Portugueses tentam salvar tradição das calçadas de pedra

Lisboa busca um caminho para salvar uma de suas marcas registradas: as calçadas de pedra, predominantemente brancas e feitas à mão. Presentes na cidade desde o século XIX, correm o risco de desaparecer por falta de profissionais dispostos a conservá-las – os chamados calceteiros. Desde 1986, a Câmara Municipal, o equivalente local de Prefeitura, mantém uma escola de calceteiros. Só que o número de interessados em fazer o curso e trabalhar construindo ou mantendo as calçadas portuguesas diminuiu, embora os formados tenham emprego garantido na própria Câmara e trabalho à vontade, mesmo fora da administração pública.

Luisa Dornellas, 56 anos, engenheira agrônoma, diretora do Departamento de Formação da Câmara Municipal é otimista, apesar de tudo. Lembra que há um movimento de valorização desse tipo de calçamento, que a onda dos chamados descobrimentos espalhou pelo mundo e que os próprios imigrantes acabam por levar para outras cidades – há calçadas do gênero no Brasil, em Angola, Macau, Timor Leste, mas também na Espanha, França, Bélgica, Venezuela, Estados Unidos e China.

Mais: em março, os vereadores aprovaram a concessão de 110 mil euros – quase 485 mil reais – para a Associação Calçada Portuguesa aplicar na candidatura a patrimônio imaterial junto à Unesco. Luisa alonga-se ao enumerar as vantagens desse calçamento: é durável – há pisos com mais de 200 anos –, sustentável – permite reaproveitar 90% das pedras ao ser reposto – embeleza os passeios e ajuda a garantir a esplendorosa luz de Lisboa. Sem falar na permeabilidade assegurada pelo espaçamento entre as pedras que diminui os alagamentos. Ou na capacidade relativa de moldar-se à pressão causada pelas raízes das árvores.

A engenheira não omite desvantagens: escorregadia pelo desgaste, inimiga dos saltos altos e de manutenção mais cara. Transtornos para os quais oferece saídas: aplicação de faixas de granito, mais rugoso, respeito ao plano de acessibilidade, que define onde deve e onde não deve ser aplicada a calçada portuguesa e um trabalho permanente de promoção feito pela Câmara. Os saltos altos? Um problema anedótico, diz, apontando para a sandália de salto baixo e largo que está usando.

O calcáreo vem das pedreiras artesanais de Alqueidão da Serra, 104 quilômetros ao norte de Lisboa. Já chega em pedaços pequenos, que ainda são aparelhados pelos calceteiros. Pelo menos num lado e na altura, se a calçada foi simples. Em todos os lados, quando há desenhos complexos. Além do calcáreo, há o basalto negro, mais raro e o granito cinza.

Jorge Duarte, 55 anos, ganhava a vida como pintor de automóveis até ficar desempregado em 1986. Viu a notícia de um novo curso oferecido pela recém-criada Escola de Calceteiros da Câmara de Lisboa e resolveu arriscar. Passou no exame rigoroso e foi um dos alunos de dois mestres mais velhos, Pego Nunes, já falecido e Sebastião Golão, 85 anos, hoje aposentado. Gostou do ofício, aprendeu todos os truques e hoje ensina novos profissionais na quinta do Conde dos Arcos, no bairro de Olivais, em Lisboa.

Sonho de Jorge, que já deu cursos no Rio e em Belo Horizonte: deixar alguém em seu lugar daqui a dez anos, ao se aposentar. Tarefa difícil – dos 20 inscritos no curso atual, apenas cinco remanescem. “Gosto do que faço e gosto de ensinar. Mas estão me a fugir as mãos. Os jovens não querem saber deste ofício, preferem as tecnologias.” O repórter brinca dizendo que talvez seja o caso de construir um telemóvel (celular) de pedra. Jorge devolve a brincadeira entregando um pequeno coração de pedra que ele mesmo esculpiu. Quatro desses, reunidos pelas pontas como um trevo de quatro folhas formam a assinatura que Jorge deixa em suas calçadas. Assinar assim seus trabalhos é norma entre os calceteiros. O trevo de Jorge está na imagem da fadista Amália Rodrigues que nasce no chão e sobe pela parede na rua de São Tomé, que ele fez junto com Alexandre Farto, artista de rua conhecido por Vhils.

Jorge tem outra frustração: o fracasso da sardinha em pedra com que entrou num concurso de design que oferecia dois mil euros à melhor imagem do peixe, em qualquer suporte.

As primeiras calçadas do gênero causaram furor. Construídas por ordem de seu governador de Armas, Eusébio Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado, no final da primeira metade do século XIX, seus desenhos em ziguezague preto e branco levaram romarias de lisboetas ao Castelo de São Jorge. Sucesso que garantiu recursos para pagar a mão de obra barata e segura dos os prisioneiros chamados de grilhetas. Em quatro meses e meio de 1849, eles calcetearam os 8712 metros quadrados do largo do Rossio. As linhas retas acabaram amaciadas e surgiu o Mar Largo – aquelas mesmas ondas preto e branco que os brasileiros conheceriam mais tarde, na avenida Nossa Senhora de Copacabana, já com seu sentido invertido, ideia do paisagista Burle Marx.

As calçadas feitas a mão acabaram incorporando padrões e elementos decorativos tipicamente portugueses. Peixes, frutos e animais, mas também caravelas, estrelas, sereias, cordas, conchas. Mais recentemente, foi feito até um QR Code que oferece informações turísticas da cidade. Depois de multiplicarem-se por Lisboa e Portugal, no restante do século XIX, foi parar noutros cantos: Paris em 1900. Manaus em 1905, Rio de Janeiro em 1906, Cidade do Cabo, 1909, Nápoles, 1913, Sevilha, 1929…

Muito antes do governador de Armas, no seculo XVI, dom Manuel, o Venturoso, já cobrava da Câmara providências em relação ao calçamento da cidade. Em 4 de abril de 1499, ordenou que a rua Nova dos Mercadores, fosse “calçada de pedra miúda.” No ano seguinte, especificou – que fosse pedra do Porto “porque a outra se danava da maneira que se via”. E definiu o preço: 50 réis a braça. Foi um auê para conseguir que os donos de lojas da rua pagassem pelo serviço. Muita gente reclamou isenção e dom Manuel acabou determinando que a Câmara cobrasse todos os devedores.  Hoje, em Lisboa, as calçadas são de responsabilidade da Câmara e os munícipes não podem nem mesmo modificá-las, ao contrário do que ocorre em São Paulo, onde os proprietários dos imóveis é que devem cuidar das calçadas, sob pena de multa.

Em 1514, numa parada de nove dias em sua jornada rumo à Jerusalém, o nobre flamengo Jan Taccoen, senhor de Zillebeke, impressionou-se com os “estranhos animais e gentes” que viu na cidade e anotou: “não existe senão uma boa rua, que é bem pavimentada. Há aí toda a espécie de ofícios e mercadorias.”

Entre os estranhos animais, é provável que Taccoen se referisse aos cinco elefantes e um rinoceronte africano chamado Ganga, com que dom Manuel se exibia regularmente em cortejos desde o palácio real até a Sé, numa demonstração de seu poderio. O rinoceronte sustenta uma lenda digital – a de que as ordens de dom Manuel tivessem o intuito de garantir que o bicho não emporcalhasse os integrantes das comitivas reais ao pisotear as ruas enlameadas pelas chuvas de inverno.

Luisa Dornellas não confirma, nem descarta a história que muitos sites repetem. Para ela, vale tudo em favor das calçadas – de corações de pedra a rinocerontes.

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Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Leia mais...

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