“A SÃO PAULO QUE JÁ NÃO EXISTE”

O repórter Paulo Markun mostra como Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida, Juó Bananére e Rubem Braga contam histórias da cidade esquecida.

Aquela cidade desapareceu, sumiu no tempo, morreu um pouco a cada dia. E, hoje, só resiste na memória dos que teimam em invocá-la, espalhada por velhos livros e revistas, na palavra de seus poetas e cronistas do passado. Sempre do passado, porque nem mesmo cronistas e poetas resistiram ao crescimento desenfreado. Alguns morreram, outros desistiram de enfrentar o desafio de cantar esta cidade dura e cinzenta, outros ainda foram para o Rio, pois a velha capital é sempre mais generosa para com seus poetas, mesmo que mineiros de nascimento.

E assim, sem crônicas nem poesias, a cidade do começo do século, a Paulicéia Desvairada de Mário de Andrade e de seus companheiros modernistas, morreu silenciosamente, sufocada pelo próprio crescimento. Quem sabe hoje como era a vida no tempo das primeiras avenidas, quando os home03ns rasgavam a terra do espigão, furando o túnel, correndo para as bandas do rio Pinheiros? Quem registrou o esplendor do Fasano na Barão de Itapetininga, o fim dos corsos, a morte do Trianon, a multiplicação de bairros e bairros, cada vez mais distantes?

Na memória de muitos jovens, a cidade de 20 anos atrás é um ponto de interrogação. E na dos jovens de então, uma coleção de recordações – alegres e tristes – que ninguém ainda quis colocar no papel.

É fácil lembrar dos bondes, dos camarões, dos papa-filas, das manhãs frias a caminho da escola, o vento correndo gelado pelos corredores das ruas, a algazarra sempre igual de todos os recreios. Hoje, a escola continua lá, os recreios são igualmente barulhentos e movimentados. Mas não há mais bondes, papa-filas e as ruas são corredores cada vez mais altos e concorridos.

Sinal dos tempos, resultado inevitável do progresso, o certo é que a cidade não só se perdeu nesses 15, 20 anos, como nem chegou a ter sua fisionomia delineada. Já há muito morrera a Paulicéia Desvairada de Mário de Andrade e seus companheiros. E ele mesmo anunciara o final:

“Mas a taba cresceu…Tigueras agressivas,

Prá trás! Agora no asfalto anda em Tabatinguera.

Mas se esgueira um pagé entre locomotivas

E o forde assusta os manes lentos do Anhanguera.”

O asfalto passou em muito Tabatinguera e nem mesmo arranca exclamações, que ninguém se espanta com a taba que cresceu. As janelas do Martinelli, que ele exortava a explicar essa cidade cosmopolita, já não explicam nem mesmo sua sobrevivência. Muito embora o cosmopolitismo tenha se fortalecido mais e mais:

“E agora apontai-me, janelas do Martinelli,

Calçadas, ruas, ruas, ladeiras rodantes, viadutos

Onde estão os judeus de consciência lívida?

Os tortuosos japoneses que flertam São Paulo?

Os ágeis brasileiros do Nordeste? Os coloridos?

Onde estão os coloridos italianos? Onde estão os turcomanos?

Onde estão os pardais, madame La Françoise.

Ergo, ego, Ega, égua, água, iota, calúnia e notícias

Balouçantes nas marquesas dos roxos arranha-céus?…”

A cidade das madames e das calçadas quase sumiu, como já sabia Manuel Bandeira –

“…Anhangabaú que já não é dos suicídios passionais

O hotel Esplanada virou catacumba

Enfim a rua Direita!

A minha Rua Direita!

Que saudades tinha dela!

Ainda existe a Casa Kosmos, mas

Não tem impermeáveis em liquidação

Praça Antonio Prado, onde

Tudo novo, salvo aquela meia dúzia de sobradinhos

O anjo cor-de-rosa não é mais cor-de-rosa:

O tempo patinou-o de negro.”

A surpresa não foi só do poeta, muitos viram as transformações. Mas quem registrou o presente dessas últimas décadas? Quem evitou as atrações do passado ou as visões de um futuro quase sempre cor-de-rosa, como o anjo de São Paulo. Foram poucos, dizem os jornais e revistas dessa época. Foram poucos, dizem os cronistas que ainda hoje insistem em registrar o presente.

São Paulo continua sendo dos italianos, dos alemães, dos poloneses, dos turcos e nordestinos, dos japoneses, mineiros, gaúchos, americanos, chineses, um galicismo a berrar nos desertos da América. Que, bem verdade, nem tão desertos são mais. Uma cidade que faz lembrar todas as cidades e, no entanto, não se parece com nenhuma, como dizia Hermann Ulmann, na década de 30. Uma espécie de Chicago tropical, cada vez menos tropical, cada vez menos Chicago, pois nem as comparações resistem a seu crescimento.

Mas quem, depois de Guilherme de Almeida, se preocupou em descrever esse Resumo do Mundo, como o poeta o chamou, em 1929, ao escrever Cosmópolis?

“Rosa dos Ventos: Alto da Mooca.

É aqui em cima que moram todos os ventos de São Paulo.

Rua do Oratório: que não é rua e não tem nenhum oratório.

Uma subida alongada, cansada, arrastada. Vai, não vai…Em Segunda: não vai.

Em primeira: vai. Foi. Pronto. O bairro húngaro de São Paulo.

De São Paulo? Não sei, São Paulo parece que está tão longe, tão longe,

lá muito além desta planura cor de barro, bem além daquele arrepio de

chaminés de fábricas e balões de gasômetros; um pouco além daquela

verdura do parque que tem uma cobra de água parada no meio…Lá, ali onde

estão uns cubos altos, oxidados de distância. São Paulo enorme de casas e

gentes. Casas e gentes de todos os estilos. Cosmópolis. Resumo do mundo…”

Alto da Mooca, rosa dos ventos? Mas que rosa se nem ventos correm mais por aqui, neste bairro emparedado pelos cubos altos, cada vez mais altos e mais próximos, sem verdura de parque, nem lá longe. Alto da Mooca, quem sabe que você já teve húngaros?

Quem se lembra de Juó Bananére, no Bom Retiro? E seu estranho dialeto, suas poesias?

“Tegno sodades dista Pailicéia,

Dista cidade chi tanto dimiro!

Tegno sodades distu çeu azur,

Das bellas figlia lá du Bó Ritiro.”

O Bom Retiro ainda tem figlias, mas serão belas? Suas belas casas, os velhos casarões, sumiram. No Bom Retiro, nos Campos Elísios, nas ruas centrais, no vale do Anhangabaú, nas ladeiras da Consolação, na esplanada de Paulista.

Exatamente como mostrava Mário Donato, em 1957:

As velhas residências senhoriais, aquelas diante das quais a gente, por volta dos 20 anos, de mãos dadas com a namorada, gostava de parar nas tardes de domingo e sonhar coisas impossíveis, estão cedendo lugar aos blocos de cimento armado. As da Alameda Barão de Limeira, depois de um melancólico estágio como pensões e repartições governamentais, vem abaixo sem ruído, numa poeira de caliça e madeira podre. O mesmo acontece com as casas apalacetadas da antiga Alameda Barão do Rio Branco, hoje avenida Campos Elísios, onde está o palácio do governo. Na rua São Luiz, os arranha-céus mantêm encanado um vento firo que desafia os mais rijos pulmões da Paulicéia, mais desvairada que nos tempos de Mário de Andrade… Mas os prédios não invadem apenas os bairros da dita gente-bem. O cortiço horizontal da rua dos Italianos cede lugar ao cortiço vertical no Bom Retiro, na Água Rasa, na Vila Maria, no Brás, na Mooca, no Belém. Horríveis apartamentos, caixotes empilhados com um péssimo ascensor no poço, que também serve de despejo, os encanamentos vazando, zeladores safados e senhorios prepotentes. Os maridos, quando vêm para o jantar já não percorrem exaustos aqueles longos e escorregadios corredores, desviando-se dos lençóis ainda úmidos, estendidos nos varais, a procura, pelo cheiro, da porta de suas casas. Agora, tomam o elevador e vão sentindo, a medida em que sobem, cegos dentro daquela gaiola sem luz, o cheiro misturado que várias famílias estão cozinhando em cada pavimento. Todos se mudam para os arranha-céus e a família se perde na mudança…

Muitas famílias se perderam nessa e noutras mudanças, mas nem todos se mudaram para apartamentos. O que não evitou que os arranha-céus comessem o espaço dos quintais, arrasassem quadras e quadras, povoassem as ruas de carros, expulsando os bondes, que tiveram uma despedida a altura, de Rubem Braga:

Foi na madrugada de uma segunda-feira – 6 de dezembro de 1937 – que a cidade de São Paulo surgiu arrebentada e descomposta. A avenida São João apresentava um sistema de fossas, montanhas, barricadas e trincheiras. A Praça Ramos de Azevedo teve rasgado seu ventre betuminoso e houve trilhos arrancados… Mas quem morreu, quem morreu e isso me custa dizer, foi o grande bonde Tamandaré. Morreu o grande bonde Tamandaré pai e mãe de todos os bondes. De acordo com a tabela da Light e as indicações dos guias da cidade, esse bonde tinha um itinerário e um horário. Mas ele nunca soube disso, mesmo porque – a verdade seja sempre dita – o grande bonde Tamandaré era analfabeto. Era analfabeto e não funcionava bem da cabeça. Suspeito que ele se entregava a libações alcoólicas na Aclimação e tinha uma paixão encravada no Ipiranga. Um dia eu o encontrei ao meio-dia, sob um sol de rachar, em estado lamentável, na Praça do Patriarca e não pude deixar de sorrir. Ele certamente percebeu porque, no mesmo dia, às duas da tarde, quis me matar no Largo da Sé. Uma vez, na Praça do Correio, exatamente na praça do Correio, numa noite de grande tempestade, ao passar junto ao monumento do Verdi, esse bonde parou, protestou, armou um escarcéu e fez um comício-monstro berrando por todos os balustres, dizendo que aquela estátua era um absurdo…

Muitos outros bondes, todos filhos do grande Tamandaré, morreram depois. Rubem Braga já estava no Rio, dedicando às moças e às areias de Copacabana a sua prosa ágil, quando morreu o último dos bondes – o da linha Santo Amaro, rapidamente esquecido também.

E com os bondes, com as praças, com as ruas, as esquinas, foi morrendo um pouco da cidade, ano após anos, dia após dia. Mas há quem tenha esperança, quem acredite nas previsões de tempos melhores para essa cidade. Para esses, basta torcer para que as previsões de Godofredo Emerson Barnsley em sua São Paulo Anno 2000 – Chronica da Vida Futura – escrita em 1909, venham a se concretizar. Na pele de Jeremias Serapião Pacífico de Santa Cruz Barbuda – um pacato paulistano que sonhou com o futuro, Barnsley traça suas previsões otimistas para a cidade. Que acreditava ele, teria 1,5 milhão de habitantes no ano 2000, quando os norte-americanos já se preparavam para organizar uma expedição à Lua e os bondes tinham sido substituídos por aeroplanos.

Mas leitores e leitoras, vou descrever-vos palidamente um espetáculo a que assisti das portinholas do aeroplano e que excede a tudo quanto pode o cérebro e o esforço humano apresentar de maravilhoso em suas obras. Olhando para baixo, divisei, através dos espaços, uma imensa esteira de luz, inteiramente resplandescente, ponteada de milhões de focos de todas as cores e de todos os feitios. Tive um deslumbramento! Era a grande cosmópolis paulista – um panorama grandioso e emocionante que me arrancou expressões de assombro e admiração. Ao presenciá-lo, lembrei-me pela associação das idéias, da grande exposição nacional do Rio, nas noites em que os seus suntuosos palácios mostravam-se deslumbrantemente iluminados.

A luz de um esplêndido luar contribuía ainda mais para dar aquele espetáculo maravilhoso todos os característicos de um conto de fadas. Em vertiginosa rapidez, como fitas cynematographicas, corriam debaixo dos nossos pés, em direção horizontal, as ruas, os jardins, as praças, os enormes edifícios. Aqui e ali, surgiam os colossaes arranha-céos (skyscrapers) verdadeiras maravilhas de aço e concreto…

Eis aqui o Theatro Municipal, um dos nossos melhores monumentos de arte, edificado há 90 annos e que tanto honra a architectura dessa época. Este sumptuoso edifício estava situado numa larga avenida ligada ao coração da cidade por um grande viaducto de cimento armado, edificado no anno de 1940 ou 50 sob o qual se estendia um parque pittorescamente arborizado aos lados e alfombrado de relva ao centro. Era agora o campo predilecto da criançada do centro da cidade para os jogos infantis e exercícios militares. Pouco além do viaducto, notei que a avenida que seguíamos era cortada em ângulo recto por mais duas largas ruas arborizadas; a segunda desembocava numa praça que se fazia notar por um edifício secular, constratando com o estylo moderno e elegante das outras edificações: era a nossa tradicional Faculdade de Direito, o grande ninho das águias brasileiras, por onde, pelos séculos mortos, transitaram as gerações daquelles a quem futuramente estava incumbido o governo da Pátria… A machina continuava a transpor edifícios até que surgiu aos nossos olhos um grandioso boulevard, fulgurantemente iluminado por milhares de globos incandescentes, de luz branca e azul. Pela altura dos edifícios, verdadeiros primores da arte, pela largura da rua e afluência de gente que a enchia, julguei por um momento, achar-me deante da monumental avenida Central do rio, classificada como uma das mais belas do mundo. Que maravilha; exclamei sem poder conter o enthusiasmo. – É a avenida 7 de Setembro, a nossa monumental artéria, que se extende em linha recta desde a praça Antonio Prado até o Parque Antarctica. Fiquei deslumbrado! Que povo progressista!

Sobre o autor

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Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Leia mais...

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