Crack, como enfrentar essa droga?

Em dezembro de 2010, na Uninove, coordenei uma entrevista e depois um debate sobre o crack. Meu convidado era Phelippe Bourgois, antropólogo norte-americano e professor do Departamento de Medicina Comunitária da Universidade da Pensilvânia, que havia vivido entre usuários de crack em seu país e em outros países e tinha uma visão diferenciada do problema. Aqui, a entrevista e mais abaixo, o debate.
Embora algo defasados, os textos ainda tem relevância…

PAULO MARKUN
Eu queria saber, Phelippe, como você se aproximou dessa questão do crack, aonde você estudou isso.

É um enorme prazer estar aqui. Obrigado pelo convite.
Tenho trabalhando com o assunto drogas desde o início da epidemia de crack nos EUA, no começo dos anos 80, especialmente a partir de 1985. Eu comecei a investigar o problema das drogas naquilo que chamamos de “gueto” nos Estados Unidos, o equivalente ao que seriam as favelas aqui no Brasil. Nos EUA, temos um fenômeno extraordinário de segregação, onde milhões de pessoas nas maiores cidade do país vivem em espaços segregados por etnia, raça e classe. Eu me mudei para um desses guetos em 1985, antes mesmo de existir a palavra “Crack”. Naquela época, o preço da cocaína havia caído subitamente com a entrada dos carteis colombianos e as práticas de combate às drogas dos Estados Unidos. Eles passaram a comercializar uma substância mais valiosa, que deixava as pessoas mais viciadas e tinha maior valor financeiro. Por isso o preço da cocaína caiu pela metade e invadiu toda Nova York no começo dos anos 80. Para piorar, alguém descobriu que adicionar bicarbonato de sódio à cocaína a tornaria ainda mais barata – e mais: agora a cocaína poderia ser também fumada, não apenas inalada ou injetada. Quando me mudei, em março de 1985, observei como as pessoas viviam em vizinhanças pobres na cidade mais rica do mundo. Foi aí que vi meus vizinhos começarem a fumar essa nova substância que sequer possuía um nome ainda. Ao final daquele ano, a palavra “Crack” já estava em toda parte. Meus vizinhos começavam a ser expulsos de suas casas por não conseguir pagar aluguel. E já havia uma boca-de-fumo operando próxima à minha casa. Foi quando decidi investigar aquilo de perto, fazer alguns amigos ligados ao negócio. Era literalmente o começo daquilo que chamamos epidemia de crack nos Estados Unidos.
Fiz amizade com alguns vendedores de droga que andavam pelo bairro. No começo, eles pensaram que eu era um policial porque havia mudado há pouco para lá, eu era casado e minha esposa estava prestes a dar à luz. Aos poucos, enquanto consertava meu carro ou fazia coisas que me faziam parecer uma pessoa normal, eles acabaram se aproximando e fazendo amizade. Durante os cinco anos seguintes, basicamente fiz amizade com os vendedores e acabei conhecendo suas famílias, suas vidas e tentei entender o que os motivava a entrar nesse negócio. Muitos deles eram usuários ou ex-usuários, mas sobretudo, eram jovens que haviam largado a escola e não conseguiram encontrar um lugar na economia formal nova-iorquina. Foi nessa mesma época que as fábricas deixaram a cidade, mudando suas sedes para a América Latina ou Ásia, onde os custos de produção eram menores. Toda a população local, e majoritariamente a porto-riquenha, trabalhava nessas fábricas no começo dos anos 80. Na paralela, havia toda aquela economia-da-droga crescendo exponencialmente, gerando a única oportunidade de emprego fácil para aqueles que cresciam naquela comunidade pobre. Aos poucos, a droga foi destruindo um a um porque a maioria dos que vendia acabou provando do seu próprio produto. O que é interessante é que alguns conseguiram parar o vício por causa da responsabilidade de vender a droga, o que era interessante de ver, porque geralmente o dono da boca-de-fumo não queria vendedores indisciplinados, que roubassem a mercadoria ou que fossem grosseiros com a clientela. Eles até demitiam empregados caso eles começassem a faltar ou consumir muita droga.
O personagem principal do meu livro, chamado “In Search of Respect”, é o principal fornecedor da vizinhança, um cara de quem fiquei amigo e que começou com usuário de crack, depois passou a limitar seu consumo e depois de um certo tempo até conseguiu parar. Era o começo da epidemia de crack. Na Cracolândia, eu percebi que o Brasil ainda está passando por uma epidemia de crack. Nos Estados Unidos, muitas pessoas ainda fumam crack, mas o pior momento, em que toda uma geração foi arrebatada, aconteceu entre 1985 e 1991. Nas comunidades afrodescendentes, porto-riquenhas e latinas, as pessoas perceberam o quão devastados ficaram seus pais, tios e primos. E daí surgiu o senso comum, entre as novas gerações, de não usar o crack. Hoje, até a palavra “crackhead” se tornou um insulto na vizinhança.

PAULO MARKUN
Bom, a pergunta que eu vou fazer é a seguinte: você acha que esse fato, de nos EUA a epidemia de crack ter reduzido por si só, pela reação de aversao da juventude a isso, significa que nao há solução para o problema no campo da medicina ou da ação policial ou da ação do governo?

Existem inúmeras soluções. A primeira medida é descobrir, dentro das nossas polícias, como capturar o senso comum que existe nas pessoas. As pessoas não querem se destruir, não querem se tornar cadavéricas, não querem viver a fissura do vício, não querem viver com violência nos seus bairros. Portanto, a questão seria como conduzir e acelerar o despertar desse senso. Há diferentes políticas em vários países onde tentaram utilizar abordagens diferentes. Os EUA estão provando ser um grande fracasso naquilo que chamamos de “guerra às drogas” e o modelo de “tolerância zero”. Os EUA criaram uma estratégia massiva de aplicação das leis e começou a jogar todo mundo na prisão, com base na tal “tolerância zero”, sem se diferenciar o sujeito que portava, o que usava e o que vendia. E o que se obteve com isso foi o espantoso crescimento dos investimentos na repressão às drogas, especialmente quando Ronald Reagan foi eleito presidente, por volta de 1980, o que levou a uma explosão da população encarcerada. Hoje, os EUA são os países com a mais alta proporção da sua população na cadeia. Nós temos mais pessoas nas prisões, em números absolutos, do que qualquer outro país do mundo. É difícil de acreditar que países altamente repressivos, como a China, tem menos gente na prisão do que nós. É uma trágica ironia, se você pensar que o nosso hino nacional fala sobre a América ser uma terra de liberdade etc. Descobrimos que essa política acabou criando o crime organizado, gangues do crack, e algumas são até conhecidas internacionalmente, como o Blood and Crips, The Sureños etc. Todas essas gangues se organizaram dentro das prisões. Outro problema é o custo. Em uma cidade cara como Nova York, o custo para manter um cidadão preso varia entre 80 e 100 mil dólares por ano. Lá você também percebe a impressionante segregação racial que existe nos EUA: a maioria da população encarcerada é negra, latina e uma pequena minoria é branca. O que se cria com isso é uma maneira segregada de conduzir a população jovem para o mundo do crime. As prisões se tornaram um terrível campo de treinamento. Ciente de que essa política é cara e ineficiente, começamos a desenvolver programas que mudasse uma lei “tolerância zero” par a uma lei subordinada às questões de saúde pública e serviços sociais. Hoje, por exemplo, fazemos um trabalho de educação no presídio de Filadélfia junto aos recém-chegados para transforma-los em ativistas anti-prisão. Nós os colocamos para trabalhar como nossos parceiros e eles passam a atuar em suas comunidades, assim que são libertados, e têm a missão de fazer parar esse ciclo. O problema é que o investimento público vai todo para as políticas de repressão.

PAULO MARKUN
O seu livro numa tradução livre quer dizer “em busca de respeito” ou algo assim, Search of Respect, o respeito resolve nesse caso? É isso que os usuários estão buscando ou a droga tem, digamos, um componente químico que envolve o comportamento do cérebro etc. que é difícil de competir com ele.

O livro trata daqueles que estão tocando o negócio, que estão trazendo o crack para a vizinhança, da busca por respeito. Qual o sonho americano, afinal? É sair da pobreza para a riqueza no país mais rico do mundo e usar os recursos materiais para se auto-afirmar. Eles encontraram uma indústria que permitia abraçar esse sonho, ou pelo menos tentar. Muitos, é claro, terminam virando estatística. Também descobri que muitos não ganham tanto dinheiro assim. Quando você soma todo o tempo em que eles passam correndo da polícia e mesmo o tempo que passam na cadeia, eles acumulam menos do que ganhariam num emprego formal. Inclusive, alguns dos negociantes que conheci e me tornei amigo, hoje moram em abrigos para sem-teto e têm uma vida completamente arruinada. Outros tinham bastante talento com pinturas em spray, grafite, tentei estimula-los a se dedicar à arte, buscar uma galeria, mas infelizmente não deu muito certo. Um deles acabou ficando nessa vida de usar e vender drogas e nunca conseguiu sair. Todos nós buscamos soluções, respostas para o que pode ser feito e assim por diante, mas penso que o desafio é pensar além da repressão pura e simples, o que pode ser feito para potencializar o uso da cultura popular, levar as pessoas a se engajarem de forma produtiva socialmente. Algo inacreditável que vi na Cracolândia foi a espontaneidade dos usuários de crack, muitos deles em estado deplorável, cadavéricos, fissurados e mesmo assim comemoravam o aniversário de alguém com música por umas duas ou três horas. Alguns até me convidaram pra dançar, mas fiquei envergonhado porque sei que os gringos dançam terrivelmente. Mas o que eu vi foi uma extraordinária sociabilidade no cenário brasileiro, algo que não vi nos EUA ou em países vizinhos como Colômbia.
Quando alguém começa a fumar crack compulsivamente e tem tendência à paranoia ou ao isolamento social, a droga potencializa esses sentimentos. Nas bocas-de-fumo americanas eu vi gente fumando e ouvindo algo do tipo “a polícia está vindo”, ou olhando pro vazio, ficando nervosa etc.

PAULO MARKUN
A pergunta é de Alex Alves do Santos do curso de engenharia civil do primeiro semestre aqui da Vergueiro. Ele pergunta qual é o poder destrutivo do crack do ponto de vista físico e mental. Se ele é realmente algo insolúvel.

Basicamente, o crack possui o mesmo princípio ativo da cocaína. A diferença é que a cocaína tem bicarbonato de sódio na mistura e o crack, um hidroclorídrico em forma-base que pode ser queimado de forma a liberar os químicos psicoativos. Esses químicos são liberados mais rápido que na forma de pó. As pessoas têm essa sensação de prazer imediata por 30 a 40 segundos, às vezes um minuto e meio. Isso faz com que elas fumem mais e mais e comecem a ter paranoia e ficar desesperadas por mais. É um tipo de cocaína, muito mais difícil de controlar. A parte boa, e há sempre uma parte boa, é que o crack não é fisicamente viciante como o opium ou a heroína, por exemplo. O usuário pode parar de fumar de um dia pro outro que o corpo não vai passar por contorções, as células não irão pedir por crack. Mas há um problema psicológico sério: com os efeitos do crack, o cérebro começa a produzir muita dopamina, que produz o efeito de prazer por 60 segundos. Depois disso, o cérebro sobrecarrega e bloqueia a habilidade de produzir dopamina, os agentes químicos do prazer. Quando o usuário para de estimular artificialmente o cérebro, ele cai numa depressão profunda. Um dos tratamentos é oferecer anti-depressivos aos pacientes até que o cérebro se readapte.
Os brasileiros têm sorte de não ter um grande número de viciados em heroína no país. Quando os usuários resolvem largar o vício, geralmente passam por uma dor terrível, todas as células do seu corpo ficam desorientadas, não se comportam direito, o corpo sua, perde controle do estômago e etc.

PAULO MARKUN

Ontem nós conversamos à noite, você mencionou o fato de que uma porção de coisas ou iniciativas ajudam nesse… exemplo: adoção de algum tipo de religião como dos evangélicos, você citou algum amigo seu que usou acupuntura no ouvido, o que explica isso?

Com o crack, diferentemente da heroína, não existe uma fórmula mágica que funcione. Não há uma droga substituta e por não ser fisicamente viciante, é preciso encontrar algo produtivo para fazer. Vou te dar um exemplo que provavelmente vocês não considerariam como tratamento: as igrejas evangélicas. Nos EUA, ironicamente, não são apenas as evangélicas, mas também as muçulmanas – dois grupos que não são muito chegados entre si mas que possuem grandes programas de recuperação de viciados. Como são tratamentos baseados na fé e as pessoas estão vulneráveis ou ansiosas por substituir o vício por algo diferente, um êxtase baseado na fé. É algo difícil para a biomedicina compreender, especialmente por sermos treinados de forma tão racional que perdemos contato com o pensamento espiritual, mas é fato que a fé traz benefícios.
Sobre aquele vendedor/consumidor que mencionei antes, um dos personagens principais do meu livro, era um sujeito viciadíssimo em crack, tão viciado que o dono da boca-de-fumo, seu primo, o proibiu de vender drogas porque toda vez que ele vendia, roubava um pouco para si. Em certa ocasião ele foi preso e o juiz o encaminhou para um tratamento obrigatório. Havia um grupo que fazia acupuntura na orelha para controlar o vício e esse sujeito, um rapaz durão das ruas, de repente estava acreditando nos efeitos daquilo. E até hoje está limpo. Às vezes a motivação está onde a gente menos espera. Percebi que, pela primeira vez, ele se via compromissado com uma instituição legalizada, que era bem tratado por médicos e enfermeiros e discutiam o assunto com frequência.
O problema é que de repente os juízes estão buscando alternativas à prisão é não há tratamentos o suficiente para atender à demanda.

PAULO MARKUN
Duas perguntas: Letícia, que manda a pergunta pela internet, nos acompanha pelo site do JD e pelo site tambem da TV Uninove, pergunta “por que a classe alta acaba utilizando com frenquência o crack?”, e aí eu emendo com a segunda pergunta, que é do Edilson Alves Ribeiro, de engenharia civil do campus da Vergueiro, primeiro semestre: “a liberação do uso da maconha não seria um incentivo a mais para o uso do crack?”

O que motiva as pessoas aparentemente sem problemas óbvios a usar uma droga tão destrutiva como o crack é que usar drogas é divertido. Eles vão atrás desse prazer imediato e só depois perdem o controle da coisa toda. Qualquer um pode ser vítima da droga e é somente com a proposição de alternativas que conseguiremos sair, dizer “não, eu vou me controlar, encontrar um emprego, construir uma família” e assim por diante. Se há uma comunidade que apoie, maneiras objetivas de se conseguir um emprego, educar-se, há uma chance maior de se livrar do vício. A questão-chave é: o que se pode fazer mantendo o respeito às leis e qual efeito as leis têm sobre o uso de drogas? E quanto mais a gente trabalha nessa questão, mais fica claro que o consumo não diminui por causa das leis. Há mais drogas nos bairros pobres hoje exatamente por ser proibido, porque a ilegalidade a torna lucrativa, especialmente para países produtores como Peru, Bolívia e Colômbia. A epidemia de crack ocorre justamente por causa do apetite dos Estados Unidos e da Europa por drogas. Há uma via global de tráfico, e se entre um país e outro cair um pouquinho de droga aqui e ali, pronto, está criada uma nova epidemia. Se no segundo seguinte tudo fosse descriminalizado, seria impossível obter grandes lucros com a venda de drogas, porque provavelmente as pessoas não se sujeitariam a ficar numa esquina para ganhar 5 centavos, 2 centavos… A questão é como deve ser regulamentado, como manter longe das crianças, das grávidas e por aí vai. Teria que ser controlado de alguma forma, mas se não tivéssemos os grandes cartéis ou as gangues que lucram alto com esse comércio, as drogas talvez não fossem tão fáceis de ser encontradas em qualquer esquina. É preciso achar uma maneira de inserir o assunto num modelo de saúde pública. Em Amsterdã a maconha foi descriminalizada e nem por isso aumentou o consumo do crack. O que eles descobriram é que, quando as pessoas podem escolher entre múltiplas substâncias psicoativas, desde que legalizadas, elas tendem a adotar as mais normais. A gente viveu isso nos Estados Unidos com a Lei Seca, de 1920 a 1933, quando o consumo de álcool foi considerado ilegal. Durante esse período, o número de mortes por alcoolismo dispararam. Criou-se um mercado em que se oferecia a forma mais barata de bebida. E as pessoas foram atrás disso. No momento em que voltaram a legalizar a bebida, a maioria voltou a consumir vinho e cerveja. Por isso, acredito que está muito claro que a legalização da maconha não leva as pessoas ao crack, porque existe a opção de escolher uma droga não tão arriscada e mais barata. Existem drogas piores. Vocês têm sorte de não ter uma epidemia de metanfetamina, por exemplo, como nós temos agora nos Estados Unidos. É uma droga muito mais destrutiva que a cocaína.

PAULO MARKUN
Duas perguntas: a primeira, inevitável, é se voce experimentou crack. A segunda: em que medida voce aprendeu alguma coisa pra sua vida pessoal nesse tempo de convivência com esses usuários e traficantes?

Eu uso a mesma resposta do meu ex-presidente, Bill Clinton, que quase não conseguiu se reeleger presidente quando disse que “não tragou”. Mas o fato é que eu me considero sortudo por meu vício ser o trabalho. E como eu adoro escrever, eu não usaria algo que interferisse na minha capacidade de produzir e de me relacionar intelectualmente com o meu tema. Portanto, não, eu não usei crack.
Já a segunda questão, me faz lembrar de que talvez eu precise de algum tipo de psicoterapia – mas nunca tive tempo ou dinheiro pra isso. Ainda estou processando tudo isso, mas me dá a sensação de estar lutando contra as injustiças primárias do meu país, da minha cultura.

PAULO MARKUN
Você é um antropologo e não há, pelo pouco que eu conheço de antropologia, muitos antropólogos dedicados a questões urbanas, tão próximas da vida das pessoas. E ao mesmo tempo você trabalha na margem da sociedade. É uma opção profisisonal, há outros colegas fazendo isso? A antropologia mergulha o suficiente na vida das grandes cidades?

Tradicionalmente, a antropologia surgiu da busca por grupos indígenas. Não estava na margem da sociedade, mas fora dela. Tentava-se descobrir universos humanos não afetados pelo comércio, pelos sistemas internacionais, culturas intactas, fora do mundo moderno. Alguma parte da antropologia ainda continua assim, e é um trabalho importante, especialmente em países como o Brasil, que vê suas populações indígenas serem destruídas, seus territórios invadidos e sua cultura, dissolvida. Tradicionalmente é o sociólogo que faz o trabalho na esfera urbana, mas agora boa parte da população já vive em cidades. Portanto, se a antropologia é o estudo dos universos humanos, nós precisamos desenvolver nossos estudos nas cidades. Meu trabalho original era com uma tribo de índios da Nicarágua, uma experiência incrível, com um povo que cresceu a partir do relacionamento com o colonizador inglês. Quando voltei para os Estados Unidos para escrever minha dissertação, percebi que em vez de pesquisar o outro-exótico ou viajar para lugares distantes, eu precisava estudar minha própria cidade. Por isso me mudei para um bairro pobre e lá depositei 25 anos de estudos. Eu não quero romantizar ou tornar exótico o sofrimento de pessoas que sobrevivem nos bairros pobres dos Estados Unidos, o que eu quero estudar são as relações de poder que estruturam o sofrimento social para buscar soluções para, por exemplo, os índices de encarceramento e como isso poderia estar subordinado a estratégias orientadas à saúde pública, à busca de empregos e assim por diante.

PAULO MARKUN
Pergunta de Gisele Candida da Silva, de Radiologia, Segundo semestre: Lá nos EUA eles também usam crianças para vender drogas, como aqui no Brasil? A segunda pergunta, de Ligia de Cassia Trombini, de serviço social: qual é a nova droga destrutiva nos EUA, se é que surgiu alguma?

Traficantes são gananciosos e logo perceberam que poderiam pagar menos às crianças do que aos adultos. Ademais, crianças têm direitos diferentes diante da lei. Portanto, eles usam crianças sim. Na vizinhança que estou estudando, North Philadelphia, também uma comunidade porto-riquenha, eles começam a usar as crianças como “olheiras” por volta dos 12, 13 e 14. Aos 15, algumas delas já estão vendendo. Diferente daqui do Brasil, as crianças de lá tendem a não usar a droga. Aqui você vê crianças desmaiadas e dormindo nas calçadas. As crianças crescem nesse ecossistema de drogas, e isso se torna o mundo normal delas, e fatalmente elas caem no vício quando ficam um pouco mais velhas. Nos EUA, normalmente, as crianças são atraídas para as bocas-de-fumo porque lá se concentra a energia da vizinhança, é onde estão os adultos, é um local limpo, com ar condicionado, e vão se familiarizando com aquele universo. Tento fazer algo positivo em relação a isso, como levar essas crianças aos museus da cidade etc. É um trabalho desafiador. Os EUA são tão segregados por etnia e cor de pele que, quando eu levo as crianças latinas a esses passeios, as pessoas pensam que sou um pervertido, um pedófilo. Já as levei a uma biblioteca para se cadastrarem e poderem ler livros, mas as bibliotecária chegou a ameaçar ligar para os pais das crianças e denunciar que um tarado havia levado seus filhos à biblioteca. Como tragicamente muitos pais dessas crianças estão viciadas em crack, não há mais ninguém para leva-as à biblioteca.

PAULO MARKUN
Você hoje percorreu por algumas horas a Cracolândia em São Paulo e antes de partir você mencionava que há um bairro na Colômbia, em Bogotá, creio que Três Esquinas… a maneira de apropriação do espaço físico nas cidades é diferente? Aqui em São Paulo o que existe é uma espécie de exército que perambula por uma área da cidade mas sempre numa área definida. Em outras áreas eles não entram ou porque há segurança particular ou porque não há espaço em que aquilo seja tolerado.

Para ser bem sincero, minha cabeça ainda está martelando com o que vi esta tarde. Não exatamente pelo crack em si, mas pela intensidade do cenário brasileiro. Acho que ainda preciso de tempo para processar tudo isso, há algumas coisas que são exatamente o que você descreveu, o fenômeno da marginalização, desespero, o confinamento em certos espaços e a obrigação de se mover dentro dele. Há algo de universal nas cidades com problemas massivos de drogas. Nós vimos hoje o carro de polícia chegando com a sirene ligada e centenas de pessoas juntas, fumando e negociando droga, conversando, havia até um grupo tocando música. Eles basicamente andam pela quadra, são perseguidos de um lado, caminham pro outro e assim por diante. É comum ver cenas de decadência, especialmente no caso do rio, em que os pequenos negócios que se estabeleceram no centro da cidade há 20, 30 anos atrás, onde a gente costumava ir comprar sapatos, eletrodomésticos e roupas, terem que fechar suas portas por não conseguir competir com shopping centers e grandes corporações. Com isso, a vizinhança decai, prédios são abandonados e passam a ser habitados por miseráveis. Especificamente no caso do Brasil, eu acho que o nível de sociabilidade e interação entre as pessoas, mesmo enquanto estão fumando, faz com que a uma parte dos usuários não caia na paranoia – diferente do que acontece no meu país.

PAULO MARKUN
Pergunta: Carlos Francisco: No Brasil existe resistência ao tratamento psiquiátrico dos usuários. Por que isso acontece, na sua opinião?

Há muita resistência em relação aos tratamentos psiquiátricos por causa do histórico de abusos. O pensador que melhor escreveu sobre isso foi Franco Basaglia, um psiquiatra italiano que criticou a psiquiatria por maltratar os deficientes mentais. A gente entende a resistência das pessoas, mas os bons psiquiatras tem um papel importante de engajar positivamente seus pacientes, salvar suas vidas, tira-los da miséria. Eu não quero cuspir no prato que comi, mas é importante ser crítico em relação às formas manipulativas e opressivas de psiquiatria.

PAULO MARKUN
Pergunta de Laine Milan: se esses jovens pudessem se envolver com arte, eles poderiam largar as drogas?

Aqui no Brasil vocês têm um hip-hop muito engajado e politizado, diferente dos EUA, onde o estilo foi cooptado pela indústria ou pelo gangsta rap. É preciso achar alternativas enérgicas para a juventude. A estratégia da indústria da droga é justamente atrair jovens que querem ser espertos, que querem ir adiante, jovens cheios de energia que querem mudar de vida, e por isso acabam sucumbindo a essa indústria destrutiva porque é a única possível para eles. Se houvesse alternativas para direcionar essa energia, espaços para arte, hip-hop, música, empregos que de alguma forma conduzissem a uma vida mais estável e digna. No Brasil, o nível de desigualdade está caindo mas leva algum tempo para perceber os efeitos, mas podemos esperar que esses caminhos surjam a longo prazo.
Em relação às epidemias, o Brasil é diferente dos EUA nesse aspecto. Tanto que aqui não se passa de uma epidemia pra outra. Desde que tivemos a epidemia de heroína nos anos 70, passou-se uma geração inteira de viciados, até chegar à cocaína e crack nos anos 80 e um pequeno período de epidemia de maconha. A maconha pode ser perigosa quando fumada em excesso, mas é menos fisicamente destrutiva. Hoje a gente enfrenta essa droga terrível, a metanfetamina, que não é importada de um país qualquer, mas pode ser produzida em casa, com químicos caseiros. Basicamente, é produzida em cozinhas de todo o país e uma enorme população branca – os campesinos, os roceiros, pessoas sem emprego que vivem em áreas onde a população está declinando, territórios gelados do país que não têm nada a oferecer – estão sendo devastados pela metanfetamina.

PAULO MARKUN
Você tem um filho de 22 anos. Como você trata ou tratou das questões das drogas com ele? De que maneira voce abordou o tema?

Ele nasceu durante esse período e aprendeu a andar literalmente por entre os frascos descartados de crack. Lembro que uma vez uma aluna me fez uma visita quando eu ainda vivia por lá. Nessa época, meu filho estava aprendendo a andar, tinha uns 16 ou 17 meses de vida e vinha esboçando suas primeiras palavras. Uma delas, acredite, foi “Top”, ou seja, a cor da tampa que os traficantes usavam para diferenciar a origem do crack. O meu filho entendeu essa palavra e ficava pela casa falando “top”, “top”, “top”. Foi aí que a estudante se virou pra mim e falou “Você é um pai irresponsável, as primeiras palavras do seu filho são palavras que os traficantes usam pra vender crack”. Bom, eu acho que ele tem sorte de ter um pai que pôde leva-lo para fora da vizinhança, coloca-lo numa escola decente, ajuda-lo no dever de casa, pagar a faculdade que é absurdamente cara nos Estados Unidos. Ele cresceu e se tornou um belo rapaz e me disse que nunca usou drogas, graças a Deus. Ele é claramente alguém sem fraqueza para cair nas drogas e reflete a sorte que é ter alternativas na vida.

PAULO MARKUN
Vou ler tres quest˜ies que de alguma forma já foram tratadas, mas creio que elas remetem ao ponto central do debate e permitem a você eventualmente acrescentar alguma coisa. O Diego Costa, da Engenharia Civil: O crack, que é uma droga barata que pode ser misturada a outras, além de ser potente, no Brasil nao é encarado de frente. O que pode ser feito pelos nossos governantes, representantes e magistrados para fazer com que essa ameaça real seja combatida. Antonio Vilas, de Eng. Civil, quais sao as políticas corretas na reabilitaçao do usuário de crack. E finalmente, Reginaldo França, de Marketing, menciona um escritor chamado Celso Athaide, que escreveu um livro chamado “Cabeça de Porco”que relata o dia a dia dos usuários de crack: é mais barato, provoca um efeito devastador em todo o mundo e principalmente nos países pobres da America Latina. Como seria possível evitar essa praga que atinge todas as classes sociais, principalmente a classe C. Ou seja, a pergunta chave é “O que fazer?”

Essa é, definitamente, a questão-chave. O Brasil tem que pesquisar sobre o que está sendo feito pelo mundo e que de alguma forma pode ser adaptado à realidade do país. Já vimos que esse modelo de Tolerancia Zero adotado pelos Estados Unidos não funciona. Na verdade, esse modelo ajudou a criar o problema de drogas no Brasil porque fez com que o comércio global da droga fosse tão lucrativo. Custa praticamente zero produzir crack na Colômbia, Peru ou Bolívia. A gente não pode se livrar das leis, precisamos delas para nos proteger da violência. Mas a lei precisa estar subordinada a uma visão de como integrar socialmente as pessoas, como trata-las, como engaja-las em formas de tratamentos que podem ser obrigatórios caso o usuário se torne uma ameaça. No começo eu era contra a obrigatoriedade, achava que a pessoa iria resistir e não cumprir etc, mas depois mudei de ideia quando vi alguns traficantes conhecidos passando pelo tratamento e usufruindo dos benefícios, como o cara da acupuntura nas orelhas. Mas essa é apenas uma forma de tratamento. Precisamos de centenas de tratamentos diferentes, porque pessoas diferentes respondem de formas diferente. Alguns precisam de algo mais repressivo, outros de algo mais compreensivo, uns precisam de acupuntura, outros de yoga e por aí vai.

PAULO MARKUN
Isso que você menciona é dificilmente combinado com políticas públicas numa cidade com 10 milhoes de habitantes, com milhares de pessoas com esse problema. A política pública aposta num caminho apenas. Você acha realmente possível essa multiplicação de iniciativas, essa variedade de opçõ es?

Em um problema dessa magnitude, o Brasil tinha que formar um movimento social, mobilizar a juventude num sentimento de reconstrução social. Não precisa ser religioso, pode puxar para o viés da organização política e responsabilidade social. Vemos algumas ações que treinam o ex-usuário para se tornar um co-parceiro em ajudar seus colegas e dar-lhes um proposito na vida, encontrar a força interior para largar o vício. Isso acaba evoluindo e se tornando um emprego como líderes de programas. É necessário criar movimentos populares que combinam as diferentes formas culturais do Brasil. Voces desenvolveram uma forma de sociabilidade única no mundo. Eu posso até parecer um turista típico, mas eu vejo que estrangeiros adoram vir pro Brasil por causa dessa energia de interação que você não vê em outros países. Isso dá uma pista de como pode ser conduzido para algo que faça com que as pessoas se engajem positivamente com seus vizinhos, ajudando um ao outro a superar a questão das drogas.

PAULO MARKUN
Última pergunta: O que a antropologia pode oferecer para uma questão tao complicada como essa?

Além do movimento social, é preciso ter uma base material para tudo isso. Precisamos de empregos e alternativas. Tudo isso é desafiador. A antropologia oferece a possibilidade de se comunicar através das barreiras que criamos na sociedade, barreiras das classes sociais, etnia, raça, barreiras criadas por bloqueios institucionais. O dever do antropólogo é fazer amizade e penetrar nesses cenários sem ter que fazer um julgamento moral. Eu não estou aqui para dizer “você é uma pessoa má porque usa crack”. Estou para dizer “você é um ser humano, eu sei como você pensa, como sua lógica funciona, eu quero entender seus desejos, sonhos, problemas, as formas de organizar seus pressupostos morais sem ter que dizer ‘minha moral é melhor que a sua’”. Isso gera um relativismo cultural que permite levar as pessoas a sério e aprender com elas, analisar e expor para um público maior.

09 de dezembro de 2010 – campus Vergueiro

A nova droga do país:
A epidemia de Crack tem solução? – PARTE II

No dia seguinte à palestra de Philippe Bourgois, a série DebatesUninove reuniu as principais autoridades em uso abusivo de drogas em São Paulo para discutir políticas públicas de combate à epidemia de crack no país.

Debatedores:

Marco Antônio Paula Santos, diretor do Departamento de Investigações Sobre Narcóticos, o Denarc.
Dra. Luizemir Volnei Carvalho Lago, coordenadora de Saúde Mental da Secretaria Estadual de Saúde
Rosângela Elias, coordenadora de Saúde Mental da Prefeitura Municipal de São Paulo
Marcelo Ribeiro, médico, especialista em reabilitação de dependentes químicos e coordenador do curso de Especialização em Dependência Química da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo
Bruno Ramos Gomes, coordenador do Centro de Convivência É de Lei
José Florentino, Secretário Executivo do Conselho Municipal de Políticas Públicas de Drogas e Álcool
Philippe Borgois, visitante internacional, antropólogo e professor do Departamento de Medicina Comunitária da Universidade da Pensilvânia. Morou entre usuários de crack e outras drogas nos EUA e América Central.

Mediador:
Paulo Markun

PAULO MARKUN
Para começar, gostaria de colocar aos debatedores uma pergunta-chave: o crack tem solução? O problema tem saída?

LUIZEMIR LAGO
O crack tem controle, para ser bem objetiva. A solução é controlar o consumo. A gente precisa parar de pensar em erradicar as drogas porque isso é impossível em qualquer sociedade. O crack tem controle na medida em que existem formas adequadas de trabalhar o assunto.

MARCO ANTÔNIO
Em 1992 eu já era delegado do Departamento de Narcóticos e tive contato com as primeiras pedrinhas de crack na Zona Leste de São Paulo. Acompanhei em todos esses anos ações das mais variadas em vários segmentos, de um extremo a outro, para tratar do problema da Cracolândia e não achamos uma solução concreta. Eu estava cético. Foi quando recebemos no Denarc um promotor de justiça de Miami que nos apresentou o Tribunal Terapêutico. Ele esteve na Cracolândia e falou “Olha, é um absurdo vocês não terem solução para isso” e apresentou propostas de recuperação para os viciados, mostrou como lá nos Estados Unidos conseguiram controlar o problema. A partir de então, o crack passou a ser um problema social. Ainda fazemos prisões e apreensões em uma quantidade imensa, mas o encaramos como uma questão mais de assistência social e menos de polícia.

MARCELO RIBEIRO
O crack gera uma dependência grave, mas existe solução. É preciso que haja associação de linhas de atuação e de equipamentos. É um problema que depende da união de todos nós.

ROSANGELA ELIAS
O poder público tem que investir no sentido de criar recursos para o atendimento aos viciados. É fundamental a gente começar a trabalhar um pouco da cultura da população em relação à droga, ao preconceito. É preciso investir em ações de prevenção e promoção. As pessoas que vêm hoje para a Cracolândia, não são originalmente de lá, elas estão lá. Nós temos que pensar ações para que a cidade assuma essa questão como um todo, trabalhar com informação, com a mídia, se empenhar no sentido de manter essas crianças nos seus espaços sociais e escolares, investir na prevenção do uso de drogas. Crianças e adolescentes não têm que usar droga de forma nenhuma, nem crack nem álcool.

JOSÉ FLORENTINO
Falar que o crack não tem jeito é quase assinar a nossa incompetência em uma questão como essa. Quando a gente vê que o problema da Cracolândia persiste, percebemos que a estratégia utilizada até agora foi errada. A solução tem que partir de uma ação integrada entre Saúde, Universidade, Denarc… Tirar 500 das ruas e abrir espaço para a chegada de mais 500 não vai ajudar em nada.

BRUNO RAMOS
O crack não é um problema em si. A questão começa quando o consumo torna-se abusivo. A gente lida com o problema de pessoas em situação de rua e a falta de inserção social que os usuários acabam vivendo, mas é importante perceber que a droga está inserida em diversos contextos e muitas vezes essa inserção é problemática tanto para usuários quanto para as suas famílias e para a sociedade como um todo. Se tivermos diferentes áreas dialogando para solucionar problemas, conseguiremos resolver o problema do crack. A luta contra a droga em si é inócua. Temos que ajudar o usuário a lidar com os problemas que vive. O uso está ligado a situações muito problemáticas que devem receber nossa atenção.

PHILIPPE BORGOIS
Gostaria de trazer algumas experiências internacionais que foram um fracasso devido a esse posicionamento de tolerância zero. Como consequência a essa política, tivemos um aumento de 400% no número de encarcerados nos Estados Unidos em um período de 25 anos. Hoje somos o país com mais cidadãos presos no mundo, o que é curioso porque sempre apregoamos o discurso de sermos a terra da liberdade. Temos mais gente nas prisões do que qualquer outro país do mundo, mais que na China, mais que em países conhecidos por serem repressivos com suas populações. E tudo isso acontece por causa da nossa ênfase excessiva em encontrar uma solução repressiva ao problema da droga. Isso gera um investimento altíssimo em e encarceramento. Enquanto isso, os preços das drogas caem e aumenta a disponibilidade, especialmente nos bairros pobres. A política de tolerância zero simplesmente não funciona. O primeiro passo deve nascer no âmbito social. Para os usuários, a sociedade não está oferecendo oportunidades para um engajamento produtivo, uma entrada no mercado de trabalho, uma busca por significado em ser um cidadão produtivo. Esse é o grande desafio. A solução de longo prazo tem que partir da integração da população marginalizada na sociedade geral.

PAULO MARKUN
A população tem a visão de que isso é um problema do Estado e que o Estado é omisso, por exemplo, na Cracolândia. As pessoas dizem que a Cracolândia é um espaço sem lei. Ali os usuários traficam droga livremente, consomem, há violência, morador de rua, álcool etc. Em que medida é possível inverter esse jogo e passar para a sociedade a responsabilidade? Que responsabilidade é essa? A sociedade tem alguma coisa a fazer ou tem que cobrar das autoridades que executem a sua função?

MARCO ANTÔNIO
A ação na Cracolândia é acompanhada há muitos anos. Tudo o que podia ser feito pelo Estado, do meu ponto de vista, foi feito, executado de forma errada e de forma certa. Já prendemos traficantes e agora estamos com outro trabalho para localizar laboratórios que fornecem em grande quantidade. A ação da área da Saúde foi profunda em vários momentos. É difícil interpretar o que ocorre com a Cracolândia. Do meu ponto de vista, a sociedade aceitou aquilo como verdadeiro e virou as costas. A periferia se dirige à Cracolândia.

LUIZEMIR LAGO
A sociedade precisa ter mais acesso à discussão. O preconceito vem embalado no noticiário que difunde a questão da droga – e o crack é o que está em maior evidência. Mas o crack está aqui há mais de vinte anos. A sociedade pouco ligava porque era uma droga de população pobre, de morador de rua. Hoje mudou o perfil. Hoje a droga se espalha pela sociedade e já afeta a classe média. Aí eu pergunto: e o álcool? A gente não pode também só dizer que o crack é o grande vilão. O álcool é uma droga lícita, e essa é a grande diferença. Talvez o fato de entendermos, no passado, que a questão da droga era de polícia, a sociedade criava essa ideia de que era a polícia que precisava resolver o problema. A sociedade tem que se envolver porque está afetada, de uma forma ou de outra, por todas as drogas, não só o crack. A droga veio para ficar, não vai sair, faz parte da essência do ser humano: ele quer ter experiências diferentes. Como lidar com isso? Não dá para achar que é questão de polícia.

ROSANGELA ELIAS
A gente perdeu e ainda perde muito tempo discutindo de quem é a responsabilidade: é da saúde, é da educação, é da assistência social? É de todo mundo: sociedade, poder público, organizações, enfim. A partir daí a gente tem que trabalhar a questão do preconceito. Outro dia li uma reportagem de jornal que dizia “Usuário de crack cai da moto e atrapalha o trânsito”. Se o cara morreu ou não, é indiferente. Mas olha o transtorno que o usuário de crack trouxe para a sociedade. É preciso pensar nas pessoas que estão acometidas, que sofrem por conta desse uso indevido. Quais são as condições sociais que levam essas pessoas ao uso do crack e outras drogas?

MARCELO RIBEIRO
É difícil falar porque o Estado está participando efetivamente apenas nos últimos anos. Falta muita coisa por realizar ainda. A sociedade vem se informando melhor e participa mais. A situação está menos polarizada hoje. A Cracolândia está numa situação grave e concentra os usuários de crack mais pesados. Por outro lado, existem inúmeros indivíduos que utilizam a substância e convivem em sociedade, estudam, trabalham, têm dificuldades. Esses também são usuários que precisam ser vistos. A maneira como a gente vê os usuários de crack hoje é a mesma como eram vistos os consumidores de álcool há 200 anos. As pessoas olhavam apenas para aqueles em estados terminais, dementes, cheios de problemas hepáticos que iam para os manicômios e ficavam lá por 20 ou 30 anos. Mas não é isso. É impressionante ver que os usuários que decidem interromper o uso se recuperam muito bem. É preciso ver o usuário ao longo de uma linha evolutiva porque eles chegaram lá a partir de uma série de fatores. Tem que haver uma ação integrada senão a gente vai ficar batendo cabeça infinitamente.

BRUNO RAMOS
Todo mundo tem que lidar com isso. Está presente na sociedade e dificilmente vai acabar. A forma como o senso comum entende os usuários acaba por desumanizá-los. Eles vivem sob um estigma muito forte. Se o cara é usuário de crack, eu não contrato, não converso, não chego perto e isso elimina as possibilidades dos usuários se reinserirem socialmente. Existem perfis de usuários: os que usaram e não querem mais usar, os que usam de vez em quando e às vezes têm problemas, os que usam o tempo todo e aqueles que estão ali na Cracolândia porque é o único espaço de sociabilidade. Mas as pessoas os veem como zumbis dominados pela pedra, sem vontade, passivos. É importante mudar isso porque são pessoas e devem ser respeitadas. Cabe ao Estado oferecer acolhimento e alternativas a essas pessoas, especialmente quando quando o uso do crack deixar de fazer sentido. Às vezes ações que são tidas como de “saúde” ou “sociais” acabam sendo repressivas e violentas com os usuários. Isso os afasta do serviço, de outras possibilidades de vida.

JOSÉ FLORENTINO
Ação sem participação da sociedade é incompleta. Quando se fala em álcool com o cidadão comum, a resposta é sempre “consumo só na sexta-feira, na balada”. Mas quando o uso é abusivo , será que não fica mais fácil usar outra substância? Será que nesse momento você não pode ser sensibilizado a experimentar o crack? Será que você vai ser um daqueles que na primeira experimentação vai acabar ficando viciado? Esse tipo de pergunta precisa ser levado à comunidade. O dependente de crack está geralmente distante da nossa realidade, não temos nada a ver com isso. Mas quando acontece com um conhecido ou ente querido a história muda. O crack veio, entrou, se instalou. Está ha 20 anos em São Paulo e o momento agora é de se organizar. Vamos tentar vencer essa batalha e fechar a porta de entrada, o que ainda não conseguimos. Fecha-se a porta do crack e logo aparece outra. A prevenção ainda está muito focada na maconha, álcool, tabaco, cocaína, não chegou no crack. A mãe não sabe nem o cheiro da maconha, como é que vai saber o que é uma pedra de crack? Como ela vai saber o que é um comprimido de ecstasy? Ela vai ser enrolada novamente: “É o meu comprimido de gripe”.

PHILIPPE BOURGOIS
Quando você vê alguém preso ao vício a ponto de viver nas ruas pedindo, roubando, sofrendo, bate um sentimento de desespero que gera duas reações: 1) você sente o desespero e tenta encontrar soluções. 2) Tem, infelizmente, um sentimento raiva, de querer se livrar daquilo, de punir. Uma reação moral em oposição à empatia. O papel do governo é ajudar a gente a entender esse problema e evitar cair nessa armadilha de super moralismo ou super ódio que causam mortes e afastam as pessoas. A gente precisa lembrar que o viciado pode se recuperar. Nos anos em que passei trabalhando com os sem-teto em São Francisco havia muitas pessoas que julgava impossível se livrar do vício. Extraordinariamente, vários deles deixaram o vício completamente e de diferentes maneiras. Eles só precisavam de alternativas: uns recorreram à religião, outros ao tratamento terapêutico obrigatório, outros ao apoio da família, outros por encontrar um emprego. Todos eles, mesmo os que aparentavam amar as drogas mais que tudo na vida, passaram por períodos de realmente querer largar o vício, de se sentirem deprimidos, com raiva, envergonhados. Esses momentos precisam ser capturados pelas organizações que trabalham para reduzir os riscos das drogas. O papel do governo é estabelecer prioridades para que possamos expandir esses serviços. Outra coisa que precisamos ter em mente é que as pessoas em tratamento frequentemente retornam à droga e a gente tem que entender que esse retorno é parte do processo de recuperação. Parte das pessoas voltam a fumar três, quatro, cinco vezes e você começa a duvidar da recuperação e então, na sexta vez, ele se livra. É um processo natural para quem está passando por isso. Outras pessoas se livram imediatamente. Humanos são um mistério e a gente reage diferente, por isso precisamos de serviços diferentes.

Adriana Américo – Farmácia UNINOVE: um viciado é considerado um doente? Por que não há recursos públicos para tratar esses doentes?

Thiago Carvalho – Farmácia UNINOVE: a internação traz algum resultado para os usuários de crack?

Sandra Souza dos Santos – Fisioterapia UNINOVE: qual a maior dificuldade dos usuários para abandonar os seus vícios com as drogas?

ROSANGELA ELIAS
Na realidade os recursos de saúde mental e de atenção ao dependente são pouco divulgados. A gente vive em uma cidade gigantesca com muitos problemas. A Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo vem investindo muito forte no sentido de criar espaços de tratamento para pessoas com dependência química. Nós temos uma rede de Centros de Atenção Psicossocial com 62 unidades na cidade de São Paulo – 21 desses para atenção ao dependente químico. Quinze unidades infantis que também dão conta da atenção ao dependente químico de crianças e adolescentes. Temos convênio com unidades terapêuticas, inauguramos uma unidade de tratamento que reúne tanto a questão da internação quanto a psicossocial, chamada Serviço de Atenção Integral ao Dependente, na região do Ipiranga. Atende a 80 pacientes em regime de internação e tratamento, além dos leitos de hospitais gerais. Fundamentalmente, a gente criou equipes de estratégia do programa Saúde da Família para população em situação de rua. São profissionais da saúde que estão lá na região do centro, abordando as pessoas, oferecendo atenção à saúde, ajuda no que lhe é preciso, considerando a singularidade e a situação de cada pessoa no sentido de trazê-los para o tratamento. Foram quase 200 mil abordagens ao longo desse período. A gente tem para mais de 500 pessoas sendo acompanhadas diariamente nos CAPs da região do centro, além do crescimento de unidades na cidade inteira. Como eu disse, a população não é do centro. Ela está lá. Então a gente tem que investir no tratamento quando a questão do uso inicia, antes que as pessoas comecem a perder seus vínculos sociais e familiares. É um investimento na cidade inteira, em todas as regiões. O objetivo da Secretaria é ampliar essa rede. A questão da internação é diferente para cada pessoa. A gente não pode achar que a internação é a única solução: internou, saiu curado magicamente. A internação para alguns casos é o único processo que vai se concretizar na sociedade, na atenção, nos recursos territoriais. O importante é você ter serviços porta-aberta, democráticos, para aqueles que querem cessar o uso da droga e para aquele que não quer mas que precisa ser tratado no prejuízo que a droga traz. A redução de danos tem que ser um serviço para todo mundo. Os recursos de saúde são escassos pelo tamanho da cidade, mas estamos fazendo investimentos.

MARCELO RIBEIRO
A dependência é uma doença e precisa de estratégias para ser bem tratada. As causas são múltiplas e as prerrogativas sociais são preponderantes, ouso dizer. O desenvolvimento dessa doença passa por inúmeros atores, entre eles os fatores sociais. E esses mesmos fatores ajudam esses mesmos indivíduos permanecerem nessa situação. Existe uma desestruturação biológica que a substância causa e isso também via dificultar a reinserção social. Nesse momento a internação pode ser uma boa alternativa, mas já numa segunda etapa talvez ele necessite de abordagens mais estruturadas. Ele vai precisar de ambulatórios, moradias assistidas e, em momentos em que ele está ali vivendo em função do consumo, de equipamentos e estruturas que garantam sua vida.

LUIZEMIR LAGO
O usuário de drogas não é um ser que precisa ser internado. Eu queria chamar atenção para o que foi colocado pelo Philippe: as prisões aumentaram 400% com políticas de repressão. Se a gente internar todos os usuários, não vai dar conta de criar hospitais e clínicas. Temo chegar a um ponto como o que a gente tem hoje com os doentes mentais, todos segregados em hospitais psiquiátricos. Só no estado de São Paulo, seis mil pessoas não deveriam estar internadas e o poder público continua custeando. A questão da droga tem que ser vista sob o aspecto econômico, mas não só do tráfico, mas de quem ganha dinheiro com as internações. O Ministério Público e a sociedade dizem que nós temos que internar os usuários de droga. Não temos, exceto em situações de exceção. A maioria tem uma recuperação rápida e fácil no ambiente extra-hospitalar.

JOSÉ FLORENTINO
Se a gente tirar o crack, quem responde pelo resto? A educação tem que falar por ela. A polícia tem que fazer o papel dela. Como uma família resolve essas questões e como fica depois? Ela viveu uma situação em que seu ente querido esteve na rua, foi para Cracolândia, vai para tratamento e depois como ela o recebe em casa? Tapete vermelho? Chegou meu filho querido, zero quilômetro. Não tem nada disso. Tem uma série de recomendações, um tratamento específico com a família e por aí afora. A presença do Ministério Público é essencial. Criança e adolescente em situação de rua é responsabilidade de quem? Se não estão com os pais ou responsáveis, então é responsabilidade do Estado. Tem uma ação muito importante, já dentro da Ação Integrada Centro Legal da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social que são as tendas. São áreas de lazer, com TV e outras coisas. Tem uns que vão só para assistir ao jornal; outros vão só para a novela. Criamos o Cine Comuda, que mostra filmes com temas interessantes que abordem a dependência química. No final, eles debatem com a gente. No inicio ficavam dois. Hoje nós já estamos debatendo com 15 dependentes em situação de ruas com argumentos fantásticos. O projeto ainda não está 100%, falta definir algumas partes. Mas quando alguém chega pedindo tratamento, a gente encaminha e partir de então ele segue o curso. O tratamento é de primeiro mundo, de excelência. E a gente não tem visão de nada disso.

PHILIPPE BORGOIS
Seria útil pensar em como o modelo de educação e desenvolvimento social desenvolvido pelo brasileiro Paulo Freire pode se aplicar a essa situação de drogas no Brasil. Paulo Freire revolucionou a educação para os pobres, ensinando analfabetos a se educar e ter controle de suas próprias vidas. Cada vez mais vemos programas com trabalhadores e conselheiros que são ex-usuários. O que Paulo Freire nos ensinou é que os participantes são os experts em seus próprios problemas. Tratar os viciados como experts é o primeiro passo para identificar onde onde estão os problemas e soluções. Assim será possível mobiliza-los como ativistas, dando-lhes a capacidade técnica e empregos. Isso funciona muito bem em outros países.

PAULO MARKUN
Pergunta via internet. Pessoa se identifica como “C”: o Estado não deveria criar áreas seguras para consumo do crack e limitar o consumo em vez de apenas repreender e reprimir os usuários?

MARCO ANTÔNIO
Para o problema de droga, de uso de drogas lícitas ou ilícitas, nunca em hipótese alguma, a repressão vai resolver. Tem que ser através da prevenção, educação etc. Mas tenho preocupação no que diz respeito à questão do crack, ao Brasil, especificamente em São Paulo. A realidade que nós observamos hoje é que o crime organizado está usando a droga, disseminando seu uso como garantia de lucro. O crack estava restrito ao centro de São Paulo até cinco, seis anos atrás. Hoje não existe um local de fornecimento no varejo onde não haja o crack. E o crack não foi para lá à toa. Nós tínhamos cidades no interior onde não havia problema e hoje há. Temos trocado informações, conversado com outros órgãos e observamos que a questão do crack ou da cocaína na forma de crack vem se alastrando no Brasil. Há uma pressão do crime organizado para que o crack se estabeleça na nossa sociedade. Sou muito favorável à questão da prevenção mas fico preocupado com esse tipo de posição. Qual é a vantagem disso dentro da nossa sociedade? Por que o crack é interessante para o crime organizado hoje? Porque que o usuário às vezes está na fissura, está consumindo, está naquele momento que não dá para reverter. Ele emprega todo valor que recebe e enquanto ele não acabar com aquele dinheiro, não sai da biqueira. Outros países do mundo tiveram esse tipo de experiência e retroagiram. Qualquer ideia de liberar o uso de qualquer substancia nociva à saúde , em especial as drogas ilícitas, é retrocesso social. Progresso social é quando você consegue convencer as pessoas que elas devem largar todos os tipos de droga.

BRUNO RAMOS
De alguma forma, as pessoas que vão usar drogas procuram um espaço seguro, fora do alcance da polícia, onde possa fazer uso sem sofrer ameaças. Na Cracolândia tem acontecido bastante ação policial, então as pessoas saem dali e vão buscar outro lugar, como em cima do Minhocão ou debaixo da Praça Roosevelt. Tem gente na periferia que transforma sua casa em um lugar seguro, chega a cobrar uma pedra de quem for ir ali fumar. Como a gente vai conseguir cuidar dessas pessoas? Elas estão buscando lugares seguros e se distanciando dos serviços de cuidados, de assistência social, dos agentes do programa Saúde da Família. Isso vai ficar pior. Esse espaços já existem de modo informal. Assim como o uso da droga por si só não é um problema, a gente tem que cuidar das questões ligadas a esse uso. No centro É de Lei as pessoas não podem consumir drogas, mas podem chegar e falar livremente sobre o uso. Elas acabam encontrando acolhimento e isso diminui a distância entre os usuários e os serviços, da possibilidade de se inserir de uma outra forma da sociedade. Não vou defender que a gente tenha que criar espaço de uso, ate para não criar polarizações: num espaço não se pode nada, em outro se pode tudo. Isso também é danoso.

LUIZEMIR LAGO
A gente não tem mais uma lei que proíba, que criminalize o uso da droga. Ninguém nesse país hoje pode ser preso porque está consumindo droga. A pessoa pode usar. A questão do afastamento para fumar num lugar seguro precisa ser observado pelo poder público mesmo. Tem que ir atrás, descobrir esses lugares, tratar de levar a prevenção terciária. A Lei prevê quantidades que configuram tráfico, do quanto eu porto, se eu ando com 20 pedras etc. Mas se estou consumindo crack eu não posso ser presa.

MARCO ANTÔNIO
O grande problema é uma interpretação completamente equivocada. A lei não pune quem consome porque pretende trazer a pessoa para junto do estado. Talvez a ação policial não seja a mais adequada, mas o objetivo é justamente esse: você precisa se aproximar do estado, pode vir nos procurar que nós vamos dar tratamento etc. A lei é muito boa nesse sentido. Talvez a única questão que enfrentamos agora é que, por outro lado, em algumas situações, em alguns estados de uso, é preciso uma imposição para procurar ajuda. Eu não vejo outra forma de tratar determinadas pessoas ou determinados estados de uso. Isso existe na lei americana, mas não na nossa. Na lei americana, o cidadão chega no Tribunal Terapêutico e ouve “você quer se tratar ou não?”. Se ele topar, assina um termo de responsabilidade. E se ele descumprir o termo, vai preso por porque descumpriu a ordem. Isso nós precisamos procurar urgentemente na nossa legislação.

MARCELO RIBEIRO
Às vezes a saída pode ser um tratamento instituído à revelia do paciente, mas também pode se dar através da instituição de uma casa onde o usuário pode usar sua substância de maneira segura. Provavelmente, se esse equipamento fosse instalado aqui, muitos usuários não iriam. Não seria uma solução, não aumentaria o uso, apenas seria um outro equipamento. Nós precisamos de alternativas para poder desenhar a melhor saída para os usuários. A polícia tem muito a acrescentar e essa lei que existe hoje é um avanço. Ainda não funciona muito bem, mas talvez levemos algumas décadas para nos apropriar dela.

Sobre o autor

Escrito por

Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Leia mais...

Comente neste post