maio, numa assembleia no interior da igreja matriz de São Bernardo. Depois de discursar, Osmarzinho foi preso por quatro agentes do Doi-Codi. Airton Soares, que acompanhava o sindicalista, acha que o intuito dos agentes era provocar um tumulto que justificasse a intervenção da Tropa de Choque. Um apelo aprovado na assembleia e transmitido por dom Claudio Hummes acabou com a greve de fome dos sindicalistas presos. Mas para frustração de Lula, ele não pode realizar seu desejo mais imediato:

Eu até sonhava em comer um frango daqueles assados naquelas máquinas que rodava na frente do bar, bicho! Na hora que a gente acabou com a greve de fome: “Vamos buscar frango!”. Aí, vem um médico e fala: “Trinta gramas, um copinho de suco de laranja, de mamão”. Bicho, a minha boca espumava de água, de vontade de comer o frango. Eu queria comer com couro e tudo. Aí, levou uns três dias para comer esse maldito frango!

Em 1982, o PT enfrentou seu primeiro teste eleitoral, com candidatos que em sua grande maioria, os candidatos eram como o partido: jovens e novatos. Entre os candidatos à Câmara Federal, 75,5% jamais tinham disputado uma eleição. Mais da metade estava entre os 18 e os 35 anos. Quinze por cento não havia feito mais do que o curso primário. Tinham ligação com os sindicatos do ABC, 23% dos candidatos à Assembléia e 18% dos postulantes à Câmara Federal.

Todos eram tratados da mesma forma e recebiam a mesma quantidade do mesmo tipo de material impresso, não importando se tinham 50 ou cinco mil apoiadores.

Na propaganda política na TV, ainda regida pela Lei Falcão, que limitava a exposição a uma foto e um slogan, Lula aparecia com uma barba assustadora e uma definição que ele mesmo fizera, sem a ajuda de qualquer marqueteiro:

Luis Inácio da Silva. Ex-engraxate, ex-tintureiro, ex-torneiro mecânico, ex-sindicalista. Um brasileiro igualzinho a você.

Apesar da exposição assegurada pela mídia, ele ainda era pouco conhecido. Estava em plena campanha quando o dono de um bar em São Paulo perguntou a um freguês se sabia quem era o barbudo ali sentado. Lula tomava café depois de um comício. O homem disse que não. O dono do bar, indignado, insistiu: “Mas como você não conhece? Lembra… da televisão!”. Cansado de tanta insistência, o senhor respondeu: “Já sei quem ele é… É o Zé do Caixão!”

Em 15 de novembro de 1982, os paulistas elegeram Franco Montoro, com 5.209.952 votos. Lula ficou em quarto lugar, depois de Reynaldo de Barros do PDS e Jânio Quadros, do PTB, com 1,1 milhão de votos.

Mauro Montoryn fala sobre a participação do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva na Campanha das DIretas Já

Alberto Goldman conta sobre os momentos em que esteve junto ao ex-presidente durante os comícios das DIretas.

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