MESMO CENÁRIO, OUTRA ÉPOCA

Quando se elegeu governador de Pernambuco pela primeira vez, o avô de Eduardo Campos recusou-se a encenar uma posse tradicional. Renovou na forma e no conteúdo. A história está no primeiro volume de Brado Retumbante, meu novo livro, a ser lançado em breve. Antecipo aqui:

Miguel Arraes tomou posse em 31 de janeiro de 1963. Nas 14 páginas de seu discurso, o novo governador de Pernambuco pronunciou a palavra povo mais de cem vezes, de acordo com a pesquisadora Bianca Nogueira da Silva. Assumidamente, ele apresentou-se como uma novidade na política brasileira:

Esse fato novo – o aparecimento do povo como categoria histórica – é que explica que eu hoje aqui me encontre, não em nome do povo, não em lugar do povo, mas eu – homem do povo, o povo, para assumir o Governo do Estado.

Arraes citou trechos da carta-testamento de Getulio Vargas, criticou o assistencialismo da Aliança para o Progresso, programa de investimentos do governo Kennedy, que aplicava recursos no Nordeste, sob o argumento do combate à seca e ao subdesenvolvimento da região e reafirmou sua fé num desenvolvimento nacional desatrelado dos outros países. E encerrou o discurso citando o poeta Carlos Drummond de Andrade:

Acredito ter tudo que um homem precisa ter para o trabalho e que outra coisa não é senão o que foi dito pelo poeta: Tenho duas mãos/e o sentimento do mundo.

Terminada a cerimônia formal, percorreu a pé, pelo meio do povo, os 750 metros que separam a Assembléia do Campo das Princesas para receber o cargo de Cid Sampaio. Mas em vez de discursar da sacada do palácio, subiu na base de um poste e falou de improviso, reiterando o que dissera aos deputados. No dia seguinte, o Diário de Pernambuco desqualificou as ideias do novo governador em seu editorial: “(…) Repetiu o novo governo os velhos chavões: ‘somos um povo que… já não aceita ser tutelado nem governado por estranhos’, é ‘historicamente falso… que a industrialização só poderá acorrer com a ajuda do capital estrangeiro’, ‘nós não poderemos liquidar o subdesenvolvimento sem liquidar a exploração do capital estrangeiro no País’, e vai por aí o senhor Arraes. (…) O senhor Miguel Arraes revelou-se com seu discurso de posse, um homem de mãos vazias de programas e cabeça quente de slogans. Elaborou um transunto dos papéis do ISEB e despejou-o no auditório. Numa palavra, deu a entrever que sonha com a República Popular de Pernambuco. É apenas um revoltado esse pernambucano do Cariri”.

Sobre o autor

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Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Leia mais...

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