Parem as rotativas

Data: 25/4/1988

Veículo: Folha da Tarde

Coluna: Parem as rotativas

“O outro lado da notícia”

Jornal vive é da excepcionalidade. É a tal história: o cachorro que mordeu um homem não é notícia – o homem que mordeu um cachorro, é.

Agora, os que estão preocupados com a sobrecarga de más notícias também atiram pesado. A inflação caiu no mês passado e só dois jornais deram com destaque a informação. Certas previsões econômicas – catastróficas – acabam não se consumando e nenhum órgão de Imprensa publica essa reversão de expectativas – necessariamente positiva – com o devido destaque. Afinal, o Brasil está a tanto tempo à beira do abismo que só podemos concluir duas coisas: ou ele é realmente maior do que o abismo e portanto não pode cair dentro dele, ou já estamos no fundo do poço há muito tempo e não há mais para onde descer.

Na semana passada tive a oportunidade de ver, em Rondonópolis, Mato Grosso, um trabalho que a Imprensa nunca registrou e que me entusiasmou: um mutirão organizado pela Prefeitura de lá, envolvendo todos os setores do governo – da Polícia Militar ao Fórum. Em barracas montadas pelo Exército, os PMs cortavam o cabelo das crianças da periferia, o pessoal da Prefeitura cadastrava os mais pobres para o plano de habitação, a turma da saúde tirava a pressão dos velhinhos, a Justiça Eleitoral arregimentava novos eleitores, enquanto as máquinas jogavam cascalho nas ruas e os operários tiravam o mato das calçadas. É pouco, mas é alguma coisa e o mais impressionante era o sentimento de solidariedade que movia aqueles 300 ou 400 funcionários da Prefeitura, do Estado e da União, que estão longe, muito longe, de serem marajás.

No campo da política, também acompanhei um encontro interessante, igualmente ignorado pela mídia: Lula conversando com um grupo de empresários para explicar, com sua retórica de porta de fábrica, “o que tem a oferecer aos empresários, além do paredão”, como definiu o organizador desse encontro, Percival Maricatto. Numa frase, o Lula conseguiu resumir sua atual proposta política: “Estão vendo essa escada? Ela é baixinha, tem só sete degraus. Mas se a gente quiser subir todos de uma vez, quebra a cara. Escada é pra se subir um degrau de cada vez. E se o PT e os empresários puderem ir juntos até o quarto degrau já está bom demais”.

O bom senso do Lula, o entusiasmo dos burocratas de Rondonópolis podem por um ponto final nesse mar de lama? Duvido. Mas acho, sinceramente, que dar espaço para esse tipo de notícia não vai trazer prejuízo para nenhum jornal ou revista. E ainda pode melhorar um pouquinho o país.

Desde que comecei a trabalhar em jornal, sempre ouvi falar mal da Imprensa. “Negativista, preocupada apenas com o lado ruim das coisas, destrutiva e até engajada num esforço ocidental e cristã”, era o mínimo que diziam de nós. Quem falava isso? Os que estavam no poder ou na alça de mira do jornalista de plantão.

Nos últimos meses, tenho escutado um discurso mais ou menos parecido de gente muito diferente. Repórteres tarimbados, editores, diretores de jornalismo e, principalmente, de leitores de todos os tipos. Como leitor, devo confessar que concordo com o diagnóstico: a Imprensa está trazendo, diariamente, um overdose de más notícias. Não é possível que só existam tragédias, dramas, picaretagens, mordomias e fracassos no mundo todo, como pode supor um leitor das primeiras páginas de boa parte dos nossos jornais. Os que defendem o trabalho da Imprensa têm um bom argumento: é a realidade que vai mal, não a ótica do jornalista. E mais: o jornal que der em manchete amanhã a informação de que 99,98% dos vôos em todo mundo saíram ou chegaram no horário, colocando como submanchete algo assim como “O dia foi ensolarado em todo o país” pode até passar para a história do jornalismo, mas vai encalhar nas bancas.

Data: 14/3/1988

Veículo: Folha da Tarde

Coluna: Parem as rotativas

“Montoro   X    Brizola, uma luta-exibição”

Fui ver de perto o debate entre Franco Montoro e Leonel Brizola. Já foi dito que esses debates parecem lutas de boxe, dessas válidas pelo título mundial, onde, a cada intervalo, os segundos invadem o tablado, cercam os contendores e tentam, sem sucesso, mudar o resultado. (Segundo nenhum ganha luta, como se sabe. Mas muito favorito já perdeu o título para desafiante sem chances no ringue eletrônico da televisão).

Só que o embate Brizola-Montoro foi diferente. Não valia o título – era uma luta-exibição e os dois atletas tinha lá seus problemas. Um precisa ainda adquirir a condição de desafiante na versão AMB, ou melhor, PMDB. O outro, eterno candidato ao cinturão, lutou de olhos nos jurados, já que uma parte dos quais, devidamente uniformizada, dava sinais de que poderá suspender a luta de verdade, caso o boxeador em questão vença o adversário. É como se o nosso Maguila tivesse de disputar o título com um lutador de bom nível, e o Mike Tyson estivesse no ginásio, de calção e luvas, pronto para pular as cordas e  transformar o espetáculo numa australiana daquelas em que o mocinho apanha de verdade.

Na verdade, o debate foi mais do que uma luta-exibição. Parecia aquela briga entre o Muhamad Ali e um campeão de luta-livre, que se não falha a memória, chamava-se Antônio Inoki. Só não me peçam para explicar quem era um, quem era outro. Não digo nem amarrado!

Nas vinte linhas acima, desrespeitei uma regra que aprendi no dia-a-dia das redações, no tempo em que comecei em jornal, há uns 17 anos: não usar a primeira pessoa do singular, nem incluir considerações de ordem pessoal, meros palpites ou íntimas elucubrações nos textos. Isso, na época em que muito coleguinha chamava hospital de nosocômio, secretário de titular da pasta e aplicava um aduziu no lugar de acrescentou.

Mas o tempo passa, como diria o Fiori Gigliotti. Não faz muito tempo, fui a uma entrevista coletiva e percebi que estava sentado na fila dos veteranos, ao lado de Clóvis Rossi, Enio Pesce e Hermano Alves. Quer dizer, passei de foca a “tarimbado” sem ter tido a chance de escrever o que bem entendesse, do jeito que quisesse – sendo lido. Porque escrever o que lhe dá na telha, qualquer um pode. Colocar isso em letra de forma e em todas as bancas, são outros 500.

Agora, a Folha da Tarde me convida para ocupar esse espaço ao lado de feras como (por ordem alfabética) Alberto Dines, Carlos Brickmann, Jaguar, Mino Carla e Tarso de Castro. Só há uma determinação – 40 linhas, bem mais que Moisés precisou para nos impingir os dez mandamentos. E jogar em seleção, como essa, sempre pesa a camisa. Por isso, resolvi começar sobre a primeira pessoa. Não fosse assim e talvez modificasse ligeiramente o título da seção para afirmar: parem as rotativas, que eu quero descer ! (É brincadeira, Adilson).

Data: 4/4/1988

Veículo: Folha da Tarde

Coluna: Parem as rotativas

“Floripa neles!”

Brasileiro está sempre em busca da cartada decisiva, da jogada genial, da sacada brilhante. O nosso famoso jeitinho é uma espécie de amostra grátis dessa fórmula milagrosa que termina sendo apenas um sonho e adia a alternativa mais concreta – e menos charmosa – do longo prazo. Suar a camisa, conquistar as coisas passo a passo, começar do começo, acumular pequenas vitórias, nada disso nos atrai – até pelo fato de que, em muitos casos, essa argumentação empurra para um futuro inatingível o que já deveria ser parte do presente.

Mas como não adianta remar contra a maré, apresento a solução para a crise brasileira. Mudar a capital! Isso mesmo. Afinal, não foram os anos JK, marcados pela mudança da capital, o último oásis de progresso, alegria e felicidade de que a nação desfrutou? Eu mesmo não me lembro, mas, pelo que diz a revista “Manchete”, foi exatamente assim que aconteceu.

E depois que o poder se instalou em Brasília, todos sabemos no que deu. Há quem relacione os problemas atuais – corrupção, favorecimento, mordomias, negociatas, manobras de bastidores, plenários vazios que só se enchem para adiar as eleições – com o clima de Brasília. Alguma coisa no ar puro do Planalto Central, onde d. Bosco imaginava o surgimento de uma nova civilização. Um misterioso ingrediente que transforma os gramados em manchas marrons, provoca sangramentos no nariz e, mais grave e não menos freqüente, amolece o caráter.

Mudemos, pois, a capital.

O ideal seria transferi-la aqui para São Paulo. Economizaria muito a ponte aérea, não seia preciso investir demais e ainda taparíamos a boca dos cariocas, que trocariam Leblon e Ipanema pelo aeroporto de Congonhas nos fins de semana. Afinal, pudê é pudê, seja qual for o sotaque. E ninguém zomba de quem controla a torneira da Seplan.

Mas o resto do país jamais vai admitir essa solução. Por isso, é melhor irmos por partes. Primeira constatação: a nova capital não pode ser longe de São Paulo e, muito menos, ao norte do Rio. Se admitirmos essa hipótese, vão querer transformar São Luís, ou pior ainda, Pinheiro em capital. E do jeito que as coisas andam em Brasília, a proposta é capaz de passar no Congresso. Por isso, a capital tem de ser no Sul.

Segundo ponto: capital que se preze tem de ter praia. Se não for por outro motivo, para que nossos jornais e revistas possam publicar flagrantes do presidente e ministros jogando peteca, tomando sol ou pegando uma onda numa morey boggie. É a solução para a primeira página de segunda-feira. Melhor que o Mailson andando de bicicleta com o filho. Depois, capital com praia facilita na hora de abrir concurso para preencher todos os cargos da administração federal. E aí está o ovo de Colombo da minha proposta. Vamos transferir a capital de Brasília para Florianópolis, que é uma ilha, civilizada e tem 42 praias, todas lindíssimas. Mas com um pequeno e decisivo adendo: os atuais moradores de Brasília, por pelo menos cinco anos – até para evitar que esse patrimônio da humanidade vire uma grande ruína. Os ocupantes da nova capital serão escolhidos em eleições gerais e por concurso.

Data: 23/5/1988

Veículo: Folha da Tarde

Coluna: Parem as rotativas

“Questão de sobrevivência”

Antes que eu seja apedrejado, é bom explicar: sou feminista, sim senhor ! Ou sim, senhora ! Não por vocação, mas por necessidade. Minha patroa (desculpe, companheira) acaba de passar 45 dias saltitando pelos palcos do Norte-Nordeste. E eu aqui dando duro no trabalho e com as crianças, no que se chama oficialmente de dupla jornada de trabalho. É bem verdade que em casa conto com a indispensável colaboração da Conceição e da Sandra, mas até aí nada demais: as outras feministas que eu conheço também não dispensam o apoio de suas empregadas.

O pessoal da redação diz que minha porção mulher é torneira-mecânica. Mas acho que isso é inveja pura e simples dos meus dotes culinários. O problema é o conceito de feminismo. Há algum tempo encontrei uma amiga, francesa, feia e feminista. Caminhávamos por uma rua e sem que eu percebesse, ela mudou umas três vezes de calçada. Na terceira, botou o dedo na minha cara e disparou: “Pare de ser machista!” A irritação da dona era porque, a cada troca de calçada, eu mudava de lado, ficando sempre junto ao meio fio, como minha mãe me ensinou. Agora, toda vez que ando pela rua com uma mulher ao lado, calculo mentalmente se ela é suficientemente feminista para se irritar diante de uma galanteria.

Bem esse nariz de cera todo é para amaciar a divulgação de uma corrente da felicidade que recebi um dia desses, num bar mal freqüentado. Como em outras correntes desse tipo há exemplos do que aconteceu com a gente que quebrou a corrente. E já que, particularmente, não tenho interesse nem de entrar nessa pirâmide, nem de ser punido aqui o documento, deixando claro que a minha mulher vai muito bem obrigado e que uniões tipo funcionário/dançarina só dão errado na música do Chico Buarque:

CORRENTE PRA FRENTE

Esta corrente foi feita para homens casados e esgotados como você. Não é necessário dinheiro. Faça cinco cópias e mande para seus amigos na mesma situação sua e que seja de inteira confiança.

Em seguida, empacote sua mulher e envie para o primeiro da lista, acrescentando o seu nome em último lugar.

Quando o seu nome estiver em primeiro lugar, você receberá 16 mil 478 mulheres e algumas interessantíssimas.

Não quebre a corrente. Um senhor quebrou a corrente e recebeu sua mulher de volta. Outro remeteu a mulher sem mandar as cartas antes e recebeu a sogra e a irmã em troca. Um terceiro incluiu na sua lista a Gal Costa, a Maria Bethânia e a Lúcia Veríssimo e teve de ir ao Correio buscar uma foto da Rose Marie Muraro.

Um amigo meu já recebeu 18 mulheres. Hoje foi o enterro dele. Tinha, nos lábios, um sorriso nunca visto durante toda a sua vida.

Data: 25/7/1988

Veículo: Folha da Tarde

Coluna: Parem as rotativas

“Quando o fracasso é notícia”

A partir de agora – e sabe-se lá até quando – esta coluna vai abrir espaço para registrar grandes histórias que a Imprensa não costuma divulgar e que os próprios protagonistas muitas vezes escondem com o maior cuidado. Relatos e casos exemplares, que podem ajudar milhares de brasileiros e brasileiras a encontrar seu caminho, descobrir a saída, resolver um problema.

A idéia não é minha, devo confessar. E apareceu de um jeito, digamos, meio constrangedor. Foi num debate com estudantes de jornalismo, aqui em São Paulo. Eu já tinha respondido meia dúzia de perguntas, quando o professor que estava a meu lado disparou, de surpresa: “Você está falando da sua carreira, da profissão, do que tem feito de bom. Do seu sucesso, enfim. Mas eu gostaria que você contasse pra gente um pouco do seu fracasso também”. Depois de recuperar o controle, passei mais de uma hora rememorando alguns dos muitos episódios em que quebrei a cara, por assim dizer, em termos pessoais ou profissionais. E deu o maior Ibope.

Esta semana, conversando com alguns dos mais bem sucedidos publicitários brasileiros, constatei que nem eles agüentam mais ler – e ouvir – tantas histórias de sucesso na propaganda tupiniquim. Cristina Carvalho Pinto, vice-presidente de criação da Norton, lembrou de uma entrevista de Alfredo Marcantônio, publicada numa revista inglesa. Marcantônio, que apesar do nome é inglês e um dos maiores homens de criação do mundo, saiu da agência onde trabalhava para uma empresa maior e meio decadente. E na tal entrevista, admitiu com todas as letras que está comendo o pão que o diabo amassou. O que fez a Cristina confirmar a distância que ainda separa muitos profissionais brasileiros de seus colegas mais desenvolvidos (e mais bem pagos).

Isso tudo é para deixar claro, bem claro, que a decisão de passar a contar aqui histórias de fracasso não foi uma brilhante sacada do autor desta coluna. E para que ninguém diga que estou apenas confirmando o ditado sobre pimenta nos olhos dos outros, atiro a primeira pedra…em mim mesmo.

Nem no analista consegui descobrir, qual foi o meu primeiro fracasso. O mais antigo, ao que me lembro, é minha performance numa corrida de saco, lá pelo segundo ano primário. Fiquei em último. Esporte, aliás, nunca foi o meu departamento. Tanto que jamais vou esquecer do jogo de basquete – eu era mais alto que os outros garotos e sempre escalado para o time – em que apanhei a bola no momento em que o juiz a ergueu, dando início à partida, driblei três ou quatro jogadores e acertei um arremesso maravilhoso. Dois a zero para o adversário, na primeira – e única – cesta contra a história desse nobre esporte, segundo consta. A experiência tornou-se realmente inesquecível diante da pedagogia do professor: ele me pegou literalmente pelas orelhas e me botou para fora do campo, gritando: “Seu animal de rabo!” Naquele instante, a seleção brasileira de basquete perdeu um provável titular.

Poderia alinhavar outros tantos naufrágios, mas prefiro publicá-los homeopaticamente.

De qualquer modo, está feito. Na semana que vem, vamos parar as rotativas com uma ótima e inédita história de fracasso, pelo menos uma boa dose de esforço?

E se você tem uma boa história dessas, verdadeira, mande pra cá. Afinal, o único fracasso possível no caso dessa série seria ter de encerrá-la por falta de assunto. O que seria um sucesso.

Data: 1/4/1988

Veículo: Folha da Tarde

Coluna: Parem as rotativas

“Uniforme de campanha”

Outro dia, não faz muito tempo, flagrei minha filha saindo para a escola, de manhã cedo, com uma surrada jaqueta jeans. “Onde é que você achou esse lixo”, perguntei, tonto de sono. E ele me explicou, com simplicidade adolescente: “No seu armário, pai.” Reconheci então nada mais nada menos que meu uniforme de campanha. Um casaco remanescente de 1968, vitorioso de tantas batalhas e que tem mais tempo de passeata do que muito constituinte tem de plenário.

Segundo ela, as jaquetas do gênero estão na crista da onda, como se dizia antigamente. E isso me levou a pensar sobre os idos de 68, quando Vladimir Palmeira, Luís Travassos e José Dirceu eram tão conhecidos quanto Paulo Ricardo, Lobão e Dinho – o do Capital Inicial. Entre o espelho do banheiro e a mesa do café, cheguei a duas graves conclusões. Primeiro: estou ficando velho. Nenhum sujeito flagra a própria filha evergando um velho casaco que não lhe cabe mais sem cair na real. Como quanto a isso nada se pode fazer, passei imediatamente ao segundo ponto: o movimento estudantil já era. Acabou sufocado pela onda do pós-moderno. A garotada de hoje se divide entre a prevenção da Aids e a vontade de ficar rico. O sonho yuppie tomou conta do pedaço e quem não dormiu no sleeping-bag, nem sequer sonhou – como se vê, de manhã cedo minha sociologia não é nada original.

Mas a imagem da garota descendo as escadas, saltitante, dentro da jaqueta que faria boa figura em qualquer assembléia, fiquei com a pulga atrás da orelha, devo confessar.

E a conclusão número dois do meu raciocínio virou fumaça na semana passada, quando dez mil estudantes se engalfinharam com a polícia e vaiaram vários políticos na avenida Paulista, num protesto contra o aumento absurdo das mensalidades escolares. Quer dizer: não são apenas as jaquetas que estão saindo do fundo dos armários.

Acontece que, nesses 20 anos, muita coisa aconteceu. O bar do Zé, na Maria Antônia, onde a bagunça começava, reúne hoje apenas velhos senhores meio barrigudos, que lembram os bons tempos diante de uma cervejinha. As manifestações, que sempre eram marcadas para o centro velho, hoje começam na escadaria do prédio da Gazeta, em plena Paulista – para que nenhum publicitário criativo veja seu anúncio de jeans jogado for. Cenário é cenário.

Ninguém grita abaixo a ditadura, nem critica o acordo MEC-Usaid. Dirigente da UNE usa brinco e acabou no sambão depois da passeata. O máximo que se admite é uma confraternização no Aeroanta. Mas não são as únicas mudanças. Em 68, os militares ditavam a política econômica e ameaçavam dar golpe, se o Congresso botasse as manguinhas de fora. O Brasil seguia a receita do FMI e a oposição bem que esperneava, mas era o governo que tinha o controle da situação. Por isso, se alguém lhe disser, com cara de sério, que essa movimentação estudantil pode ser o estopim que vai estourar o barril de pólvora, e que os estudantes, têm tempo, disposição e irritação suficiente para comprar uma boa briga, discorde. O Brasil mudou…Mudou?

Data: 30/5/1988

Veículo: Folha da Tarde

Coluna: Parem as rotativas

“É por debaixo do pano”

Volta e meia aparece um artigo reafirmando a importância da economia informal no reerguimento da Itália, hoje uma das grandes potências econômicas do mundo. Economia informal é um sinônimo elegante para sonegação e ilegalidade fiscal – coisas que nesse período pós-Imposto de Renda todo mundo sabe muito bem o que são. Um conhecido meu, pequeno empresário, costuma dizer que no Brasil, a sonegação é o mecanismo de auto-defesa dos pequenos diante da voracidade do Estado. Mecanismo que os realmente pequenos, a turma do desconto na fonte, não pode utilizar e que o pessoal do salário mínimo nem consegue entender, é claro. Um outro conhecido meu (não é muito prudente ter amigos desse naipe) deixou de ser empregado com carteira assinada para abrir uma micro-empresa de prestação de serviços. Resultado: faturou no ano passado mais de um milhão de cruzados limpinhos, ficou isento como jurídica e vai pagar 30 OTNs de Imposto de Renda, em oito parcelas. Isso sem ter usado um só artifício na declaração – valeu-se apenas das regras do jogo para a declaração de empresas e dos descontos para a pessoa física.

Pode parecer simplista demais, mais historinhas como essa não me saem da cabeça quando leio artigos, análises e interpretações sobre a nossa crise econômica ou cometo a ousadia de ir às compras. No Sábado, resolvi testar a estagflação na liquidação de cobertores de um grande magazine. Quase fui esfolado vivo. O andar inteiro da loja estava interditado e havia fila de espera. Centenas de pessoas lutavam junto às prateleiras vazias pelos últimos cobertores. Não sobrou um só pra remédio. À primeira vista, imaginei duas hipóteses radicais: ou a crise acabou na votação do capítulo sobre a Ordem Econômica, ou o tal magazine está quebrado. Como nem uma nem outra alternativa é razoável, pode-se supor que o paulistano espera um inverno daqueles e não teve dinheiro nos últimos anos nem para se cobrir. É claro que ajuda muito vender produtos necessários por um preço menor, na hora certa, mas algo me diz que a tal economia informal tem alguma coisa a ver com esse aquecimento, no sentido literal e figurado.

Era isso que eu estava pensando quando consegui alcançar a saída da loja, com seis cobertores. E encontrei o encanador que está fazendo um serviço para mim. Como se fosse parte de um roteiro de filme, ele me cumprimentou e disse: “O senhor não pagou a Segunda parcela do meu trabalho até hoje. Na Segunda-feira o preço é outro, o senhor já sabe…”. E me lembrei então que até encanador está cobrando em OTN e que eu perdi a virada do mês. Maldita economia informal !

Data: 11/7/1988

Veículo: Folha da Tarde

Coluna: Parem as rotativas

“Um festival de tragédias”

Não é preciso ser muito sagaz, nem arguto, para constatar que os jornais (quase todos) estão se tornando cada vez mais uma coleção completa e acabada de absurdos, tragédias e barbaridades de toda espécie. O que vira letra de forma é o espantoso, o chocante. Do avião iraniano ao surto de meningite. E justamente por isso, imaginei que só deveria parar as rotativas para provocar sorrisos.

Como repórter, a gente se acostuma com o drama. E vai, aos poucos, construindo uma espécie de casca profissional, sem a qual tarimbados jornalistas entregariam os pontos na cobertura do acidente de trânsito mais corriqueiro. Pois foi essa minha casca que desmoronou esta semana diante de um alagoano chamado Augusto. O marceneiro Augusto.

Seu Augusto mora no Cangaíba, lá na Zona Leste. Há quantro anos e pouco, quando sua mulher estava grávida, um caminhão da Prefeitura entrou na casa onde eles moravam e botou tudo abaixo. A indenização seu Augusto ainda não recebeu. Meses depois, nasceu o bebê, que levou o nome do pai. Sem pênis, nem bexiga.

Uma operação delicada, no Hospital das Clínicas, garantiu a sobrevivência do garoto. No começo do governo Quércia, seu Augusto, marceneiro, ex-marinheiro, funcionário por concurso da USP, foi demitido – ele acumulava as funções de marceneiro e segurança e seu departamento foi extinto – ao que parece, era um resquício da ditadura.

O filho do seu Augusto tem hoje quatro anos, Usa quase cem fraldas por dia, porque sua bexiga não consegue reter mais do que 200 mililitros de urina. Na quarta-feira passada, o garoto teve uma hemorragia. Seu Augusto correu para o HC, onde ficou sabendo que não há vaga para internação, nem vai haver nos próximos meses. Seu Augusto terminou num médico particular, onde só a consulta lhe custou Cz$ 10 mil. O HC tem centenas de casos mais graves e, provavelmente, mais dramáticos que o do filho do marceneiro.

Nesse dia, seu Augusto, que estava fazendo um serviço para mim, faltou ao trabalho. O serviço estava atrasado e mal executado e, por isso, disse-lhe que só pagaria quando terminasse. Foi aí que fiquei sabendo de sua história.

Não sei se adianta contá-la aqui. Tenho certeza de que em qualquer cidade do mundo, existem casos mais sombrios, absurdos e dramáticos. Seu Augusto pode até ter sido demitido por uma razão justificada. Mas isso tudo me convence de que pessoas como ele, no Brasil, não têm a mínima idéia do que seja cidadania. E de que, enquanto isso continuar sendo rotina por aqui, adianta pouco, muito pouco, termos eleições, liberdade, democracia.

Data: 19/8/1988

Veículo: Folha da Tarde

Coluna: Parem as rotativas

“Sobre greves e fracassos”

O primeiro fracasso desta série de colunas sobre fracasso já está consumado. Até Quinta-feira, não chegou nenhuma carta na redação da FT, relatando histórias de fracassos edificantes. Motivo: sucesso da greve dos Correios. Ou fracasso do serviço de Correios, provocado pela greve.

Mas uma qualidade que meus fracassos me ensinaram é a persistência. Por isso, caro leitor, você tem mais uma chance de publicar seu fracasso! Mande sua carta para esta coluna, no endereço do jornal.

Mas a semana não foi de todo má para o nosso time. Veja o que aconteceu com o presidente Sarney. Ele foi à televisão, usou toda a sua prosopopéia, vociferou em cadeia nacional, apresentou todos os argumentos lógicos para provar que o país ficaria ingovernável com a nova Constituição… e demonstrou que não governa a Constituinte. Placar de 413 a 13 é fracasso indiscutível. Resta saber qual a lição que o presidente vai tirar desse resultado.

Há onze anos, numa cidade do interior de São Paulo, assisti a um retumbante fracasso: o de um prefeito municipal que foi eleito por uma pequena margem de votos, resolveu fazer uma administração que beneficiasse a periferia, aumentou violentamente os impostos da classe média e acabou perdendo o mandato, no meio de denúncias de todo tipo – as mais suaves constituíam o que a criativa imprensa local chamou de “mar de lama”. O tal prefeito voltou ao cargo por força de uma ordem judicial, completou o mandado e elegeu-se deputado federal com uma votação consagradora. Certa ocasião, acusou o então governador do Estado de ser um câncer para a sociedade. Foi processado e confirmou diante do juiz que tinha chamado Sua Excelência de câncer, mas não dissera se era um tumor benigno ou maligno. O meretíssimo não aceitou a explicação e condenou o prefeito, que fez uma coleta de moedinhas em todo o Estado, para pagar a multa. Conseguiu mais do que o necessário, pagou a conta e doou o restante para o Hospital do Câncer. Nas próximas eleições, mesmo tendo perdido o controle de seu partido na cidade, vai tentar novamente a Prefeitura.

Querem mais? Que tal a história daquele grupo de economistas – os mais competentes e respeitados da República – que descobriu a fórmula para acabar com a inflação. Bastava dar um choque heterodoxo, desindexar a economia, criar uma nova moeda…bem, o resto da história nós já sabemos, não é mesmo?

Aliás, o jornalista Marco Antônio Rocha, que costuma escrever sobre histórias do gênero, só que circunscritas à área econômica, sugere uma mudança. Ele acha que fracasso é uma palavra muito negativa. Prefere insucesso. O que lembra uma história real acontecia no velho “Estadão”, contada pela revista “IMPRENSA” e que reproduzo aqui:

A redação de “O Estado de São Paulo”, lá pelo final dos anos 40, implicava exageradamente com certas palavras – havia até uma caixinha com fichas contendo as palavras que jamais deveriam sair. Uma delas era fracasso, considerada, erroneamente, um galicismo (seria derivada da palavra francesa fracas, que quer dizer barulho). O policiamento era tanto que o próprio doutor Julio de Mesquita Filho baixara ordens por escrito da redação à oficina, para que a palavra fracasso, onde quer que estivesse, fosse substituída por malogro.

Ocorre que o professor Napoleão Mendes de Almeida mantinha uma concorrida coluna sobre Linguagem, onde respondia a consultas de leitores. Um deles, mais atento, perguntou por que a palavra fracasso jamais saía no Estadão. A resposta do professor Napoleão foi mais ou menos esta:

“Fracasso – A palavra fracasso é de origem francesa. Trata-se de um galicismo que deve ser evitado. Ora, nós temos, em português, por exemplo a palavra malogro, que substitui perfeitamente a fracasso. Por que tendo uma palavra como malogro, usaremos a estrangeira fracasso?”

Mas, como ordem de patrão não é brincadeira, um zeloso revisor tratou de pôr o texto dentro das regras do Estadão – e a resposta saiu assim:

“Malogro – a palavra malogro é de origem francesa. Trata-se de um galicismo que deve ser evitado. Ora, nós temos em português, por exemplo, a palavra malogro, que substitui perfeitamente a malogro. Por que, tendo uma palavra como malogro, usaremos a estrangeira malogro?”

Data: 8/8/1988

Veículo: Folha da Tarde

Coluna: Parem as rotativas

“O dia em que tudo pode acontecer”

Oito de oito de oitenta e oito…confesso, foi o “Jornal da Tarde” que me chamou a atenção para a data, ao dizer que esse é um dia de muita sorte…ou de muito azar. Diante de tanta precisão jornalística, fiquei pensando se esse dia não tem realmente algum significado especial. Quem sabe essa Segunda-feira não seja o dia marcado pelo destino para que todas as lendas se transformem em realidade? Há vários indícios concretos, colhidos no noticiário das últimas semanas:

  • Cientistas do departamento de Biologia da Universidade Huadong, em Xangai, na China, divulgaram, na semana passada, estudos realizados com amostras de pelo colhidos nas montanhas da província de Hubei (que a notícia não dizia onde fica, mas imagino, não é distante das geladas cumieiras do Himalaia). Esses estudos confirmam a existência de um primata avançado por ali e a agência de notícias explicou que isso é a comprovação de que vive na região um parente do Abominável Homem das Neves. É primata, peludo e só não se constatou, até o momento, se realmente abominável.
  • Um grupo de geofísicos americanos anunciou a obtenção de resultados experimentais que podem significar a existência de uma quinta força da natureza. O anúncio tem o aval indiscutível da Fundação Nacional ded Ciências dos Estados Unidos e (daqui pra frente o chute é meu) não está longe o dia em que a humanidade vai confirmar que existe realmente uma quinta dimensão, como queriam os roteiristas daquela série de tevê.
  • Antropólogos respeitáveis defendem a tese segundo a qual todos nós descendemos de uma mesma mulher. Ela era negra, viveu na Africa há não sei quanto tempo atrás e poderia muito bem Ter se chamado Eva. Biologicamente, não existe nenhum motivo para que ela tenha tido apenas um Adão, o que nos levaria a sermos todos filhos….bem, é melhor deixar pra lá.

Se essas lendas já estão no campo da ciência, por que não podemos imaginar que a partir de hoje, outras lendas se tornarão realidade? Quem sabe você não cruza daqui a pouco com três sacis saltitando pelo viaduto do Chá ou não desce no elevador bem ao lado de um gnomo, devidamente engravatado e de pasta 007. Jóquei Clube pode anunciar a realização do primeiro páreo dedicado às mulas sem cabeça.

Lenda por lenda, o que impede que a Cuca assuma um programa de culinária na tevê, a Branca de Neve comande a Festa da Maça em Santa Catarina, Chapeuzinho Vermelho pose nua para a Playboy (com texto assinado pelo Lobo Mau), almas penadas façam comerciais de cemitérios, a Caapora saia candidato a prefeito pelo Partido Verde?

Você deu risada? É lenda demais? Então imagine que nós voltamos 15 anos no tempo e temos de explicar a qualquer um o que aconteceu com o Brasil. A ditadura acabou, o MDB assumiu o poder, o governo é do José Sarney, o prefeito de São Paulo chama-se Jânio Quadros, Leonel Brizola é candidato a presidente, a inflação é de 24% ao mês o meu Corinthians ganhou o título na prorrogação, com um gol de um magricelo chamado Viola, que ganha meio salário mínimo por mês.

Data: 15/8/1988

Veículo: Folha da Tarde

Coluna: Parem as rotativas

“Um grito de liberdade”

O grito de guerra de comunistas, trotsquistas e anarquistas, cantando em alto e bom som, afinação perfeita, letra completa, bem na esquina das ruas Áustria e Itália, no Jardim Europa, diante de algumas das melhores mansões da cidade? Coisa do Cláudio Abramo, sem dúvida. Quem mais, senão ele, conseguiria reunir platéia tão seleta, em ambiente tão distinto, para ato tão subversivo, numa ensolarada manhã de Domingo? Só ele mesmo para concretizar o sonho rebelde de fazer ecoar, ali, no coração dos Jardins, a Internacional, com sua melodiosa conclamação à união dos proletários de todo mundo.

Entre os presentes, não havia, é bem verdade, um só representante direto desses humilhados e ofendidos. Àquela altura do campeonato, as vítimas da fome, os famélicos do mundo de que fala a Internacional, deviam estar, em sua versão paulistana e modernizada, acompanhando as aventuras do Condor Contrariado, na Disneylandia. A praça é do povo, como o céu é do condor, mas às vezes, não é bem assim, como o próprio Cláudio Abramo, agora tornado praça, sabia – e bem.

Mas acho que ele deve ter gostado da sua pracinha – pouco mais do que 50 metros quadrados de grama e raras árvores, onde as crianças podem rolar, os cães fazer xixi e algum vagabundo desorientado pode até curtir o seu fogo, até que um dos seguranças da vizinhança venha enxotar o mal nascido para qualquer canto menos elegante.

O Cláudio deve ter gostado também de rever ali alguns amigos, muitos colegas e o clã dos Abramo. Certamente constataria que continuamos sendo poucos – cada vez menos, diria eu de olho nas carecas, barrigas e cabelos brancos do time que já foi a chamada ala jovem da Imprensa, os filhos do Cláudio, os garotos da Folha e hoje está mais pra aposentadoria do que pra qualquer outra coisa.

Se ainda editasse algum jornal, mandaria o registro da inauguração de sua própria praça para o lixo – não sem antes de envaidecer, para além de seu jeitão blasé mais evidente. Fosse de algum amigo seu – como ele identificado com o socialismo, o avanço da humanidade, a esquerda, seja lá qual for o rótulo – e mandaria dar, num espaço razoável, com foto e tudo, como fez, muitas vezes, no tempo em que isso era mais do que um capricho – era uma forma de resistência à censura.

Mas se o Cláudio gostou ou não gostou da praça, se daria ou não daria a tal matéria, não interessa a ninguém. Interessa, imagino, que ele se foi há um ano e que o horizonte do nosso jornalismo continua se transformando cada vez mais numa vasta, verdejante, bem irrigada – e acachapante planície.

Data: 18/7/1988

Veículo: Folha da Tarde

Coluna: Parem as rotativas

“Jornalismo é exatidão”

“O jornalista Fulano de Tal que está no Rio para traçar um perfil do comentarista político Villas-Boas Corrêa não poderia ter melhor recepção. Cheogu às 11h30 no Santos Dumont e ali alugou um carro para ir à sala Cecília Meirelles, onde permaneceu apenas alguns minutos, tempo suficiente para dar um beijo na esposa, bailarina do Stagium, e ter o automóvel arrombado. Além do toca-fitas, os ladrões levaram um bonequinho do Rambo. Das janelas do QG da PM, na rua Evaristo da Veiga, se tem uma bela vista da sala Cecília Meirelles”.

Confesso que a notinha, no meio da coluna Passeio Público, no caderno Cidade do “Jornal do Brasil”, de Sábado, não teria chamado minha atenção se nela o Fulano de Tal não tivesse sido substituído por um certo Paulo Markun. A história é quase verdadeira. Mas como jornalismo é exatidão, conforme o manual da Folha, seria bom esclarecer: ninguém sabe se foi um ladrão ou ladrões, assim, no plural, como costumamos escrever. E ele (ou eles) não levaram toca-fitas algum – até porque o carro não tinha. Levaram só o Rambo, que ao que se sabe, não reagiu. Quer dizer: jornalismo é exatidão, mas, em muitos casos, com uma pitadinha de exagero.

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Leitura de sala de espera é uma coisa interessante. Tão interessante que, nos Estados Unidos, uma editora está lançando uma revista feita para circular apenas em salas de espera. Aqui, quanto alguém não copia a idéia, me contento com o que tiver à mão. Há alguns dias, topei com o jornal da Golden Cross, onde encontrei uma pérola desse jornalismo compulsório. Sob o sugestivo título VIP ROYAL, lá estava a foto de um sorridente senhor, de óculos, camisa social desabotoada, mão no bolso do blaser escuro e indiscutível ar de prosperidade e alegria. A legenda informava, sintética como um telegrama: “O doutor Hugo já colocou três pontes de safena.”

A foto me lembrou outra, do doutor Trancredo no Hospital de Base. Assim, fui ao texto, que explicava tintim por tintim: “Sócio durante dez anos, doutor Hugo de Castro nunca precisou utilizar os serviços da Golden Cross nesse período. Em 85, passou para o plano Vip Royal.”

“Coincidência ou não, em compensação, nesses últimos anos, já colocou três pontes de safena no Instituto do Coração e fez mais duas pequenas cirurgias em hospitais de sua livre escolha. Só então pôde avaliar a tranqüilidade de ter Golden Cross.” E ia por aí o texto, falando que o doutor Hugo é cearense, tem 75 anos e formou-se pela Escola Superior de Guerra, para concluir: “Residindo na avenida Vieira Souto, em Ipanema, ele relembra com saudades de sua antiga casa no Leblon, hoje um estacionamento de automóveis. Os tempos mudaram, mas ele ainda conserva alguns de seus hábitos, como caminhar pela praia todas as manhãs e ter Golden Cross.”

Fiquei feliz. Veja só: em 85, o doutor Hugo passou a pagar mais caro pelo seu plano de saúde mas, como diz o texto, “coincidência ou não, em compensação” abriu o peito para colocar três safenas e fez ainda mais duas pequenas cirurgias. Isso é que é exatidão jornalística.

Data: 19/9/88

Veículo: Folha da Tarde

Coluna: Parem as rotativas

“Olimpíada acaba em samba”

Claro que houve dificuldades. O Comitê Olímpico Internacional resistiu o quanto pode, o PT obstruiu a aprovação do orçamento e até o FMI meteu a sua colher – argumentos que o único recorde a ser quebrado seria o da dívida externa.

Mas o fato é que as Olimpíadas de 1996 acabaram mesmo acontecendo no Brasil. Mais, exatamente, no Rio de Janeiro, que ficou com a sede dos jogos, apesar da pressão de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Brasília e até Goiânia, correndo por fora com um slogan original: as primeiras Olimpíadas movidas a energia nuclear !

Não foram só esses os problemas. Difícil mesmo foi convencer o presidente Newton Cardoso de que não podia carregar a tocha olímpica, na hora de entrar no estádio olímpico de Jacarepaguá, e acender a pira. O presidente explicou que sempre foi um esportista, subiu na balança para comprovar que estava fazendo dieta e deixou-se fotografar de calção, correndo diante do Palácio do Planalto, mas foi em vão. Quem levou a tocha foi o corredor Paulo Maluf, que depois de perder as eleições para prefeito de São Paulo, presidente da República e governador tinha descoberto finalmente sua vocação – maratonista.

Mas o fato é que o grande dia chegou, Atletas do mundo todo a postos, televisões e jornalistas por todo lado, aguardando a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. A primeira tarefa foi afastar os cambistas, que haviam comprado todos os ingressos e tentavam revendê-los a peso de dólar. Mas, enfim, estavam todos dentro do estádio. Milhares de estudantes do segundo grau das escolas públicas do Rio e de Minas (advinhem por que) devidamente ensaiados e vestidos de verde e amarelo ocuparam o gramado.

E aos acordes de “O Guarani”, começou a festa. Bem, festa, no caso, é otimismo do autor. Porque a única coisa que faltou foi sincronia. Enquanto as meninas levantavam os braços para um lado, os meninos se mexiam para o outro. O grupo de Minas correu a formar um nome – N…..E…..W….., mas não terminaram a obra. Um punhado de estudantes do Movimento Leonel Brizola entrou em ação e foi sopapo pra todo lado.

O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Ulysses Guimarães, mandou, então, que o show aéreo começasse. Três pára-quedistas tiveram problemas com seus equipamentos e por pouco não transformaram a festa numa tragédia.

Na platéia, a coisa ia mal também. Além das escaramuças entre brizolistas e cardosistas, um grupo de verdes aproveitou a confusão para abrir faixas no meio da multidão, pedindo a preservação da Mata Atlântica, a interrupção das obras da usina nuclear de Campos de Jordão.

Na função de animador geral da festa, o governador Sílvio Santos fez o que pode. Chamou às falas as suas colegas de trabalho, pediu os comerciais, mas acabou entregando os pontos.

Foi o presidente da República quem salvou a pátria: “Tá bom, chega de amadorismo ! Manda entrar a bateria da Mocidade Independente, as baianas da Mangueira e as mulheres da Beija Flor !”