Leonel Brizola

Nasceu Brizola, mas não Leonel: até um ano e três meses sua mãe, Onívia de Moura Brizola, só o chamava de gurizinho. Ela queria batizá-lo como Itagiba. Mas o pai, o lavrador José de Oliveira Brizola, mais conhecido como Beja, não aceitou, e, antes que os dois resolvessem o impasse, ele já estava entre os mil homens arregimentados pelo camponês maragato (federalista) Leonel da Rocha para participar da Revolução de 1923. Beja acabou sendo assassinado perto de sua casa, em Cruzinha, povoado que pertencia ao município de Passo Fundo.

Com pouco mais de um ano, o órfão costumava percorrer o quintal, um pedaço de pau transformado em ginete, outro na mão como espada, dizendo-se Leonel da Rocha. A irmã mais velha, Francisca, a Quita, lembrou-se disso ao registrar o caçula dos cinco irmãos: ela, Irani, Paraguassu, Frutuoso (Xito) e Leonel de Moura. Todos descendentes dos Brizola que chegaram ao Brasil entre 1700 e 1720, para trabalhar com café e tropas.

Com a morte do marido, Onívia transferiu-se para São Bento, onde Leonel, nascido em 22 de janeiro de 1922, começou a estudar e a frequentar cultos metodistas ao lado da mãe. Aos 9 anos, o garoto mudou-se com Quita para Passo Fundo. Por três anos, foi bom aluno da escola Joaquim Fagundes dos Reis, como dizem suas notas: 9,5 em aritmética; 9,0 em história; 8,6 em português; 9,3 em ciências; 9,6 em geometria; 8,9 em geografia; 9,7 em lições de cousas; 9,2 em moral e cívica. Regular, só em civismo: 7,0. (Em 1933, foi o segundo melhor aluno, com média 8,9).

Para prosseguir os estudos, foi para Carazinho, empregando-se no Hotel Scherer, onde lavou pratos, carregou malas e vendeu jornais. Bem em frente, vivia o reverendo Isidoro Pereira e sua esposa Elvira, donos de um colégio. Um dia o garoto bateu na porta e pediu para falar com o reverendo: ‘Eu quero estudar. Tenho uma vaca e o meu padrinho Otávio vai vender o leite para pagar meus estudos. Além disso, posso fazer alguns trabalhos como lavar a louça, carregar água e outras coisas”.

Impressionado com a decisão, o reverendo matriculou o menino de 12 anos e ainda hospedou-o. Seu padrinho Otávio, um negro velho que tirava leite, cortava madeira, encilhava cavalos na pequena propriedade dos Brizola em São Bento, foi a figura masculina com que mais teve contato nos primeiros anos de vida.

Leonel deu-se bem na nova escola: no Dia da Independência, foi escolhido para discursar. E a partir dessa época começou a acalentar o sonho de fazer uma faculdade em Porto Alegre. Aos 13 anos, com a passagem de segunda classe paga pelo prefeito, tomou o trem para a capital. Lá deveria frequentar a Escola Técnica de Viamão, na vaga reservada à Prefeitura de Carazinho.

Mas a vida em Porto Alegre não foi fácil para o jovem sonhador. Ao chegar, nem sabia para onde ir, até que alguém sugeriu o Hotel Guaíba, na rua Voluntários da Pátria. Dois dias mais tarde, soube que a escola fora extinta. Ainda assim, resolveu ficar. Sem escola e sem dinheiro, hospedou-se numa casa de negros, que o ajudaram a procurar emprego nos anúncios de jornal. Foi engraxate e vendedor de jornais até conhecer a elegante Galeria Chaves, na rua dos Andradas, conhecia como Rua da Praia, onde desempenhou diversas funções, entre elas a de ascensorista. Em 1939, diplomou-se como técnico rural no Instituto Agrícola de Viamão.

Mas Brizola queria mais: durante o dia trabalhava como graxeiro numa refinaria de óleo em Gravataí, perto da capital, e à noite cursava o Colégio Júlio de Castilhos, a melhor escola pública da cidade. Em 1945, entrou para a Escola de Engenharia da Universidade do Rio Grande do Sul.

Lá encontrou basicamente dois grupos de estudantes. Uns, chamados de Punhos de Renda, representavam a oligarquia rio-grandense, eram partidários do brigadeiro Eduardo Gomes e tinham o jovem Paulo Brossard como líder. Do outro lado estavam os intelectuais do Partido Comunista. Brizola, com mais uns poucos, não se enquadrava em nenhuma das facções.

Num fim de tarde, viu uma manifestação subindo a avenida João Pessoa em direção ao centro, protestando contra a queda de Vargas. Carregavam cartazes improvisados em pedaços de papelão, em favor da legalização do trabalho e de outras garantias para os trabalhadores. Embora não houvesse um só universitário entre os manifestantes, Brizola achou que finalmente encontrara sua turma.

O grupo fazia parte do recém-criado Partido Trabalhista Brasileiro. Daquela passeata em diante, ele aproximou-se cada vez mais do partido, tornando-se o primeiro presidente da Ala Moça do PTB.

Em 1947, com 25 anos, conquista seu primeiro mandato, como deputado estadual constituinte, ficando em 11º lugar no cômputo geral. Na Assembleia, conhece outra nova liderança do partido – João Goulart. Dois anos mais tarde, engenheiro formado, cabelos crespos em forma à custa de gomalina, bigode bem aparado, Leonel conquista Neusa, a irmã de Jango, nas reuniões da mocidade trabalhista. Em 1º de maio de 1950 casa-se com a moça morena, cuja aparência frágil esconde uma mulher determinada.

Na campanha presidencial de 1950, foi um dos coordenadores da candidatura de Getúlio no Rio Grande do Sul. No ano seguinte, disputa a Prefeitura de Porto Alegre, sendo derrotado por Ildo Meneguetti, por apenas mil votos. Em 1952, é nomeado secretário de Obras Públicas do governo Ernesto Dornelles, primo de Getúlio.

Não gostava de gabinete: todo dia vistoriava as obras do aeroporto Salgado Filho. Brizola desenvolveu um ambicioso projeto para a construção de escolas e projetou uma estrada que cortaria o Rio Grande do Sul de oeste a leste, facilitando o escoamento da produção agrícola pelos pontos do estado.

Em 1955, chega à Câmara Federal. Na hora da posse, os deputados, chamados pela mesa ao microfone, deveriam complementar com a expressão “assim prometo” o enunciado de um juramento de fidelidade às leis e à democracia. Na vez do udenista Carlos Lacerda, Brizola aproximou-se e tomou a palavra, inopinadamente: “Pela ordem, senhor presidente. Este é um juramento falso! Ele está jurando aqui dentro a democracia e está pregando o golpe lá fora”.

Foi uma confusão: campainha, tumulto, ovação nas galerias. Lacerda, desnorteado, só conseguia dizer: “O que é isso? O que é isso?”.

O microfone foi desligado, mas Brizola conquistara seu primeiro espaço nos grandes jornais brasileiros e a inimizade quase eterna de Carlos Lacerda (em 1967, na tentativa de criar a Frente Ampla, ele ainda tentou uma aproximação com o gaúcho, sem sucesso).

Em 1956, elege-se prefeito de Porto Alegre, derrotando por larga margem a Frente Democrática, uma coligação entre PSD, UDN e Partido Libertador. Seu programa educacional baseado no slogan “Nenhuma criança sem escola” foi um dos eixos da administração, que também priorizou saneamento básico, transporte coletivo e reforma tributária.

O saldo de sua administração credenciou-o a disputar o governo no estado em outubro de 1958. Apoiado pelo PTB, pelo Partido da Representação Popular e pelo PSP, obteve mais de 55% dos votos, derrotando Válter Peracchi Barcelos, candidato da coligação PSD-UDN-PL. Empossado, deu início a uma administração voltada para os problemas econômicos do estado, mas sem descuidar da vida social.

Crítico radical do capital estrangeiro, propunha a industrialização do Rio Grande do Sul, a partir do capital privado nacional e da intervenção direta do Estado na economia. Criou a Caixa Econômica Estadual, passou o Banco do Rio Grande do Sul (Banrisul) para o controle acionário do governo e constituiu, com o Paraná e Santa Catarina, o Banco Regional de Desenvolvimento Econômico (BRDE), para dar crédito às pequenas e médias empresas, principalmente dos setores agropastoril e de transformação de matéria-prima.

Em 1960, apoiou as candidaturas do general Henrique Lott (PSD) à Presidência e de João Goulart (PTB) para vice. Lott perdeu, mas Goulart foi eleito vice de Jânio Quadros.

Em 1962, foi o deputado mais votado do País, pelo Rio de Janeiro. Ele, do PTB, de um lado, e Carlos Lacerda, do outro, pela UDN, travaram uma batalha histórica. Cada um defendia um modelo para o Brasil. Lacerda e os militares venceram, em 1964, e Brizola foi cassado.

Exilado no Uruguai, foi de lá expulso em 1977, indo viver nos Estados Unidos e depois em Portugal. Sua volta ao País, com os anistiados de 1979, foi marcada por um trauma: a sigla PTB foi “tomada” dele, na reorganização partidária de então, por Ivete Vargas, e lhe restou fundar um novo partido, o Partido Democrático Trabalhista (PDT).

Pelo PDT, ele foi eleito duas vezes Governador do Rio de Janeiro, em 1982 e em 1990. Tentou duas vezes a Presidência, perdendo para Fernando Collor em 1989 e para Fernando Henrique Cardoso em 1994. Amargou uma terceira derrota em 1998, como vice de Luiz Inácio Lula da Silva. Restavam-lhe o prestígio internacional, como militante da Internacional Socialista – da qual ainda era vice-presidente – e a amizade com figuras, como Mário Soares, Felipe Gonzalez e outros líderes.

Fonte: texto extraído integralmente do livro 1961 – que as armas não falem, de Paulo Markun e Duda Hamilton.

Mauro Montoryn fala da participação de Leonel Brizola na Campanha das Diretas.

Alberto Goldman descreve o posicionamento de Brizola durante a Campanha.

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