“AOS 45 DO SEGUNDO TEMPO”

Pouco antes de Fernando Collor renunciar o cargo da Presidência da República, no dia 29 de dezembro de 1992, o jornalista Paulo Markun, divulgou uma metáfora sobre a situação política que o Brasil estava passando. Divulgado no dia 09/12/1992, o texto ” Aos 45 do segundo tempo” relaciona a política nacional com uma das maiores paixões do povo brasileiro: o futebol.

“AOS 45 DO SEGUNDO TEMPO”

O empresário Paulo Francini disse outro dia que vice-presidente devia ser como um jogador no banco de reserva do time: pronto para entrar em campo e decidir a partida, no caso do titular ficar fora do jogo.

É a pura verdade e vale para a esmagadora maioria dos países e dos jogos de futebol (como de outros esportes em todo o mundo). Mas no nosso caso, há muitas diferenças entre o esporte e a realidade. Aqui estão apenas dez delas:

1 – Nosso time está perdendo de goleada – gols contra em sua maioria.

2 – A confusão começou quando, pela primeira vez em muitos anos, escalaram o capitão de acordo com a vontade da torcida. E já tem gente argumentando que torcida indicando jogador dá sempre nisso.

3 – Mal entrou no campo, nosso atleta simplesmente inverteu todas as regras do jogo. Para muitos, ele estava crente que era um jogo de rugby e não de futebol.

4 – O titular não chegou a se machucar. Foi expulso de campo quando descobriram que ele estava jogando para um outro time, que não o nosso. E saiu debaixo de vaia, – depois de um processo que envolveu a torcida, o juiz, os bandeirinhas, o time adversário, a confederação inteira e até o bispo.

5 – Pelo menos teoricamente, a expulsão é temporária. E embora ninguém acredite que ele possa voltar, o juiz, bandeirinhas, adversários e parte da torcida fazem de conta que o capitão vai levantar a plaquinha com o número de seu substituto sobre a risca de cal e entrar novamente para terminar a partida.

6 – Ao colocar a faixa no braço, o reserva botou um novo time para jogar. E parece que eles estão tendo problemas para se entender. Tem jogador que nem sabe pra que lado deve atacar, ou qual a meta a defender.

7 – O novo time ainda não marcou nenhum gol, mas chutou algumas bolas bem perto da meta adversária. Exemplos? A Previdência, a reforma tributária, que pode ser ruim, mas é uma proposta, a suspensão de uma privatização meio esquisita, e, principalmente, a disposição de ouvir o clube todo – e os torcedores, principalmente – sobre qual o melhor caminho para virar o jogo.

8 – Por enquanto, o time tem feito muita cera. E ninguém vira um jogo tão ruim só atrasando a bola pro goleiro, chutando de um beque para o outro, desviando pra lateral, marcando apenas o adversário.

9 – Tanto o reserva como seu novo time estão sendo maltratados pelos comentaristas (pelo menos, por boa parte deles). Criticam-no quando ele se mostra um defensor do estilo que nos fez campeões do mundo e que hoje estaria ultrapassado. Reclamam quando ele vira para a torcida e reconhece que é preciso mudar o jogo. Falam mal até do topete dele! Esses comentaristas se alternam entre atitudes conflitantes. Alguns querem acabar com o jogo e iniciar nova partida. Outros acham que o reserva é tão ruim quanto o titular. Tem aqueles que se imaginam no direito de assumir o lugar do capitão. E há os que querem simplesmente vender mais jornal, mais revista ou ter mais audiência. É o que um fabricante de rótulos, desses que definem a compra de vagas nas escolas como a volta do populismo poderia definir maldosamente como jornalismo de resultados.

10 – Ser capitão do time é dose pra leão, mas tá cheio de jogador hoje na torcida de olho na vaga, para o próximo jogo. E a nenhum deles interessa que o atual reserva acerte os passes, marque seus golzinhos e levante a moral do time.

Há uma diferença que se coloca acima de todas essas: é que a torcida já fez tudo que podia fazer. Tem até gente virando a casaca, mudando de clube, mas a esmagadora maioria continua lá na arquibancada, debaixo de sol e chuva, esperando um gol, uma jogada eficiente, um time que sue a camisa, entre em todas as divididas, entusiasme a galera. Por tudo isso, presidente Itamar, é que o senhor deveria por a bola no chão, passar logo para um centro-avante e chutar em gol. Como a torcida do Corinthians, a qual me orgulho de pertencer, o brasileiro é paciente. E faz uma festa danada mesmo quando o time empata aos 45 do segundo tempo.

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Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Leia mais...

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