Golpe de 64

30 de março de 1964, madrugada. Em Juiz de Fora, o general Olympio Mourão Filho, prestes a se aposentar, ouviu o discurso de Jango pelo rádio. Às duas e meia da manhã, acendeu um charuto e registrou no seu diário a seguinte frase: “Não estou sentindo nada e, no entanto, dentro de poucas horas deflagrarei um movimento que poderá ser vencido, porque sai pela madrugada e terá de parar no meio do caminho”.

Mourão Filho, mineiro de Diamantina, desde muito antes já era conhecido nos meios políticos. Em 1937 redigira o texto que ficou conhecido como Plano Cohen, que simulava um plano comunista de derrubada de Getulio Vargas, abrindo caminho para o surgimento da ditadura que ficou conhecida como o Estado Novo.

Em 1961, quando os três ministros militares barraram a posse do vice-presidente, diante da renúncia de Jânio Quadros, Mourão propusera ao marechal Henrique Lott pegar em armas para garantir a posse de Jango. Três anos mais tarde, sua disposição era diametralmente oposta.

O movimento não saiu naquela madrugada. No início da tarde de 31 de março, o governo brasileiro e o norte-americano já tinham notícia dos planos de Mourão, mas seus homens continuavam em Juiz de Fora.

Afinal as tropas golpistas avançaram 25 quilômetros e pararam. Foi quando o general divulgou um manifesto palavroso em que denunciava os inimigos da Ordem e Democracia, as organizações espúrias do sindicalismo, os sargentos insubordinados e conclamava brasileiros e militares esclarecidos a “restaurar, no Brasil, o domínio da Constituição e o predomínio da boa-fé no seu cumprimento.”

O caminho, dizia o documento, passava pela deposição do presidente da República. Com outras palavras, mais bem escritas, era o que pregava o editorial do jornal Correio da Manhã, o mais influente do pais. Sob o titulo de Basta!, terminava assim: “A Nação não admite nem golpe nem contragolpe. Quer consolidar o processo democrático para a concretização das reformas essenciais de sua estrutura econômica. Mas não admite que seja o próprio Executivo, por interesses inconfessáveis, quem desencadeie a luta contra o Congresso, censure o rádio, ameace a imprensa e, com ela, todos os meios de manifestações do pensamento, abrindo o caminho à ditadura. Os Poderes Legislativo e Judiciário, as classes armadas, as forças democráticas devem estar alertas e vigilantes e prontos para combater todos aqueles que atentarem contra o regime. O Brasil já sofreu demasiado com o Governo atual. Agora, basta!”

Na manhã do dia 31, o presidente João Goulart se reuniu com os chefes militares para um balanço da situação, no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. E, sem êxito, os meios janguistas tentavam uma articulação fora do Palácio. No fim da tarde, o manifesto de Mourão Filho já era lido na Guanabara. No mesmo lugar, Amaury Kruel, o comandante do II Exército, sediado em São Paulo, recebeu um telefonema do presidente, pedindo apoio no sentido de enfraquecer ou abortar o golpe.

Desde o dia 29, os golpistas esperavam pela adesão de Kruel, que condicionou sua resposta definitiva a uma conversa com Jango. Ao telefone, o general que o presidente considerava um aliado firme comprometeu-se a tentar salvar o mandato do presidente, caso ele se afastasse do Comando Geral dos Trabalhadores, de orientação comunista. Jango não voltou atrás:

–Não posso também deixar de lado as forças populares que me apoiam. –Então, presidente, nada podemos fazer.

Às 23h, Kruel decidiu-se por aderir ao golpe, bem como o governador de São Paulo, Adhemar de Barros. Na Câmara dos Deputados, o líder do PTB Almino Affonso recebeu um bilhete de seu colega Doutel de Andrade: “Kruel aderiu” e, com a notícia de que São Paulo era agora participante do movimento, era interditado o Aeroporto Internacional de Brasília, bem como as rodovias que ligavam à capital federal aos Estados.

No Rio Grande do Sul, o palácio Piratini não tinha condições de ser novamente o quartel-general da legalidade, pois o governador Ildo Meneghetti aderiu rapidamente ao golpe, transferindo-se para Passo Fundo, para não ser enquadrado pelos legalistas. Leonel Brizola tinha ainda lide-rança, mas não tinha poder suficiente. Os tais grupos dos onze, alardeados aos quatro cantos como a força do povo, revelaram-se um blefe. O general Ladário Telles conseguiu afinal controlar algumas emissoras, mas ao contrário do que ocorrera em 1961, a nova Rede da Legalidade não deslanchou.

Os ventos do golpe chegaram também a Pernambuco. Na madrugada do dia 1º, o governador de Pernambuco, Miguel Arraes, foi surpreendido por uma comitiva do IV Exército no Palácio das Princesas.

Já na tarde do dia 1º, Jango se encontrava em Brasília, na Granja do Torto, com o chefe da casa civil, Darcy Ribeiro, Almino Affonso, Doutel de Andrade e Tancredo Neves e, a dez mãos, produzi-ram um manifesto denunciando o caráter reacionário do golpe.

Membro do Comitê Central do Partido Comunista e deputado federal eleito pelo PST, o jornalista Marco Antônio Tavares Coelho esteve no palácio do Planalto naquele dia conturbado e foi perso-nagem de uma evidente demonstração do descompasso entre o estado de espírito de alguns go-vernistas e a realidade. Darcy Ribeiro, chefe da Casa Civil de Jango queria que o deputado pren-desse os presidentes do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional. E oferecia armas para executarem a ordem. Cada vez mais sem apoio, Jango vai da capital federal ao Rio Grande do Sul. Eram três e quinze da manhã quando um pequeno comitê de recepção recebeu o pre-sidente da República na pista do aeroporto Salgado Filho, sob estrita vigilância militar e cercado por carros de combate das tropas legalistas. Durante o vôo, no entanto, Auro de Moura Andrade, o presidente do Congresso, já declarava vaga a cadeira do presidente da República, dando a posse ao presidente interino Ranieri Mazzini.

Jango encerrou a questão – e um episódio crucial da história com uma frase direta:

Não quero derramar o sangue dos brasileiros para defender meu mandato.

De Porto Alegre rumou a São Borja, sua cidade de natal. De lá, asilou-se no Uruguai.

Mais significantes do que os acontecimentos que tiraram Jango do poder seriam os desdobramen-tos da tomada de poder pelos militares. Poucos dias após a deflagração do golpe, era emitido o primeiro de uma série de atos institucionais, ainda sem número, que dava permissão ao governo de cassar mandatos e suspender direitos políticos, entre outras prerrogativas. Este dispositivo permitiu o afastamento do meio político de oposicionistas considerados ameaça à nova ordem, e, ao mesmo tempo, aglutinou políticos de partidos e orientações diversas na oposição, que mais tarde seria institucionalizada pelo próprio governo, com o AI-2.

Bibliografia

GASPARI. EIio. A Ditadura Envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. pp. 45-74.

GUEDES, Carlos Luís. Tinha que ser Minas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979.

MORAES, Dênis de. A esquerda e o Golpe de 64. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989.

MOURÃO FILHO, Olympio. Memórias: a verdade de um revolucionário. Porto Alegre: L&PM Editores, 1978.

SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco (1930-1964). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

SILVA, Hélio. 1964: Golpe ou Contragolpe?. Porto Alegre: L&PM, 1978.

Fafá de Belém fala sobre sua infância: política dentro de casa e lembranças do golpe em 1964.

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