Os homens e suas questões profundas e prosaicas

 Em 1980, quando ainda trabalhava para “O Globo”, Paulo Markun fez uma breve resenha sobre o livro “As Vidas de Dubin”, o sétimo romance publicado de Bernard Malamud, um dos mais conhecidos autores judeus dos Estados Unidos do século XX.  Com uma forma leve e concisa, o jornalista conta o enredo do livro, que em determinados momentos chega a se configurar como uma biografia, como outras tantas feitas por seu personagem, por suas reflexões profundas sobre as efemeridades da vida dos homens. Confira!

William Dubin é um biógrafo que mora numa pequena cidade próxima de Nova York e se aproxima perigosamente dos 60 anos de idade, vivendo um casamento sem paixão e lutando contra a barriga que insiste em crescer com o mesmo empenho com que enfrenta o desafio de escrever sobre a vida de D. H. Lawrence. Dubin é um homem como tantos outros, mas é também uma criação genial de Bernard Malamud.

Como seu criador, ele vive através dos personagens que analisa em suas biografias. “Dubin, – diz Malamud na página 130 – você não pode ressuscitar vidas, mas pode recriá-las. Nas biografias, os mortos tornam-se vivos, ou parecem tornar-se. Ele se sentia impelido, atormentado, estimulado; o coração batia como um relógio, a cabeça doía parecendo estourar, como se estivesse aprisionado e a ponto de saltar pelo gargalo de uma garrafa. Sentiu por um instante luminoso como se estivesse se libertado para sempre”.

Dubin vive a vida de seus biografados. E Malamud parece viver a de Dubin, tal a profundidade com que reflete sobre questões prosaicas e profundas da vida dos homens.

Mas “As vidas de Dubin” é um romance anti-romântico. Numa passagem em Veneza, num encontro inesperado com a paixão e a juventude, no escritório de Dubin, Malamud destrói, com uma frieza próxima da dos cientistas, a expectativa romântica dos leitores. E constrói, com o mesmo rigor, um apurado perfil psicológico dos personagens – sejam eles extensamente dissecados, como o próprio Dubin, sua mulher Kitty ou Fanni Bick, ou esboçados em pinceladas incisivas e curtas, como Oscar Creenfeld, o flautista capaz do ciúme e da amizade, na mesma escala.

O livro é algo mais que um romance bem construído por esse escritor judeu norte-americano, ganhador do prêmio Pullitzer de Literatura e autor de sete livros de sucesso. Ele é uma análise ácida, cruel mesmo, e por isso profundamente humana, da mediocridade que assola a vida de uma considerável parcela da humanidade para quem a questão da sobrevivência já foi solucionada, mas que é incapaz de realizar uma obra, de dar um sentido qualquer a existência.

Em busca desse sentido, Dubin estuda homens que viveram pouco e fizeram muito, como Thoreau, Lawrence, Twain. E nesse mesmo esforço, rememora a vida medíocre e apagada de seu pai, o garçom, ou as agruras de sua mãe, atormentada pela morte trágica de seu irmão.

De cada um dos biografados, ele parece retirar alguns ensinamentos que a realidade não-romântica, perfeitamente construída por Malamud, derruba um a um.

E a patética cena final do romance – Dubin se imaginando um vencedor, mas sendo derrotado pelo tanto de prosaico que administra as paixões humanas – resume o agridoce humanismo de seu autor, tanto quanto esse curto diálogo, que inicia o capítulo três:

P – O que torna um palhaço triste?

R – Outros palhaços.

Sobre o autor

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Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Leia mais...

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