Portugal investe em alternativas para cuidar da população idosa

A partir de uma lista de 50 temas pré-selecionados por pesquisadores da Universidade Católica Lisbon School of Business and Economics como alguns dos maiores desafios para 2018, 25 mil portugueses entre 17 e 71 anos, escolheram, livremente, os 15 mais preocupantes e 55% apontaram o envelhecimento como o maior problema do país, superando a qualidade da justiça (54,3%), a competitividade das empresas (45,7%) e a burocracia (quase 40%).

Temor justificado: quinto país mais envelhecido do mundo e oitavo com menor índice de fecundidade, Portugal tem multiplicado seu índice de envelhecimento, isto é, o percentual de idosos a cada 100 jovens – 143% entre 1961 e 2016. O total de portugueses idosos deverá passar de 2,1 para 2,8 milhões entre 2017 e 2080 e o processo de envelhecimento só vai se estabilizar em 2049, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística. A soma da baixa natalidade com a perda da população via migrações configura o que alguns demógrafos definem como “o pior dos mundos”.

Embora há oito meses, um grupo de trabalho interministerial tenha divulgado um documento com título algo pomposo – Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável 2017-2025, o primeiro passo concreto na direção de virar esse jogo deve ser dado em Lisboa, que tem quase 25% da população com 65 anos ou mais, com uma expectativa média de vida de mais 20 anos.

Uma parceria entre a Câmara Municipal, que equivale à Prefeitura, e a Santa Casa de Misericórdia, já assegurou um investimento de 140 milhões de euros nos próximos quatro anos – mais da metade do que a cidade gastará para ampliar a rede de Metrô no mesmo período.

Lisboa, Cidade de Todas as Idades encara o envelhecimento de outro modo, diz Sérgio Cintra, 45 anos, advogado e filiado ao Partido Socialista, gestor da ação social da Santa Casa: “A internação não deve ser mais a primeira resposta ao desafio do envelhecimento, como tem sido até hoje. Nos equipamentos, é preciso adaptar os horários ao ciclo de vida, para evitar que as pessoas estejam muito tempo sozinhas. Esse projeto só funciona como um conjunto de iniciativas, não tem uma fórmula mágica.” Incluir os idosos entre os grupos que desfilam pela avenida da Liberdade na noite de Santo Antônio (o que acontecerá este ano pela terceira vez), diz Sergio, é tão eficaz quanto medidas mais caras e complexas.

 

FASES

O programa articula três eixos – vida ativa, vida autônoma e vida apoiada – e prevê desde um fórum específico ao treinamento para seis mil cuidadores informais, reforma de casas e calçadas e construção e readequação de 21 centros de dia, que se tornarão os Espaços InterAge, onde infraestrutura e recursos serão compartilhados por jovens, crianças e idosos, num misto de asilo, biblioteca e creche. O primeiro está em obras num antigo prédio residencial que quase foi à leilão, no bairro do Campolide e abre as portas no final deste ano ainda. O investimento total só nesses centros será de 12 milhões de euros.

Ainda este ano, 30 mil idosos em situação de risco passarão a ser monitorados 24 horas por dia a partir de um centro gerenciado em conjunto pela Câmara, Santa Casa, Segurança Social, Administração Regional de Saúde e Polícia. Seus agentes terão a chave da casa dos cadastrados – providência importante numa cidade que tem pelo menos 85 mil idosos vivendo sozinhos ou acompanhados de pessoas na mesma faixa etária.

Fernando Medina, sociólogo, 45 anos, presidente da Câmara Municipal (que corresponde ao nosso prefeito) resumiu assim as metas em entrevista a esta Folha: “Não são as pessoas que tem de se adaptar, mas as cidades. A primeira grande preocupação deve ser assegurar o envelhecimento ativo. A segunda grande questão é aumentar a autonomia dos idosos, em conforto e segurança. E a terceira, oferecermos mais respostas com elevados graus de autonomia – inclusive com a institucionalização, quando necessária. Isso não é um favor, nem uma ajudinha”.

Mas em certos casos, só uma ajudinha já muda a vida das pessoas. Alcântara, bairro próximo à ponte 25 de Abril, tem quase 10% de sua população composta por idosos vivendo sozinhos. As ruas estreitas e íngremes em alguns locais impedem a circulação dos ônibus convencionais. Há três anos, com o apoio de um supermercado local, a Freguesia (espécie de administração regional) criou o Azulinho, um microônibus de 17 lugares adaptado para receber idosos e que faz um percurso sinuoso pelos vários pontos do bairro, garantindo o acesso dos moradores ao mercado, posto de saúde, Correios, etc. Hoje, mais de duas mil pessoas usam o Azulinho. Em sua maioria, viúvas, que transformam o percurso num programa diário, nem sempre vinculado a compras ou outros compromissos.

“É um boa maneira de combater a solidão, explica o presidente da Junta de Freguesia, Davide Amado, 38 anos. A manutenção do Azulinho custa 25 mil euros por ano, bancados pela Freguesia.

Se for preciso olhar para instituições pouco convencionais no trato com os idosos, não é preciso ir muito longe: a pouco mais de 200 quilômetros ao norte, no pequeno povoado de Gafanha do Carmo, freguesia do Concelho de Ílhavo, com pouco mais de 1500 habitantes, um Centro Comunitário colocou senhoras e senhores com mais de 80 anos nas redes sociais, no You Tube e em muitos programas de TV.

O prédio moderno e espaçoso e o orçamento de 370 mil euros para 2018 (boa parte vindo de recursos da Segurança Social ) nada tem de surpreendentes. A novidade está no Facebook, onde a página do Centro tem quase 37 mil seguidores. Ou no You Tube, que oferece mais de 200 vídeos protagonizados por alguns dos 35 moradores do Centro de Gafanha do Carmo. O mais visto, um clipe do sucessso Wrecking Ball, de Miley Cyrus, apresenta vovôs e vovós maquiados e com camisetas brancas, dublando a canção e lambendo o punho de bengalas, entre outras ações. Teve 244 mil visualizações, 3,1 mil avaliadas com sinais de positivo e 176, com negativos. O vídeo mais recente é uma paródia de Joji Toddynho, em Que tiro foi esse, que dá outra interpretação ao tiro, com uma sonora e contagiante flatulência. Não teve tanto alcance até agora: 177 visualizações.

Por trás dos vídeos e de outras iniciativas nada ortodoxas, estão um animador cultural e uma gerontóloga. Ângelo Valente, 34 anos e Sofia Nunes começaram adotando um gato, que só durou seis meses, mas revelou-se um facilitador de afetos – e uma demonstração de que era possível subverter as rígidas regras normalmente empregadas em instituições semelhantes.

No próximo dia 12 de maio, eles vão reunir dúzia de personalidades de várias áreas para refletir como será a velhice daqui a 50 anos. A lista de participantes do terceiro Futuridade tem o músico Pedro Abrunhosa, o ex-primeiro-ministro de centro-direita Pedro Santana Lopes, a blogueira Mariana Cabral, do Bumba na Fofinha (mais de 270 mil seguidores no Facebook), o jogador de futebol aposentado Nuno Gomes e a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, entre outros. Mais de 200 ingressos a 7,5 euros já tinham sido vendidos em meados de março.

Quem recebe os visitantes na porta do Centro é Vadio, um cãozinho de rua, adotado depois deacompanhar um passeio dos idosos e que hoje compartilha seu espaço com Viana, uma labrador que não deu certo como cão-guia.

O primeiro vídeo no You Tube já tem cinco anos: a paródia de Ai, se eu te pego, de Michel Teló, com 6,4 mil visualizações. Ali já está o DNA da irreverência. Ângelo admite que certas gravações causaram polêmica, mas deixa uma pergunta no ar: “A polêmica tem a ver com a idade das pessoas. Mas qual a idade-limite para fazer humor?”.

Sofia assegura que o Centro não é um projeto de comunicação e que a dupla só pretende concretizar o lema da instituição: Multiplicar a felicidade, dividindo-a. Mas também reconhece que nem todos aderem à tanta alegria: “Há pessoas que não conseguem se integrar, que não ficam felizes. No limite, sugerimos que busquem outra instituição, outra solução. Mas tentamos tudo antes.”

Ângelo e Sofia escalaram um trio para falar com a Folha: o escriturário João Fernando Lopes Oliveira, 62 anos, o morador mais jovem do Centro, vítima de um AVC, que carrega uma pasta cheia de escritos que oferece aos visitantes, fazendo questão de assinar as cópias, como se fossem documentos oficiais; dona Ermelinda Caçador, de 90 anos, a mais popular moradora, desde que Alfredo Miranda, a estrela dos vídeos morreu em fevereiro do ano passado e Hilda Ferreira Marques de 84, mora fora, mas está ali todos os dias, participa das brincadeiras e tem até uma transmissão ao vivo na internet – Hilda e Volta. Todos dizem gostar muito do local.

Fotos dos moradores – muitas com algum adereço, como nariz de palhaço, chapéu, óculos escuros – decoram as paredes, no que Sofia e Ângelo dizem ser uma manobra para aumentar a autoestima dos moradores, cujos netos costumam se entusiasmar com o sucesso dos avós: “Eles ganharam um papel social que nunca tiveram”, diz Sofia.

Diante da pergunta meio óbvia do repórter sobre o que é ser velho, João contra-ataca: “Não estou velho. Estou sênior…Velho tem sabedoria…”. Dona Esmeraldina complementa: “Se tiver juízo, tem…”

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Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Leia mais...

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