Do Censo ao Azulinho, Portugal tenta enfrentar envelhecimento da população

Jornalista Paulo Markun para o blog Em Tempo, da Folha de S.Paulo

 

Um estudo recente do Instituto Nacional de Estatísticas prevê: quase metade da população portuguesa terá mais de 65 anos dentro dos próximos 60. Quinto país mais velho do mundo, Portugal viu seus idosos triplicarem entre 1960 e 2011, quando esse grupo foi de 708.569 para 2.010.064 pessoas). A esperança de vida também aumentou, dos 78 (em 1970), para os 80,78 anos (em 2017). Um salto que fez com que o Conselho de Ministros aprovasse, em 2015, a Estratégia para o Idoso, com medidas que incluem o alargamento da chamada indignidade sucessória, barrando o acesso de herdeiros que tenham  praticado violência doméstica ou maus tratos contra parentes, recebam a herança, bem como a criminalização de negócios jurídicos feitos em nome do idoso sem o seu pleno conhecimento. O Conselho também definiu como crime o ato de abandonar idosos, num hospital ou noutro estabelecimento de prestação de cuidados de saúde.

Em busca da saída, os portugueses identificaram  quem são e onde estão os idosos que vivem sozinhos, isolados ou em situação de vulnerabilidade no país inteiro. O Censo Sênior, feito pela Guarda Nacional Republicana, comprovou que, em outubro de 2018,  havia exatos 45.563 idosos nessa situação em Portugal – 47 a mais que no ano anterior. Uma pesquisa que vai além de revelar o tamanho do problema  – ajuda a definir estratégias para enfrentá-lo.

Além de apontar os idosos que vivem sós em cada região do país, os policiais da GNR buscam conscientizar essas pessoas sobre comportamentos que reduzam o risco de se tornarem vítimas. Num país muito mais seguro do que o Brasil não são raros roubos, furtos e violência contra os mais velhos. Mais de 5600 pessoas idosas foram vítimas de crime e de violência nos últimos quatro anos, segundo a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima – destaque para mulheres agredidas pelos filhos, que sofreram nesta situação entre dois e seis anos.

Para essa gente, a GNR criou dois programas específicos – o “Apoio 65 – Idosos em Segurança” e o “Residência Segura”, que vai gerar um mapa com a localização georreferenciada de todas as residências aderentes ao projeto – são 14 mil, até o momento.

Ano passado, a Câmara Municipal de Lisboa (que corresponde à nossa Prefeitura) e a Santa Casa de Misericórdia (que maneja a loteria e é uma centenária instituição filantrópica) lançaram “Lisboa, Cidade de Todas as Idades”, programa ambicioso que inclui tele-assistência, requalificação de 21 Centros de Dia em espaços intergeracionais e abertos à comunidade, alargamento da cobertura de apoio domiciliário, treinamento para seis mil cuidadores informais e construção de mil vagas em instituições de longa permanência, além do projeto Radar, que vai sinalizar toda a população com mais de 65 anos. Como resultado, há poucos meses, o Serviço Nacional de Saúde (algo como o SUS daqui) reativou a Linha Sênior, um apoio telefônico aos cidadãos com mais de 75 anos, desativado em 2015.

Há ainda muitas iniciativas de voluntários, como a “Associação Amigos Improváveis” que nasceu há quatro anos e já está espalhada por 11 freguesias (o equivalente a administrações regionais) de Lisboa. A “Recados & Companhia”, leva jovens entre os 16 e os 30 anos a ajudar a idosos com mais de 65 anos em pequenas tarefas (ida ao médico, passear, ir às compras) ou simplesmente lhes fazer companhia. No “Saúde Porta a Porta, estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa vão a casa dos idosos para consultas e atendimentos simples pelo menos uma vez por semana.

Não temos nada tão detalhado no Brasil. A Síntese dos Indicadores Sociais de 2016 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostra que entre 2005 e 2015, os arranjos unipessoais (pessoas que vivem só) aumentaram de 10,4% para 14,6%, por causa do envelhecimento e, dentro desse recorte, a proporção de arranjos formados por pessoas de 50 anos ou mais passou de 57,3% para 63,7%. Correspondem a 6,6 milhões de pessoas, mais da metade de toda da população portuguesa. Como diz o ministro Paulo Guedes, se perguntar demais, descobre o que não quer.

Aqui em Alcântara, Lisboa, onde moro, um microônibus chamado Azulinho oferece transporte gratuito pelas ruas íngremes, interligando pontos de interesse do bairro, como posto de saúde, supermercados, bancos, Correios. Financiado pelo comércio local e controlado pela Junta de Freguesia, exige apenas uma carteirinha para transportar senhoras que, muitas vezes, não vão a lugar algum – só querem ver a paisagem, passar o tempo e bater um papo com as amigas. Já tenho minha carteira.

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Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Leia mais...

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