É hipocrisia entregar só à família a missão de cuidar dos idosos

Paulo Markun para o blog Em Tempo, da Folha de S.Paulo

 

Quando eu era garoto, minha avó foi morar numa casinha que meu pai construiu no amplo terreno num subúrbio paulistano. Ela tivera um derrame e já não podia morar sozinha. Naquela época,1960, havia 3,3 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais  – representavam 4,7% da população. Em 2000, já eram 14,5 milhões, ou 8,5% dos brasileiros nessa faixa etária. Em 2010, os idosos chegaram a 20,5 milhões, ou 10,8% da população.  Se eu chegar aos 90 anos, em 2042, ainda verei um país com 25% da população acima dos 65 anos, estima o IBGE.

Poucos países estão vivendo esse processo nessa velocidade. Nosso envelhecimento é duas vezes maior que a média mundial e nos coloca entre os 12 países que estão envelhecendo mais rapidamente.

É uma boa notícia? É. Viver mais é uma conquista, principalmente para quem tem saúde. Mas é também um enorme desafio. Teremos menos jovens para sustentar os mais velhos. E o cobertor vai ficar cada vez mais curto.

Pela lei, cumpre primeiro às famílias (e só depois ao Estado) garantir a sobrevivência dos mais velhos. E nossas famílias tem menos filhos, as mulheres já entraram para o mercado de trabalho, não se conformam mais (justamente) em ficar em casa. Se meus pais fossem vivos e incapazes de viver de modo independente, fico pensando qual dos filhos cuidaria deles.

Só um por cento dos idosos vivem nas chamadas instituições de longa permanência, o que costumamos entender como asilos e assemelhados. A economista Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Ipea e coordenadora de Estudos e Pesquisas de Igualdade de Gênero, Raça e Gerações, da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Disoc). Camarano é doutora em population studies pela London School of Economics e pós-doutora pela Universidade de Nihon, no Japão, que entrevistei não faz muito, resume a situação assim:  “O idoso frágil, pessoas com o grau mais elevado de dificuldade na vida diária, aquele que não vai ao banheiro sozinho, que não come sozinhos, que não toma banho sozinho, constitui em torno de 15% da população idosa –  quase 4 milhões de brasileiros. Mas não há nenhuma política específica para esse grupo. Cerca de cem mil moram em asilos ou casas de repouso. Quer dizer: são as famílias que estão cuidando ou descuidando dos outros 3,9 milhões. Sem nenhuma ajuda. É claro que o governo não tem condição de botar todo mundo no asilo, mas tampouco ajuda as famílias que cuidam de seus idosos. E por isso, muitas mulheres, pois geralmente são as mulheres que assumem essa tarefa, têm que deixar o trabalho para poder cuidar ou do marido ou do pai.”

Perguntei a Ana Camarano se o Estatuto do Idoso não resolveria esse impasse. Resposta da economista: não, pois embora o Ministério Público deva fiscalizar, é fácil burlar as regras e deixar nossos idosos abandonados nas instituições. Pior ainda: é possível ao Estado criminalizar a famólia que abandona seu idoso. Mas quem criminaliza o Estado, por não dar ajuda a essas famílias todas?

A psicóloga Anita Liberalesso Neri, 72 anos, psicóloga e professora da Unicamp, usa uma palavra forte para definir a insistência em entregar para a família a missão exclusiva de cuidar de seus idosos: hipocrisia: “Existe uma hipocrisia no sentido de não admitir que muitas famílias não tem condição financeira, não tem nem número de pessoas, na medida em que as novas gerações são cada vez mais rarefeitas, que as famílias são cada vez mais verticais. A grande família é cada vez mais uma fantasia. Muitas doenças que hoje são mais correntes nas estatísticas, como as demências tipo Alzheimer eram eventos raros no passado. As pessoas ficavam pouco tempo doentes, morriam logo. Então, atribuir os cuidados aos idosos só às famílias é não querer enxergar a realidade. O ideal seria que as famílias fossem coadjuvadas por serviços auxiliares: atendimento domiciliar, pois o velho não precisa ficar internado para sempre, abandonado numa instituição, onde nunca mais ninguém vai visitar, não é isso”.

Anita Neri ressalta que muitos idosos precisam de atendimento contínuo, desde o apoio mínimo, quando ainda estão aptos e podem ser ajudado dentro de casa, até os que não podem mais se cuidar sozinhos. “Em todas as culturas, uma das decisões mais difíceis da família é de institucionalizar os idosos. Existe toda uma questão de apego de tradição, é muito complicado tomar essa decisão. Eu não estou dizendo ‘largar’, ‘jogar’, que são verbos altamente pejorativos, carregados. Institucionalizar, internar por absoluta necessidade, é muito difícil. Aqui no Brasil, é também extremamente caro, para quem pode pagar, as Instituições estão se tornando mais numerosas e mais variadas quanto a oferta. Mas elas são insuficientes. As que não são pagas, para aqueles que são mais pobres, são absolutamente insuficientes.  Mas na base tudo existe uma ilusão e uma hipocrisia, de que é uma família e, se ela não faz isso, ela é ruim. A família é a vilã, o velho é sempre a vítima, ele pode não ser. Ele pode ser doente, mas ele pode ter sido também um velho abusador e o que ele pode esperar dessa família de quem ele foi abusador, com quem ele não estabeleceu laços, com os filhos, com uma filha, com a nora”.

 

 

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Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Leia mais...

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