AYTRON SENNA – APENAS O MÁXIMO !

Em maio de 2016 completaram-se 22 anos do falecimento de um dos mais influentes e bem sucedidos pilotos da Formula 1, o brasileiro Ayrton Senna.

Um homem de poucas palavras, Senna foi eleito em 2012 o melhor piloto de todos os tempos pela BBC. Com 80 pódios e 41 vitórias no currículo, Ayrton foi um homem que gerou polêmica, não por motivos negativos e sim pela imagem de homem solitário e obsessivamente dedicado ao trabalho que ele tinha.

Apesar do difícil acesso ao piloto, Paulo Markun fez uma analise sobre sua carreira e a vida pessoal, confira!

Existem pelo menos dois Ayrton Senna: o bom moço que a gente vê no vídeo, sorridente, simpático, afável, pagando a conta de um jantar, comprando uma camisa, destacando a competência e rapidez do seu patrocinador, e o piloto pouco dado às palavras, misterioso, obsessivamente dedicado ao trabalho. Entre um e outro oscila o solteiro (em verdade, divorciado) que resume os sonhos de todas as mocinhas e de suas mamães. Príncipe ou sapo, herói ou vilão, bom menino à la Roberto Carlos ou esquisitão tipo Mequinho e Howard Hughes, não há uma só resposta, até porque entre os estereótipos existe, com certeza, um terceiro Senna, real, de carne e osso. Mas tão inalcançável quanto nos inspirados momentos em que entra num circuito para cumprir mais uma de suas Flying Laps – as voltas voadoras, prodígios de perícia e ousadia que já lhe valeram 50 poles positions em Grandes Prêmios de Fórmula Um – , mas um recorde para a sua coleção particular.

Acontece que, separando o verdadeiro Ayrton Senna da Silva do resto de nós, meros mortais, existe um círculo de ferro, em que, não por acaso, as peças-chaves levam um mesmo Silva como sobrenome. O comando de seus negócios, bem como o acesso ao piloto, é responsabilidade exclusiva do pai dele, Milton da Silva. E o dia-a-dia da Ayrton Senna Promoções Ltda. fica com o primo Fabio da Silva Machado. Tanto um como outro não se cansam de explicar que Senna tem pouco tempo de descanso entre um campeonato e outro e não pode, nesses intervalos, atender às dezenas de solicitações de repórteres e jornalistas, não apenas do Brasil mas do mundo todo, etc. etc. etc…

Quem romper essa barreira não vai encontrar uma intimidade tão surpreendente. Senna não coleciona escândalos como Mick Jagger, nem excentricidades como Prince. Desde muito pequeno, seu passatempo, quando não estava correndo de Kart, montando ou desmontando o carrinho ou treinando, era apenas e tão somente… o automobilismo. E no circo da Fórmula Um ele encarna o papel do trapezista – aquele que suspende a respiração do respeitável público com suas façanhas, mas que não se digna a lhe oferecer mais que um gesto rápido de agradecimento e um sorriso protocolar ao término de suas apresentações. Assim, o trapezista Senna perde sempre os campeonatos de simpatia, charme, sedução, até porque está sempre empenhado em conseguir o melhor resultado, em andar cada vez mais depressa nas pistas, em ser o número um.

 Bicho do mato

Pra complicar ainda mais as coisas, nessa última temporada de descanso, um estranho e mal explicado seqüestro fechou ainda mais o cerco em torno do piloto, a ponto de obrigar os jornalistas a um plantão diante de sua zona eleitoral, porque sua entourage negou-se a informar até mesmo em que horário o piloto iria votar, temendo um cinematográfico rapto cívico. A vigília acabou resultando na previsível e prosaica foto do bicampeão depositando seu voto na urna, exatamente como tantos outros milhões de brasileiros – alguns pouco mais ou menos famosos e igualmente sujeitos aos riscos de um improvável seqüestro bem na cabine de votação.

A paranóia do seqüestro começou na própria imprensa, devidamente insuflada pela notícia de que o Comando Vermelho estaria com tudo pronto para sumir com o campeão tão logo ele chegasse a Angra dos Reis, onde costuma pilotar um jet-ski, esquiar ou descansar simplesmente. Ao contrário de tantos outros casos, desta vez, a polícia carioca foi realmente eficiente: descobriu a trama antes que ela fosse posta em ação, avisou o piloto e permitiu que as polícias Civil e Militar de São Paulo montassem um aparato ruidoso em torno de Senna. Se já era difícil arrancar uma entrevista ou obter um simples autógrafo do bicampeão antes disso, ficou realmente impossível. A tal ponto que o presidente da TAS – Torcida Ayrton Senna – , Adilson Carvalho de Almeida, continua torcendo para seu Milton dê o sinal verde e marque o jantar de confraternização entre o pessoal da TAS e o campeão, quando será entregue em mãos o troféu especialmente confeccionado em honra ao bicampeonato.

Mas não é fácil fazer com que Ayrton segure algo mais do que o volante de seus carros. As cartas de fãs, por exemplo. São cuidadosamente arquivadas em seu escritório…longe de suas mãos – e olhos. Quando muito, cuida-se para que o(a) tiete receba uma foto autografada, um calendário, um poster, retribuição nem sempre capaz de aplacar as declarações de amor, entusiasmados elogios, pedidos os mais diversos e votos de boa sorte que chegam diariamente, às dezenas, dos quatro cantos do país.

Fim de romance

Quando eu quis saber de seu pai o nome de um fã do piloto, seu Milton lembrou logo da eterna secretária da Federação Paulista de Automobilismo, Marília de Souza Lima. Ela trabalha na Federação desde 1973 e tem realmente muito carinho pelo piloto. Agora, contato mesmo, nenhum. Quando muito, um cartão de Boas-Festas aqui ou acolá.

O padrão Greta Garbo seria justificável se fosse permanente, completo. Mas ele não se confirma nas páginas da nossa imprensa ou no noticiário do rádio e da televisão, onde o campeão aparece sempre, esteja ou não nas pistas. Uma pesquisa feita pela Lux Jornais, que ganha a vida recortando notícias, garante: Senna é o esportista que tem o maior espaço na nossa mídia. Há um explicação, além de seu desempenho nas corridas: ele é o único piloto da Fórmula Um a ter seu próprio esquema de assessoria de imprensa. Outros campeões geram notícias, mas usam apenas o esquema de comunicação de seus patrocinadores. Senna não. Tem, além disso, quatro jornalistas que trabalham para ele em período integral, e, desde os tempos da Fórmula Três, repórteres e editores se acostumaram a receber os press-releases bem cuidados registrando todos os momentos (evidentemente, de um ponto de vista favorável) do piloto promissor, do estreante sortudo e, finalmente, do campeão do mundo. Naqueles tempos bicudos, Senna beirava a figura do chato de redação. Costumava aparecer nos principais jornais e revistas de São Paulo em busca de repórteres e comentaristas, que hoje esnoba completamente, pedindo uma forcinha aqui, um espaçozinho ali. E mais de uma vez estacionou de surpresa na casa de alguns jornalistas, no dia do seu aniversário. Um repórter que prefere devolver o desdém com que tem sido tratado, mantendo-se no anonimato, garante: o atual bicampeão esperou por ele durante quatro horas, no saguão de seu prédio, apenas para pedir um favor, no começo de sua carreira internacional.

O Senna de hoje imagina que pode construir e controlar sua imagem. Na entrevista para a revista Playboy, garimpada com muito esforço pela repórter Monica Bergamo e publicada em agosto do ano passado, ele credita o fim de seu namoro com Xuxa (transformado num show de notícias) à faz-tudo da rainha dos baixinhos, Marlene Mattos, que teria dado demasiada divulgação ao affaire. E explica: “Ela (a Xuxa) não controla a própria imagem, como eu controlo a minha. E existiu, no início, a tendência de usar nosso namoro para fazer notícia. Fui contra. Cheguei a me indispor com certas pessoas…”

Pare ele, indispor-se com as pessoas é simples. Ao longo da carreira na Fórmula Um, trombou com Keke Rosberg, Nigell Mansel, Michelete Alboretto, Derek Warwwick, Andrea De Angelis, o cartola Jean Marie Balestre (que quase o põe a nocaute, obrigando Senna a engolir em público suas declarações críticas ao dirigente da Fisa), Nelson Piquet e, claro, Alain Prost. Raspou de leve com Jackie Stewart, ex-campeão e hoje comentarista, com Bernie Ecclestone. Quis acabar com a carreira do repórter Reginaldo Leme, da Globo, recusando-se a dar entrevistas para ele, sob a alegação de que Reinaldo era amigo de Piquet. E fundiu a cuca do comendador Enzo Ferrari, criador da mais importante escuderia de corrida, a ponto de ele registrar em suas memórias o seguinte: “Brasileiro, jovem, audaz exibicionista a qualquer hora. Veio me encontrar em Maranello. Depois de um colóquio de meia hora, me perguntei se poderia entender o que ele desejava, porque não consegui interpretá-lo”.

Controle de imagem

O jornalista Milton Coelho da Graça, que o acompanhou com a Fórmula Um durante duas temporadas, colecionou opiniões de jornalistas do mundo todo sobre ele. A melhorzinha diz que Senna é árido nas entrevistas. Carlo Marincovich, do La República de Roma, resumiu a ópera: “Como piloto, quase perfeito. Como pessoa, um desastre”.

Nas pistas, anda com o pé no fundo e é ousado, agressivo. Nas entrevistas, esquivo, um pé atrás, sempre achando que por trás de qualquer pergunta existe uma armadilha. Assim, é mais fácil enumerar seus inimigos do que amigos ou ex-namoradas, embora volta e meia seus casos amorosos transformem-se em manchete de jornal e páginas de revistas. Senna garante que teve outras namoradas, que conseguiu manter longe das curiosidade dos jornalistas, mas tamanha publicidade faz supor que até esses relacionamentos têm muito a ver com a tal construção da imagem.

A lista de supostos amigos não acrescenta muita coisa ao que se sabe. A ex-mulher não dá entrevistas, e o ex-assessor, Americo Jacoto Junior, com quem viveu na Europa, também escapa das declarações.

De qualquer modo, esse controle da imagem vai além dos press-releases ou da disposição de não falar sobre outro assunto que não o automobilismo. Basta dar uma olhada no material fotográfico do nosso herói. São fotos muito bem-feitas, sempre registrando flagrantes do campeão em ação, dentro ou fora das pistas. Numa, ele comanda um jet-sky. Noutra, pilota uma moto (de boné do patrocinador). Numa terceira, sorri, escarrapachado numa poltrona do papai, segurando a miniatura de um helicóptero, com a sola do tênis em primeiro plano, onde se lê, claramente, a marca do produto. Senna aparece ainda compenetrado diante de um aeromodelo ou examinando um mapa encostado na porta de seu helicóptero. Mas o detalhe curioso está à margem de todas essas fotos: uma mesma assinatura – Koike-Marguera/Kich Off Productions. Nada mais, nada menos que uma agência fotográfica que ele comprou e a quem entregou a exclusividade dos clics disparados sobre si mesmo. Fotos do campeão fora desse esquema, só com um pouco de sorte ou sem que o piloto pose para o trabalho.

Será que ele é?

A estratégia seria perfeita se não enfrentasse obstáculos como a deselegância de Nelson Piquet, que declarou em alto e bom som sua incerteza quanto à virilidade do campeão, incorporou uma fama difícil de eliminar, que o levou a tentar uma retratação de Piquet na Justiça e a declarar, na mesma entrevista da Playboy, que a razão das insinuações de seu companheiro de profissão é que ele, Senna, conheceu a atual mulher de Piquet. Conheceu como, perguntou a repórter. E Senna: “Eu a conheci como mulher. É curto e grosso. Eu a conheci como mulher”.

Essa é uma expressão comum na Bíblia, um dos poucos livros que Senna admite ter lido na vida. De uns anos pra cá, suas relações com a fé têm se tornado mais e mais intensas e inusitadas. Ele já admitiu, numa entrevista coletiva, diante de jornalistas especializados do mundo todo, que costuma ver Jesus Cristo levitando sobre seu carro ou surgindo na frente da máquina na hora de fazer uma curva. Senna considera que falar sobre essas experiências é parte de sua missão na terra. A religiosidade do piloto não o impede de encontrar uma boa explicação para o fato de um não-fumante e anti-tabagista ser patrocinado por uma fábrica de cigarros. Mas jamais se conseguirá dele uma declaração tão sincera quanto a de Piquet (ele, outra vez) – que levou à lona o irreverente repórter de TV Ernesto Varela, que perguntou atrás do que Piquet corria – , com apenas quatro palavras: “Da grana, meu amigo”.

Senna não fuma pra não prejudicar a saúde. E ele se preocupa muito com sua condição física. Há oito anos, entregou seu corpo às mãos do professor Nuno Cobra, pós-graduado em Educação Física pela USP, com especialização em fisiologia, e que cuida de uma legião de atletas. Nuno Cobra diz que Senna é seu melhor discípulo – o mais atento, o mais disciplinado e o mais bem-sucedido também. Corre no mínimo oito quilômetros por dia, todos os dias –. E dedica mais uma hora pelo menos a exercícios para o pescoço, braços e pernas. São movimentos especialmente idealizados para fortalecer a massa muscular sem aumentar seu volume – um detalhe decisivo para quem tem no minúsculo cockpit seu lar, digamos assim.

A aplicação valeu: Senna tem uma força incomum nos braços e pode ganhar qualquer competição com os mais taludos fisicultores – o que lhe vale alguma vantagem na hora de fazer as curvas. Por se canhoto, ganha uns pontinhos mais, já que segura o volante com a esquerda na hora de mudar de marcha – e isso permite que ele troque de marcha no meio das curvas. Dos seus 67 quilos e meio espalhados por um metro e 72 centímetros, só 7,134 quilos são de gorduras, o que vale dizer que a massa muscular de Senna representa 45,3% de seu peso, quando um atleta normal não passa dos 40%. Seu desempenho em corridas de 10 ou 11 quilômetros é tão bom que, se um dia ele quisesse, poderia deixar a Fórmula Um e entrar para o atletismo profissional sem grandes problemas. Ah, e seu coração também bate mais devagar. Ou seja, precisa fazer menos esforço para bombear o sangue para o organismo todo na hora crítica das corridas. Em repouso, registra 60 batidas por minuto, contra 80 dos mortais comuns. Na pista, onde os outros pilotos funcionam com um ritmo quase insuportável de 160 a 180 batidas por minuto, ele vai a 130. Mas o professor Nuno Cobra não se limita a mexer no físico: dá sua contribuição em termos fisiológicos, mentais. E faz segredo sobre esse lado de sua relação com Senna, de quem confessa gostar muito.

Quarto de solteiro

Quem cuida assim do corpo foge da bebida com o diabo da cruz. Senna gosta mesmo é de guaraná Antarctica. Diz o pai que é um bom garfo e que seu prato preferido é o feijão com arroz e bife da mãe. Não é a única fidelidade aos tempos em que vivia com os pais e era um garotinho. Seus passatempos também são de garoto: Kart (construiu um Kartódromo profissional e melhor que a maioria dos oficiais do país em sua fazenda no Interior de São Paulo, onde corre com alguns amigos, de brincadeirinha), aeromodelismo (ficou amigo do campeão mundial e tem aviõezinhos inacreditáveis), motos, jet-sky. Até a última temporada brasileira continuava ocupando quarto de solteiro na casa da família Silva, quando em São Paulo. Tem um apartamento em Mônaco, mas não tinha um em São Paulo. Mas andou comprando alguns imóveis nesse final de ano – entre eles, a mansão de Braguinha, ex-Bradesco, em Angra dos Reis, por quatro milhões de dólares.

O destino de Ayrton estava pronto na cabeça de seu pai, quando ele nasceu, no dia 21 de abril de 1960, na zona Norte de São Paulo. Segundo filho, três anos mais novo que Viviane, ele continuaria os negócios da família Silva, fazenda, metalúrgica, fábrica de acessórios para automóveis. Mas quando o garoto fez quatro anos seu Milton pôs em prática o estranho conceito que tinha do que deveria ser um brinquedinho de um menino dessa idade: construiu um Kart de verdade, com motor e tudo, e deu para o filho. E o que para muito garoto poderia ser um passatempo exótico, passageiro, transformou-se em religião. Aos oito anos, entrou numa pista pela primeira vez, correndo com garotos mais velhos. Liderou a prova até ser posto para fora por um moleque mais irritado com o desplante do pivete. Aos treze, começou a correr de verdade e em pouco tempo inventou um estilo radical, que lhe valeu muitas vitórias.

Era levado às corridas por um motorista da família. O pai pouco aparecia. Os outros garotos lembram dele como um moleque calado, meio pernóstico, tristonho e extremamente competitivo. Recuperou a moral de um espanhol preparador de motores, o Tchê, que passou a lhe dedicar um carinho extra na afinação dos motores. Vivia sujo de graxa, montando e desmontando o kart, mas não participava das brincadeiras, não dormia na casa dos outros, como era normal, nem se expunha demais. Era conhecido como o 42, número de seu cpacete fora de moda. Mario Covas Neto, o Zuzinha, filho do senador do PSDB e rival de Senna na época (foi campeão brasileiro de kart em 75, tendo Senna como vice), tem certeza: “Pra ele, era mais importante ganhar uma corrida, a que estava disputando naquele momento, do que vencer o campeonato. Nove e meio não servia, tinha quer ser dez”.

Isso na pista. Na escola, os dez eram bem mais raros. Deixou vagas lembranças no Rio Branco – garoto caladão, regular, fraco em Física, péssima letra como tantos canhotos, sentado no fundo da classe – , menos ainda no Ginásio Santana, onde fez o primário – o magrela que não parava de correr no recreio – e branco total no Externato Jardim São Paulo, dos tempos da pré-escola, onde não sobrou nem a foto obrigatória com os cotovelos sobre a mesa, boininha no cocuruto da cabeça, gravata com o nó meio de banda, caneta na mão direita e as bandeirinhas do Brasil e de São Paulo, com a placa anotando 1965.

Rei do autorama

Em 1979, estava se aproximando o momento de cumprir o veredicto paterno e trocar as pistas por um lugar na firma dos Silva quando Senna foi ver os treinos para a Fórmula Um, em Interlagos. Ali teve certeza: iria passar os melhores anos de sua vida num cockpit de um carro daqueles, a 200, 300 quilômetros por hora.

Pra quem só viu o tal cockpit de uma Fórmula Um pela televisão, isso pode ser um sonho. Quem já entrou naquela lata de sardinhas criada por algum torturador medieval transposto para os dias de hoje, o sonho é pesadelo. É tão espremido que alguém mais alto ou mais gordo acaba a corrida com câimbras terríveis. O carro ronca como um demônio, vibra como a Cidade do México sob os efeitos de um terremoto e recusa-se a obedecer aos comandos de quem acha que sabe dirigir um automóvel. Uma só corrida significa uma perda de dois, três quilos. Faz calor, toma-se chuva, arrisca-se o pescoço. Mas, enfim, era isso que ele queria. E, por isso, seu Milton veria derrapar para sempre seus planos para o filhote.

O primeiro convite internacional para correr na Fórmula 1600 foi brecado. O segundo, aceito, sob a condição de ser por um ano apenas. Nessa época, Senna casou-se com Liliane, uma namoradinha. E foi para a Inglaterra.

Fez bonito nas pistas, acabou o casamento, voltou para o Brasil. Entrou para Administração de Empresas na Faap, assumiu uma escrivaninha no escritório do pai. E sabe-se lá a que preço, dobrou a vontade aparentemente indobrável de seu Milton. Armando Botelho, amigo da família, foi nomeado uma espécie de curador do menino e passou a tomar conta da carreira. Senna voltou para a Europa, para correr na Fórmula 2000. Deu certo: 27 corridas, 21 vitórias. No ano seguinte, a Fórumula 3: 21 corridas, 13 vitórias. Depois, a Fórmula Um. O resto da história está nos jornais. Em Mônaco, com um carro de quinta categoria, largou em 13º, passou Niki Lauda como quem ultrapassa um Fusquinha na ladeira e só ficou atrás de Alain Prost porque o francês pediu e obteve a suspensão da prova, que acontecia debaixo de um toró. Terminou o campeonato em décimo, foi quarto no ano seguinte, repetiu a dose em 86, terceiro em 87 e campeão do mundo em 88.

Armando Botelho, o super-protetor, morreu em julho de 89. Senna correu o GP da Alemanha sem saber de sua morte. Só foi confortado pela irmã, Viviane, sua amiga e confidente (e que também é mantida à distância da curiosidade dos repórteres). Saiu da experiência ainda mais arisco, e seu Milton assumiu o comando dos negócios no Brasil.

Sobre os jornalistas, tem também uma definição: “Acho que o jornalista deve relatar os fatos como são na realidade, com ética. A grande dificuldade do jornalista é seguir uma linha real daquilo que acontece e deixar a fantasia de lado”. Falou e disse. Ainda mais quando a realidade fica fechada a sete chaves e a fantasia lhe é oferecida de bandeja, pronta pra ser consumida.

Conta Corrente

Ayrton Senna tem um enorme telhado de vidro – um dos maiores do Brasil. Não, não é o que você está pensando. O telhado fica na casa que ele comprou no final do ano, em Angra dos Reis. Mais uma pérola, a maior de todas, no patrimônio desse veloz bilionário. É difícil saber o tamanho exato da fortuna de Ayrton Senna. O piloto, que já não gosta de falar sobre sua vida pessoal, é ainda mais lacônico em relação a seu dinheiro. De qualquer modo, os últimos movimentos de Senna no mercado imobiliário deixam claro onde e como ele prefere aplicar os dólares que recebe todo ano por suas conquistas na Fórmula Um. No final do ano passado, comprou, por quatro milhões e meio de dólares – oficialmente, segundo as melhores fontes – , a mansão de Braguinha em Angra dos Reis, onde tinha passado parte de suas férias como convidado, nos últimos anos. E ainda sobrou caixa para adquirir um punhado de apartamentos em São Paulo. Há quem assegure, contudo, que a mansão de Angra não saiu por menos de 40 milhões – acrescentando uma pitada de mistério e polêmico na já carregada fórmula do campeão.

Sua fazenda, em Tatuí, tem kartódromo profissional, lago para jet-sky e outras comodidades. Seu apartamento, em Mônaco, é relativamente grande. Senna não diz nem quantos carros possui – quase todos, presentes das fábricas, ou prêmios de competições. Diz apenas que “a gente tem de Honda a Mercedez, Ford, Volks, General Motors, um de cada um, entre o Exterior e o Brasil”. O avião é um British Aerospace HS – 125 – 800, e ele ainda tem um helicóptero.

Senna preserva seu espaço no mundo dos negócios. Seu avião faz manutenção de graça no hangar da Líder, em troca de uma gentileza – e ali que ele dá as raras entrevistas no aeroporto. Peitou a Gurgel, que pretendia batizar de Cena – Carro Econômico Nacional – seu primeiro automóvel, ameaçando ir à Justiça para cobrar alguns milhões de dólares pelo som do nome.

Por trás do chamado circo da Fórmula Um, há o interesse de grandes corporações. A McLaren e Senna são patrocinados pela Phillip Morris. Só o mercado brasileiro de cigarros é algo em torno dos 160 bilhões de cigarros.

Mas que ninguém imagine que o dinheiro corre solto para todo mundo na Fórmula Um. Como explica o nosso campeão: “Dos 30 pilotos, cinco ou seis ganham bem, entre 3 e 8 milhões de dólares por ano. Outros quatro ganham 1 milhão de dólares. Daí para baixo, muitos pagam para correr, através de seus patrocinadores. É um negócio maluco. No meu primeiro ano de Fórmula Um eu queria um carro, queria guiar, correr, não queria nem saber se iria ganhar dinheiro. Isso a gente conversava depois”. Como se vê, a conversa agora é outra.

Sobre o autor

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Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Leia mais...

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