A estrela da esquerda na Câmara

O texto saiu na Playboy em março de 1999. Genoino mudou de endereço. Duvido que tenha mudado de lado.

O dia-a-dia do deputado campeão e votos no país e a desenvoltura do ex-guerrilheiro no Congresso Nacional

São 1.940 metros quadrados do mais puro Oscar Niemeyer: um salão sem janelas, mas com jardins de Burle Marx, painéis e esculturas assinados por grandes nomes das artes plásticas e uma dúzia de poltronas de design moderno e discutível comodidade, permanentemente ocupadas por rolos de fios, câmeras e tripés de iluminação espalhados pelos cinegrafistas. Uma mistura de passagem e ponto de encontro, que lembra o foyer de um teatro. Com uma diferença: aqui o movimento prossegue, mesmo durante o espetáculo. Fora da cena principal, que deveria acontecer no plenário, as rodinhas se formam e se desmancham. Debaixo delas, um onipresente carpete garante o verde, que deixou de ser atributo para se tornar nome próprio. É no Salão Verde da Câmara dos Deputados, em Brasília, que jornalistas e visitantes cruzam, aparentemente por acaso, com as celebridades da política brasileira, fazendo surgir assim fofocas e notícias, muitas vezes entrelaçadas como irmãs siamesas. As aparências enganam. Essa terra de ninguém tem dono. O mais competente, segundo amigos, correligionários e até adversários, é o cearense José Genoíno Neto, 52 anos, 1,80 metro, 94 quilos. Um filho de lavrador que participou da guerrilha do Araguaia, passou cinco anos na cadeia e, nas eleições de outubro passado, como candidato à reeleição pelo PT, teve a maior votação do país para deputado federal, em números absolutos: 306.988 votos obtidos em 630 dos 650 municípios do Estado de São Paulo.
É ali. no Salão Verde, que ele interpreta seu papel no jogo político brasileiro. O papel de agitador. Nos momentos de crise, aborda governistas com uma provocação e repórteres com uma promessa. A pergunta: “Qual é o rumo?” A promessa: “Vou chutar o pau da barraca!” Nem segue o rumo nem cumpre a promessa, mas ocupa os espaços disponíveis, conciliando coerência e flexibilidade, para desespero de seus companheiros mais ortodoxos. Suas teses raramente se transformam em votos do PT. mas ele é, de longe, o
parlamentar petista que mais aparece na mídia.
Não tem assessor de imprensa. Ou melhor, tem, sim: é José Genoíno. O deputado reconhece que está sempre às ordens, principalmente para entrevistas e programas de debate. “Aceito qualquer convite mesmo. O espaço que tenho é conquistado, porque não tenho poder nem dinheiro. Por isso, não recuso nenhuma brecha.”
O que lhe abre todas as portas 6 o jeito com que lida com a imprensa. Frequenta, diariamente, o Comitê de Imprensa, onde os notáveis da Câmara nunca põem os pés. Trata da mesma maneira principiantes e veteranos. E sabe separar uns e outros. Os principiantes que batem ponto no Salão Verde conversam com ele todos os dias. Outros, como Franklin Martins, colunista de O Globo e um dos mais influentes jornalistas políticos, desde que chegou à telinha da Globo, de tempos em tempos passa 1 ou 2 horas trocando figurinhas com o petista. “Ele pauta bem a imprensa”, diagnostica Franklin. “Tem um comportamento de líder, sem o ser.” (O patrão de Franklin, João Roberto Marinho, almoça regularmente com Genoino quando vai a Brasília.)
Até ser cassado como deputado do então MDB do Rio de Janeiro, em 1968, Márcio Moreira Alves, hoje também colunista de O Globo, teve tanto ou mais espaço na imprensa do que Genoino tem. Talvez por isso seja ácido na avaliação: “Ele é a borboleta do PT. Dedica todo o empenho a seduzir o matriarcado do jornalismo político brasileiro”. Dora Kramer, que herdou o privilegiado espaço de opinião e análise ocupado, durante décadas, por Carlos Castello Branco, o Castelinho do jornal do Brasil, acha que o petista evoluiu: “Ele não podia ver uma câmera que saía correndo [para ser entrevistado]. Mas hoje é uma fonte de informação importante. Sabe muito sobre o que acontece”.
Disposição até para discursos diante de um plenário deserto
Como Dora, também Eliane Cantanhede (Folha de S.Paulo). Wanda Célia (Folha de S.Paulo). Cristiana Lobo (Jornal de Brasília) e Tereza Cruvinel (O Globo), todas colunistas influentes e alvo da ironia de Márcio Moreira Alves sobre o “matriarcado” na imprensa política, renderam-se à sedução do ex-guerrilheiro. Mas nenhuma delas se interessaria por suas teses e afirmações não fosse ele um craque no plenário. Manobra como poucos o Regimento Interno da Câmara dos Deputados — o conjunto de regras que regulamentam o funcionamento da Casa —, que ajudou a desenhar, durante a Constituinte (1986-1988). A ponto de obrigar o todo-poderoso secretário-executivo da mesa, Mozart Vianna de Paiva, a antecipar seus movimentos, preparando respostas prévias às questões de ordem que ele levanta, só para dar dor de cabeça à base governista e presidente da Câmara, Michel Temer.
Genoino nunca faltou a uma votação, mas não vai a audiências com prefeitos nem propõe emendas ao Orçamento. Só aprovou um projeto de lei de sua autoria: o que estabelece normas para direitos autorais. Líder da bancada do PT durante o processo de impeachment do presidente Fernando Collor, em 1992, e na Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou irregularidades praticadas pelos chamados “anões do Orçamento”, entre 1990 e 1994, foi candidato a presidente da Câmara em 1995 contra seu amigo e adversário ideológico Luís Eduardo Magalhães, o deputado do PFL da Bahia que morreu em 24 de abril de 1998. Todas as semanas, chega a Brasília terça cedo. Divide o táxi com o primeiro deputado disposto a economizar uns trocados e, mal desembarca, vai direto se inscrever como um dos oradores do Pequeno Expediente da Câmara.
Os grandões da política não dão importância a esse espaço para pronunciamentos de até 5 minutos, apelidado de “pinga-fogo”. em que o orador fala como se pregasse à multidão, mas diante de um plenário deserto. Genoino não perde um. “O que a gente fala aqui vai para o ar em A Voz do Brasil e na TV Câmara”, diz ele. A dica sobre o pinga-fogo ele recebeu do falecido dr. Ulysses Guimarães. “Não se esqueça”, recomendou o velho político. “Quem sobe, cai. Por isso, não deixe de fazer A Voz do Brasil nem de ter o seu gabinete.” O dr. Ulysses sabia do que estava falando. Os líderes têm direito a amplos gabinetes, mas quem perde o cargo fica sem sala da noite para o dia.
O Senhor Diretas foi com a cara daquele novato barbudo que ousou levantar uma questão de ordem durante a solene instalação da Assembleia Nacional Constituinte. Não acatou o argumento, mas mandou-lhe um bilhete mal escrito que o rebelde do Regimento guarda com todo carinho. O bilhete: “Genuíno (assim, com “u”), manifestei-me ao ministro Moreira Alves [então presidente do STF] favorável a sua manifestação”.
Conselhos e bilhete de Ulysses Guimarães guardados com carinho
Seguindo o conselho à risca, Genoino primeiro inscreve seu nome na lista dos vinte com presença assegurada no Pequeno Expediente e, por tabela, na transmissão obrigatória por rádio criada por Getúlio Vargas, para só depois seguir para o Anexo 3 da Câmara. Ali ficam os gabinetes dos deputados novatos, dos ausentes, dos sem prestígio e, por alguma razão, de muitos petistas, inclusive com prestígio. Genoino ocupa o gabinete número 270, com duas salas pequenas, sem banheiro privativo. Não troca de lugar por nada. Tampouco fica muito por ali.
“Tem gente que adora um gabinete. Eu não gosto”, diz ele, sentado na mesinha redonda que atravanca sua sala particular, pitando a cigarrilha com que dribla a saudade do cigarro, que abandonou há um ano. Na estante, registros da Constituinte, pastas com os assuntos que mais ocupam seu tempo — tudo bem organizado. Nas paredes, um retrato em que aparece com a barba mais negra e menos comportada, um pôster inspirado no realismo socialista, o bilhete de Ulysses e os diplomas da Justiça Eleitoral, que
atestam seu desempenho nas urnas. Um crescendo, salvo pela segunda eleição: 58.650 votos em 1982; 28.054 em 1986; 71.621 em 1990; 192.230 em 1994 e 300.988 agora.
O gabinete vizinho é de Paulo Paim (PT-MG) e mais parece um centro acadêmico, coberto de cartazes. No de Genoino, nada além de pequeno aviso: “Por favor, não insista. Não fornecemos ajuda financeira. Não fornecemos cartas de apresentação. Não queremos comprar nada”. Se o plural é majestático ou coletivista, é difícil dizer. Em favor da segunda hipótese, diga-se que são três seus companheiros de trabalho em Brasília e outros três em São Paulo — pagos dentro da coto usual de que os deputados dispõem para sua assessoria. Entre os assessores, Aldo Fornazieri, um antigo camarada dos tempos de PC do B, que escreve seus artigos.
Sérgio Carvalho, outro quadro político do tempo da clandestinidade, é o chefe de gabinete, cuida da sua agenda e do mandato. Mas, graças à facilidade com que o deputado assume compromissos, Sérgio nem sempre consegue organizar uma agenda racional. Não que Genoino seja um arroz-de-festa. Fora do Salão Verde e das repartições do Congresso, ele circula em Brasília. Até porque, numa cidade onde quatro rodas são fundamentais, ele não tem carro. Ano passado, tentou comprar um fusca de uma jornalista. Mas, alega, não tinha os 3 000 reais necessários.
Genoino é pão-duro assumido. Almoça no bandejão da Câmara, no andar térreo do Anexo 3, por quilo, pagando no máximo 6 reais. E justifica dizendo que no restaurante dos deputados só tem lobista. Desde o primeiro mandato, mora no hotel Torre Palace, no centro geográfico da cidade. Pouco importa se as instalações são apenas razoáveis, os aparelhos de TV antiquados e o chuveiro não seja lá essas coisas: os descontos oferecidos pelo dono falam mais alto. Carrega o extrato bancário do dia no bolso do paletó. Vive de olho no cheque especial e confere cada depósito, porque morre de medo de surgir ali algum registro sem explicação. “Nunca se sabe o que podem aprontar”, resmunga, com a manha de quem já usou nomes falsos e outras maracu-taias para se precaver, no tempo da clandestinidade.
Faz tempo que deixou de ir ao restaurante Piantella, na quadra 202 do Setor Comercial Sul do Plano Piloto, onde costumava jantar com Luís Eduardo Magalhães, Nelson Jobim (ex-deputado pelo PMDB gaúcho, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal) e Miro Teixeira (PDT-RJ). Vez por outra, sai com um casal de amigos — ela jornalista, claro.
Definitivamente, não é um gourmet. Adora macarrão com frango, mas traça o que lhe colocarem à frente, desde que seja barato e em quantidade. Por causa da pressão alta e do fígado marcado por uma malária, só bebe suco de laranja com acerola ou Coca Light. Gosta de música clássica e de MPB. Está mais para Tito Madi e Nelson Gonçalves, com incursões a Chico, Milton e Caetano, do que para Lenine e Chico César. Aprecia um tango, mas não dança nem bolero. Lê pouco, basicamente política e filosofia, e lamenta: Queria ter mais tempo”. Pela manhã, passa os olhos pelos jornais usando óculos para vista cansada (2 graus). Mora com a mulher e os dois filhos num sobradinho bem classe média, no bairro do Butantã, Zona Oeste de São Paulo, que comprou em 1984 e continua pagando. Rioko Kiaco também foi do PC do B. Hoje é enfermeira concursada num centro de saúde do governo do Estado. Os dois se conheceram na prisão e passaram a viver juntos em 1977. A filha mais velha, Miruna, tem 17 anos e deve estar cursando Pedagogia na USP, a partir deste mês. Ronan, o garoto, 15 anos, é são-paulino, para tristeza do pai, corintiano ardoroso.
Se alguém um dia for criar o Museu José Genoino, não terá muito trabalho. Bastará ir ao escritório particular do deputado, nos fundos da sua casa. Um quartinho pequeno, mas extremamente organizado. As obras completas de Lênin ainda têm espaço garantido nas prateleiras de alvenaria, abarrotadas de livros, revistas e jornais encadernados. Todos com algo a ver com a história pessoal e política de Genoino. Na parede, uma foto rara registra a pracinha de Xambioá (PA), nos tempos em que o PC do B preparava a guerrilha contra o regime militar. Genoíno não está na foto, mas seu nome aparece gravado para sempre nas três condecorações oficiais que recebeu até agora e que guarda, com orgulho, numa gaveta, ao lado de suas quatro carteirinhas de deputado. A medalha do Mérito Naval lhe é mais cara. Sobre a mesa, pilhas de canetas, uma mania do deputado. Ele tem mais de 100, de todos os tipos e formatos. “Com esta eu assinei a Constituição”, mostra, manuseando uma Parker preta tipo roller bali “Esta outra estava no meu bolso naquele entrevero de Leme, com os bóias-frias”, prossegue, com uma esferográfica Parker branca. “Esta foi a das CPIs”, completa, acariciando uma Montblanc. E se apressa em informar: “Foi presente”. De repente, apanha uma minúscula caixa de música. Aciona, cuidadoso, e na salinha ecoam os primeiros acordes da Internacional, o histórico hino comunista.
Considerado “a direita do PT”, seu lema é: mudar sem mudar de lado
Na entrada da casa, dois cartazetes da última campanha ainda resistem. Eles garantem: quem vota nele não se arrepende. O logotipo já não aproveita o “G” de Genoino para formar a foice e o martelo. Agora, o “O” abriga o círculo da bandeira nacional. Artes de Duda Mendonça, o marqueteiro de Paulo Maluf que o petista conheceu na campanha em prol do parlamentarismo, no plebiscito de 1993. Disciplinado, abandonou essa trincheira quando seu partido fechou questão no campo oposto, o do presidencialismo. Mas a fé no governo de gabinete se mantém. E a amizade com o publicitário também. Foi Duda quem fez o layout dos vinte outdoors colocados na cidade de São Paulo, único luxo da campanha eleitoral que custou 150 000 reais, segundo o deputado.
Como escudeiro de Marta Suplicy na campanha pelo governo de São Paulo em outubro, Genoino visitou todas as cidades grandes e médias do Estado. Em todas, foi às faculdades, panfletou a praça principal, esteve na rádio e no jornal locais. “Em meio dia, marcávamos presença na região.” Estratégia eficiente para uma candidata majoritária que patinava nos 13% das preferências e para um candidato proporcional que pode ter eleitores por todo o Estado e de diferentes setores. O ex-guerrilheiro já recebeu o voto do diretor responsável pelo jornal O Estado de S.Paulo, Ruy Mesquita, e elogios públicos do apresentador e estilista Clodovil.
Suas idéias prosperam fora do PT, mas lá dentro ele é minoria. O grupo político de Genoino serve de fiel da balança entre o grupo de Lula e a ala esquerda, mas não soma 12% nos congressos do partido. Autodenominado Democracia Radical, a tendência seria “a direita do PT”, na visão dos setores menos flexíveis. Genoino não aceita o rótulo. Para ele, de direita são seus adversários internos: “Eles é que não querem mudar”. E cunha um lema contraditório: mudar sem mudar de lado. O conceito marxista de Estado e as idéias leninistas sobre a Revolução devem ser enterradas, mas, segundo ele, ainda há espaço para a esquerda na luta pela igualdade, na utopia dos direitos. “A luta de classes é um processo de disputa de interesses, não é o motor da História.”
À margem dessa história, os pais de Genoino continuam analfabetos e morando em Encantado, distrito de Quixeramobim, interior do Ceará. Vivem um pouco melhor do que outros camponeses aposentados, graças à mesada que o filho famoso, o mais velho de onze irmãos, manda todo mês. O menino saiu dali para Senador Pompeu, uma cidade pouca coisa maior, depois de ter sido aprovado no exame de bolsa para o Colégio Cristo Redentor, de freiras. Não tinha como se sustentar fora de casa. Foi quando surgiu em sua vida o padre Salmito. “Um progressista”, lembra o deputado. Morou três anos na casan paroquial, como uma espécie de sacristão. Chegou a Fortaleza no início de 1964 para cursar o então científico (segundo grau). Começou a se interessar pela política no clima agitado que precedeu o golpe militar daquele ano. Aos 16 anos foi preso pela primeira vez, durante uma manifestação de 5.000 estudantes que protestavam contra aumento dos preços de passagens dos ônibus. Acabou sendo expulso do colégio.
Completou o científico graças ao chamado Artigo 99, antecessor do supletivo. O primeiro emprego foi numa multinacional — e por concurso. Em 1965, passou a cadastrar terras destinadas à reforma agrária num computador daqueles que funcionavam à base de cartões perfurados, como funcionário da IBM. Por três anos, alternou esse trabalho quase braçal com a agitação do movimento estudantil. Passou em vestibulares para Filosofia na Universidade Estadual do Ceará e, depois, Direito, na Federal. Elegeu-se presidente do Centro Acadêmico da Filosofia e do DCE da Federal. Em 1967, entrou para o PC do B. Durante um ano seguiu os ensinamentos de Mao Tsé-tung de dia e foi um perfurador exemplar à noite. Até o dia em que o pessoal da IBM olhou pela janela e viu o colega de trabalho comandando um protesto bem em frente ao edifício.
A polícia passou a procurá-lo e seu chefe lhe fez uma proposta radical: mudar-se para o Rio, fazer um curso e tornar-se programador — desde que deixasse o movimento estudantil. Não aceitou, foi demitido, mergulhou de cabeça na agitação universitária. Foi preso durante o Congresso da UNE, em Ibiúna (SP), em 1968, como todos os outros 920 participantes. Libertado, foi para a clandestinidade e, em julho de 1970, mudou-se para a região do Araguaia, no sul do Pará. Passou dois anos preparando a guerrilha com outros militantes do PC do B e foi preso sem ter entrado em combate. Condenado a cinco anos, cumpriu a pena integralmente, em São Paulo, em Brasília e no Ceará. Em 1977, voltou a São Paulo e obteve emprego como professor de História num curso pré-vestibular.
Desencanto com FHC e ambição: “A Presidência? Qualquer um quer”
No ano seguinte, foi expulso do PC do B, depois de dar uma polêmica entrevista ao Jornal da Tarde em que criticava a guerrilha. Chegou, em 1978, a participar da campanha de um sociólogo que queria ser senador pelo PMDB, Fernando Henrique Cardoso. Dois anos mais tarde, filiou-se ao PT. Durante a Constituinte, estabeleceu relações cordiais com os assessores parlamentares dos ministérios militares. Foi um defensor da criação do Ministério da Defesa, tese derrotada na época mas que hoje acaba de ser adotada.
Todo ano participa de debates na Escola de Guerra Naval e na Escola do Comando do Estado-Maior do Exército, no Rio. Uma vez por semana, toma café da manhã com o almirante-de-esquadra Mário Cesar Flores, ex-ministro da Marinha, de quem se tomou amigo. Subiu o tom das críticas ao presidente Fernando Henrique depois da emenda da reeleição: “Fiquei meio desencantado com ele. A reeleição é como os cinco anos do Sarney, só que em câmera-lenta”.
No entanto, agiu com cautela diante do dossiê sobre a suposta conta secreta nas Ilhas Cayman. Genoíno estava no mesmo avião que Lula quando este desembarcou num hangar do Aeroporto de Congonhas, antes das eleições, onde o esperava Lafayette Coutinho, ex-presidente da Caixa Econômica no governo Collor. Nesse encontro, Lafayette tentou entregar documentos ao candidato do PT, que passou a bola para o advogado Márcio Thomaz Bastos. Genoino foi ainda mais prudente: deixou Lula a sós com Lafayette. “Não tenho vocação para detetive.” Já sobre a escuta telefônica no Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), foi mais direto, pedindo que o Congresso investigasse o caso até o fim. Nessas horas, faz uso de uma imagem automobilística do jogo de poder. “Em política você tem o pára-brisa e o espelho retrovisor”, compara. “Para andar para a frente é preciso olhar um e outro.”
Na primeira curva da estrada, espera disputar um cargo majoritário. Mas, para isso, não pretende atropelar sua colega Marta Suplicy: “Respeito a liturgia. Para prefeito [de São Paulo em outubro de 2000], é a vez dela. Sou o segundo”. Quando lhe perguntam quem é a figura nacional que mais admira, lembra-se, no ato, do dr. Ulysses. No plano internacional? Nelson Mandela. Não por acaso, outro ex-guerrilheiro que acabou presidente. Sinal de que cultiva a ambição de, um dia, dominar outros ambientes projetados por Oscar Niemeyer. Como, talvez, os do Palácio do Planalto. Hipótese que nosso Rei do Salão Verde acolhe com duas frases bem construídas, daquelas que nenhum repórter principiante desprezaria para finalizar sua matéria: “A Presidência? Qualquer um quer. Político sem mandato, nem o vento bate nas costas…”

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Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Leia mais...

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