Glória Maria e o racismo

Matéria publicada em O Globo. O que não escrevi na época foram os bastidores – a grande pressão sobre a repórter, na época não tão conhecida. Eu entrei na sala sem me identificar – acharam que era um advogado, ou coisa assim.Tentaram de todo modo constranger Glória, que resistiu bravamente. A polêmica de hoje me relembrou o texto.

Data: 4/6/1980
Veículo: O Globo
Jornalista: Paulo Markun

“Hotel demite acusado de barrar moça negra”

O americano Chester Stanley Petronis, subgerente do Rio Othon Palace Hotel, foi indiciado e vai ser processado por discriminação racial, por ter barrado a entrada no hotel da jornalista Glória Maria Matta da Silva, de 29 anos. Repórter da TV Globo, ela prestou queixa na 13ª Delegacia Policial, de Copacabana, e ontem voltou ao hotel para ouvir, como repórter, as explicações do gerente-geral Mário Bontorin, que atribuiu o fato a um gesto pessoal do subgerente, informando ainda que, por causa de sua atitude, ele fora demitido.

– Nosso hotel – explicou Bontorin – é totalmente contra a discriminação racial. Eu sou uma pessoa que adora todos vocês. Temos hóspedes de todas as cores, inclusive uma delegação da Nigéria.

O gerente-geral negou também que haja qualquer norma de segurança impedindo a entrada de hóspedes depois de certa hora – a jornalista foi barrada por volta de uma hora da madrugada de ontem – , contestando assim a justificativa dada pelo americano em seu depoimento na 13ª DP:

– Todo elemento que cai em uma falta arranja uma desculpa para se justificar. A legislação hoteleira diz apenas que as pessoas devem preencher uma ficha para entrar no hotel, seja a que hora for. Ele não podia recusar, nunca devia Ter recusado uma pessoa em função de cor. Talvez estivesse mal humorado, talvez fosse o trabalho da noite. Mas eu tenho 30 anos como gerente e isso nunca aconteceu. O rapaz mostrou que não serve e acredito que nunca mais será empregado nosso.

O INCIDENTE

Os problemas de Glória Maria começaram entre meia-noite e uma hora da manhã de ontem, quando ela chegou com um amigo – o banqueiro inglês Phillip Frederick Lay, residente em São Paulo e a serviço no Rio. Amigos há dez anos – ela esteve recentemente hospedada na casa do casal Lay, em Londres – , eles foram jantar com outros jornalistas no restaurante Antonio’s; depois resolveram ir ao hotel para dali telefonar para a esposa de Phil, como o chama Glória Maria.

Na recepção do hotel Phillip pediu a chave de seu quarto, mas o subgerente, que se aproximara do recepcionista, impediu que o hóspede a recebesse, dizendo que ele não podia subir acompanhado. Glória Maria quis saber a razão do impedimento e o gerente disse apenas que não podia, enquanto o recepcionista sugeria que ela preenchesse uma ficha de entrada.

Mas isso não foi suficiente para superar a determinação do gerente, que num português razoável, teria dito:

– Não adianta, negro não entra aqui no hotel.

– Nesse momento – explicou mais tarde a repórter – eu realmente perdi a calma. Me senti humilhada demais com aquilo que tinha ouvido. Mostrei meus documentos de identidade, disse a ele que não era uma prostituta como provavelmente ele estaria pensando. Sou negra, jornalista profissional e me orgulho disso. Lutei 29 anos para chegar onde estou e não aceito essa vergonha, essa humilhação.

A jornalista avisou ao subgerente, que era amiga do dono do hotel e advertiu que ele pensasse bem no que estava fazendo, porque se continuasse mantendo sua intransigência seria obrigada a chamar a polícia. O funcionário disse que ela fizesse o que bem entendesse e Glória Maria telefonou para a 13ª DP.

Minutos mais tarde, chegou à recepção o gerente-geral do hotel, que ainda tenteou demover a repórter. “Ele foi muito gentil” – explicou ela mais tarde – , “mas já estava tudo feito”.

Em pouco tempo surgiu a rádio-patrulha 54-0648, comandada pelo cabo da PM Elói Melo de Oliveira, do 19º Batalhão. Acompanhado do soldado Geovan Chagas, o cabo convenceu o gerente a ir resolver o caso na delegacia.

FLAGRANTE

Os jornalistas não puderam assistir à tomada dos depoimentos para o auto do flagrante no 2º andar da 13ª DP. E às 5 horas da manhã, depois de prestar suas declarações, a repórter desabafou:

– Quero deixar bem claro uma coisa. Quem está aqui se queixando na polícia é a crioula Glória Maria Matta da Silva, uma cidadã brasileira comum que foi vilipendiada e humilhada por causa da cor de sua pele. Vou fazer valer os meus direitos de qualquer maneira. Essa briga eu levo até o fim, pela Justiça.

O Boletim de Ocorrência no qual foi lavrado o flagrante recebeu o número 368/80. E, segundo o delegado Lauro Machado, o caso de violação da Lei Afonso Arinos configurou-se em todos os pontos, de acordo com o que consta do Código Penal.

O flagrante baseou-se no artigo 2º da lei Afonso – número 1.390, de 3 de julho de 1951, que considera a discriminação racial contravenção penal, passível de reclusão de três meses e um ano e multa (estimada entre Cr$10 mil e Cr$40 mil em 1977). Esse artigo incluiu entre as contravenções “recusar alguém, hóspede em hotel, pensão, estalagem ou estabelecimento da mesma finalidade, por preconceito de raça e de cor”.

“NÃO SOU RACISTA”

O subgerente do Rio Othon Palace Hotel, Chester Stanley Petronis, de 26 anos, permaneceu na 13ª DP até as 4h15m, quando foi indiciado e saiu, sob fiança de Cr$2 mil paga mediante recibo, sem dar uma palavra aos jornalistas. No depoimento prestado ao delegado Lauro Machado ele negou a acusação de racismo e disse que impediu a moça de entrar “devido ao adiantado da hora”.

– Depois da meia-noite só entram os hóspedes. Acompanhantes, não. Está no regulamento do hotel, para quem quiser verificar.

Negou ainda ser racista, assinalando que o hotel recebe hóspedes de qualquer cor e que nunca ocorreu fato semelhante, seja no seu horário, ou no de outros colegas de gerência:
– Nós estamos, inclusive, com vários hóspedes negros.

Suas explicações sobre o regulamento do hotel foram contornadas ontem à tarde pelo gerente-geral, Mario Bontorin, que afirmou haver apenas uma exigência – o preenchimento da ficha – , que a repórter tentara cumprir mas fora impedida.

A direção do hotel atendeu prontamente à repórter e pediu muitas desculpas pelo incidente, mas recusou-se a permitir que a entrevista com o gerente-geral fosse feita na recepção – “para não causar embaraços aos hóspedes”.

O PROCESSO

Dentro de no máximo cinco dias, o flagrante lavrado pela 13ª DP deverá ser encaminhado ao Distribuidor Criminal do Foro, que sorteará uma das três vagas destinadas às contravenções penais – a 24ª., 25ª. E 26ª. – para que seja formado o processo.

SINDICATO

A direção do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro terá uma reunião hoje com a repórter Glória Maria e na ocasião colocará o departamento jurídico do sindicato à sua disposição.

“Arinos: – Uma questão cultural”

O jurista e escritor Afonso Arinos de Mello Franco, idealizador da lei 1390, reconheceu ontem que a maior eficácia de sua lei ocorre por intermédio dos inquéritos policiais, como o instaurado a partir da queixa de Glória Maria:

– Não é através dos processos judiciais que ela age. A lei exerce seu efeito com os inquéritos mesmo. Tenho recebido informações de todos os Estados do Brasil, relatando casos semelhantes. Quando alguém resolve ir à polícia, o caso se resolve. Quem afirma que a lei não vale nada são grupos negros racistas que começam a aparecer, e muitas vezes não são nem negros. Essa moça agiu bem, porque é uma experiente e inteligente.

O professor Afonso Arinos considera o preconceito racial um problema grave e universal:

– É uma questão cultural, não jurídica apenas. É a coisa mais séria do mundo. Muitos fatos políticos e econômicos escondem atrás de si, na verdade, o preconceito racial, como a disputa entre árabes e judeus. No Brasil, temos uma vantagem: o preconceito é muito maior nas elites, as classes populares quase não o têm. Na Inglaterra ou nos Estados Unidos, os operários negros são discriminados em sua própria classe. Aqui, não. É um problema da elite apenas.

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Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Leia mais...

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