Ainda dá tempo

Paulo Markun para blog Em Tempo

 

Aprendi uma boa lição com Edmea e Francisco. Ela tem 71 anos, ele 74. Moram em Santos e são aposentados. Estão juntos há 26 anos e na agenda do casal, tempo livre é raridade. Toda segunda cedo, Edmea tem aula de violão. Almoça às pressas, para chegar na hora do ensaio das cantoras do rádio, um grupo de idosas que dublam e interpretam Marlene, Emilinha, Aracy de Almeida, Angela Maria e outras estrelas da canção brasileira. Edmea tem 40 vestidos só para as apresentações em escolas, asilos, onde forem chamados.

Terça cedo, ela veste o maiô, apanha a prancha e vai para a praia. O casal pratica o surfe há 14 anos e faz parte de um grupo de idosos que tem aulas todas as terças, das oito às dez da manhã. Mas não é só. Nas quartas, tem aulas de dança, para afinar a coreografia do espetáculo que apresentam em asilos, escolas – onde forem convidados.

Chico entrou nessa onda mais tarde, depois de muita insistência dela, e hoje interpreta Francisco Petrônio no espetáculo. Tem três ternos iguais aos do cantor. Quintas, sábados e domingo, os dois voltam ao surfe, quando não há espetáculo.

Eles nem imaginam outra vida. Diz Edmea: “Eu não gosto nem de pensar nisso, viu, porque eu acho que seria uma tristeza. Já pensou, os dois velhos dentro de casa, um olhando pra cara do outro? Fazendo palavrinha cruzada ou eu fazendo lá crochezinho? Não, não. Tem, a gente tem que procurar atividade, né.” Edmea e Chico ainda procuram algo para fazer nas sextas. (Santos, garante o casal, tem muita atividade gratuita para idosos)

Edmea e Chico me fizeram retomar um sonho antigo, inútil: aprender a esquiar. Há uns dez anos ou mais, numa estação na Argentina, tive aquela aula rápida feita para engambelar turista e achei que estava pronto. No teleférico, vi o bastão do meu filho, então no esplendor dos18, cair das alturas. Ao chegar ao topo, só tive tempo de gritar inutilmente, para que ele não se rendesse à sofreguidão da juventude, descendo a pista preta destinada aos mais experientes, em busca do tal bastão.

Preocupado com ele, fiz exatamente a mesma coisa, para descobrir, segundos mais tarde, que não era incapaz de ficar em pé sobre os esquis naquela pirambeira. Muitos tombos adiante, o ar rarefeito cobrou seu preço para minha velha arritmia. Sentei sobre a neve e vi desfilar por meus olhos cenas de filmes de desastres, avalanches, soterramentos.

A muito, muito custo, arrastei-me até o ponto onde consegui apanhar o teleférico de volta. Arquivei neve, esquis e bastões entre as fantasias irrealizadas.

Pois graças a Edmea e Chico, tive as primeiras aulas na Serra da Estrela, que parece feita para iniciantes com suas descidas suaves e sua neve ligeira. Nenhum tombo e o elogio do Mancha, um instrutor que parece saído de um desenho animado: “Mandou bem, mandou bem…”

Jamais serei um esquiador. Edmea ou Chico não são capazes de enfrentar as ondas gigantes de Nazaré. Mas estamos, eles e eu, cumprindo um padrão que Alexandre Kalache, especialista no assunto, resumiu assim: “Você envelhece refletindo o que sempre foi. Você não vai se tornar uma pessoa completamente diferente, embora você possa se redescobrir, se reinventar. Eu acho que muita gente que tem um envelhecimento bem sucedido, não é bem sucedido financeiramente. É exatamente aquela pessoa que redescobre, que se reinventa e de repente se aposenta e vai pensar em outras atividades que talvez ele sempre tenha querido fazer e não podia, porque não tinha tempo, mas agora talvez tenha tempo, experiência, talvez até recursos e ele vai poder se liberar, coisa maravilhosa! Você não tem mais diretor. Você não tem mais chefe. Você dá o chute no balde! E isso é maravilhoso, porque nós estamos vivendo uma revolução da longevidade. Você quando chega aos 45, você está na metade da sua vida, você ainda tem a outra metade. Eu sempre digo: Se você puder, aos 45, faça um ano sabático. Vai para a Ilhabela, Machu Picchu, Nepal, vai pensar na vida. Vai pensar o que você quer fazer com essa segunda metade da sua vida?” Aí você volta com energia, renovado. Antes eu era médico, agora eu quero ser sóciologo…, sei lá, jornalista…

Ou esquiador amador…

 

Sobre o autor

Escrito por

Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Leia mais...

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