Com peixes mortos, rio Tejo vive dias de Tietê e preocupa pescadores

Moradores de aldeias em Portugal culpam empresa de celulose por crise

 

Vitorino Coragem / Folhapress

Vitorino Coragem / Folhapress

 

Há 16 anos, Hugo Sabino ganha a vida no rio Tejo. A 200 quilômetros de Lisboa, transporta passageiros dispostos a pagar dois euros para usar a barca do Arneiro, encurtando o caminho até Santana, uma cidadezinha do Alto Alentejo. Sua escassa clientela tem hora marcada: oito vezes ao dia, quatro nos trens sentido Lisboa/Covilhã, mais quatro na direção oposta.

O que não tem aparecido mais para Hugo são peixes. As lampreias, então, que ele adora, simplesmente sumiram. O barqueiro tem uma explicação e solução simples: “Fosse um país civilizado, essa fábrica, a Celtejo, estaria fechada. A culpa é da Celtejo. Não quero que a empresa feche. Só quero que não mate o rio”.

Os pescadores da aldeia vizinha Santana já não tiram seu sustento do rio, como Hugo. E endossam as críticas do barqueiro à empresa que fabrica 218 mil toneladas por ano de pasta de celulose na vizinha Vila Velha de Ródão. No Clube Recreativo e Desportivo de Santana, um grupo ouvido pela Folha não hesita em falar mal da Celtejo, no grande esteio econômico da região e agora, para eles, a semente de todos os males.

Para quem tem na memória as imagens do Tietê ou do Pinheiros, o Tejo que Hugo cruza todos os dias nem parece tão mal. A água é translúcida, as margens tem vegetação e há até passeios turísticos pelo rio. Mais abaixo, em Lisboa, pescadores amadores marcam presença diariamente no calçadão construído junto ao rio e ali conquistam suas tainhas.

No final de janeiro, um manto de espuma branca e consistente espuma cobriu o rio na altura de Vila Nova de Ródão. Diante da cobertura intensa da imprensa, caminhões e trabalhadores removeram a espuma até uma estação de tratamento de esgotos. O governo fez mais: reduziu a produção da Celtejo em 50%, primeiro por dez dias, depois por mais um mês. Ainda persiste um diminuição de 30%. 

Otávio Paiva de Rosa, 77, pescou a vida toda, até se aposentar. Onde costumava apanhar carpas, passou a encontrar apenas lagostins vermelhos, uma espécie originária da Lousiana, que foi introduzida na Espanha nos anos 70 e acabou se disseminando pela península ibérica. Hoje, nem lagostins há mais. Recentemente, a disposição dos moradores de Santana e outras aldeias mudou: “O pessoal morria de medo de falar mal da Celtejo. Mas como ela está com a imagem suja, já ninguém se contém.”

Eduardo Ribeiro, 52, e Fernando Tomás, 55, continuam a viver da pesca, mas reclamam muito. Dizem que os peixes sumiram depois que a Celtejo passou a fornecer pasta de celulose para duas empresas que se instalaram ao lado da fábrica, chamadas Paper Prime e a Navigator.

“Essas empresas fabricam guardanapos e toalhas de mesa de papel e a  Celtejo mudou seu processo. Passou a usar mais produtos químicos. De vez em quando, nos finais de semana, há lançamentos clandestinos”, dizem.

Assunto é o que não falta nas mesas do Clube de Santana. Em outubro do ano passado, milhares de peixes – achigãs, carpas, barbos, bogas e até lagostins – apareceram boiando nas águas do Tejo, entre Vila Velha de Ródão e a barragem do Fratel, a uns 30 quilômetros abaixo. Análises comprovaram que a causa da morte foi a falta de oxigênio, causada pela proliferação de algas.

José Moura, 57 anos, técnico de informática na Biblioteca de Nisa, volta e meia aparece no Clube. Além de namorar uma moradora da aldeia, ele acaba de ser reeleito um dos porta-vozes do Movimento proTejo, criado em setembro de 2009, logo após um protesto que reuniu 40 mil de pessoas em Talavera de La Reina, na Espanha, em defesa do rio. Em maio, o proTejo vai realizar mais uma descida de canoa pelo Tejo, o sexto Vogar contra a Indiferença. O novo alvo do proTejo é um projeto que pretende investir quatro bilhões de euros (mais de 16 bilhões de reais) para tornar o rio navegável entre Lisboa e Abrantes, com a construção de novas barragens. E sobre o qual não há, até o momento, nenhum debate público.

Em jornais e emissoras de TV de Portugal, o noticiário sobre a poluição do rio nem sempre ouve o lado da Celtejo. É comum dizerem que companhia se recusou a falar.

À Folha, um porta-voz da empresa que pediu para não ter seu nome divulgado  apresentou contra-argumentos para todas as críticas. Segundo ela, a empresa tinha um desempenho ambiental muito ruim quando era do governo. Mas, comprada em 2005 pelo grupo Altri, investiu mais de 200 milhões de euros (R$840 milhões) na modernização do processo produtivo. Construiu uma estação de tratamento que também processa os efluentes das outras fábricas de papel e, a pedido do governo, das queijarias regionais. Até 2025, a fábrica de Vila Velha de Ródão vai receber mais 85 milhões de euros (R$350 milhões) de investimento no tratamento de efluentes.

Segundo a porta-voz, a redução determinada pelo governo após o surgimento da espuma foi apenas uma reação publicitária, que a Celtejo acatou “para não criar problemas”.  Processos volta e meia mencionados pelos ambientalistas e pela APA (Agência Portuguesa do Ambiente) envolvem só questões administrativas, como o descumprimento de datas para apresentar relatórios, mas não indicam que a fábrica seja poluidora.

De acordo com ela, a espuma deve ser atribuída a algum problema na estação de tratamento de Abrantes. “No dia desse evento, a APA emitiu uma nova licença para a estação de traatamento de Abrantes. Tem muita coisa mal explicada”.

Recuperar a imagem da Celtejo, porém, vai exigir mais que a presteza de porta-vozes preocupados em manter anonimato. No dia 29 de março, a empresa não recebeu uma advertência encaminhada em carta registrada pelo juiz de Santarém – e que substituiu uma multa. O carteiro que levava o documento teve sua moto roubada. Ela foi encontrada pouco adiante do local do roubo, mas o baú das cartas sumiu.

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Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Leia mais...

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