Há 38 anos…

O que se segue é um trecho de Meu querido Vlado – sim, uma biografia não autorizada. Do meu amigo Vladimir Herzog – e minha, de alguma maneira. Livro esgotado, publicado pela Objetiva. O episódio aconteceu em 19/10/1975.

No domingo, 19 de outubro, fui tirado da cela mais uma vez. Alguém que não pude identificar – estava novamente da capuz – perguntou em que dia estávamos. Tinha passado menos de 48 horas no Doi-Codi, mas perdera a noção do tempo. Suspeitei que fosse domingo e o fulano emendou:

– E o que tem nesse domingo?

Não entendi a pergunta. O sujeito repetiu – queria saber o que tinha programado em casa. Afinal, lembrei do aniversário da Dilea e do batizado da Ana e ele continuou:

– Pois é, para provar que nós não somos esses demônios que vocês acham, vamos deixar você e a sua mulher batizar a menina. Vista sua roupa, você vai sair.

A estranha resolução era resultado de uma conjugação de iniciativas. Do Doi-Codi, da própria Dilea e de João Batista Lemos. Minha mulher não tinha sofrido muito com os choques elétricos. Estava de tênis, o que isolou boa parte das descargas. E repetiu várias vezes a mesma ladainha: tinha pouco a ver com aquela história de comunismo, era de família católica e no domingo ia batizar a filha na igreja São Judas Tadeu. Muito nervosa, ela teve uma grave queda de pressão durante o interrogatório. Examinada por um enfermeiro, foi transferida para uma cela especial onde haviam sido colocadas outras mulheres que de algum modo, receberam um tratamento mais ameno. Entre elas, a jornalista Marinilda Marchi e a arquiteta Cristina de Castro Melo.
No sábado, João Batista Lemos fizera contato com o superintendente da Polícia Federal, dr. Gilberto Alves da Cunha, sugerindo que fossemos liberados para o batizado da Ana.
Até hoje ignoro se o intuito do Doi-Codis era espalhar o terror, conferir se algum companheiro iria ao batizado ou praticar uma insólita ação de relações públicas. O fato é que me entregaram uma lâmina de barbear e um espelho. Depois, devolveram minhas roupas. Na Veraneio, reencontrei minha mulher.
Quatro homens nos escoltavam, com as armas guardadas em sacolas de mão. Fomos direto para a Igreja de São Judas Tadeu, onde encontramos nossas famílias e frei Clarêncio Neotti, diretor da editora Vozes, para cuja revista Dilea costumava escrever. Ele viera do Rio especialmente para celebrar o batizado. Antes da cerimônia, pediu que fossemos até a sacristia. Ao passarmos pela porta, esta se fechou, provavelmente por causa do vento. Os militares imediatamente cercaram o local, até que instantes depois abrimos a porta e tudo se resolveu.
Lembro que na hora do batismo, frei Clarêncio fez uma espécie de homilia que remetia, indiretamente, à nossa estranha condição. Nenhum integrante da equipe do Doi-Codi disse nada.
Na saída, os pais da Dilea propuseram que fossemos até nossa casa, pois havia um almoço e um bolo de aniversário. A equipe de captura concordou com a sugestão e na hora da saída, sugeri que a avó e a bisavó da Dilea fossem na Veraneio. Os militares aceitaram. Dilea entramos no carro do meu pai, seguidos pela perua do Doi-Codi e por meu sogro. No caminho para a igreja de São Judas Tadeu contei em detalhes, o que estava acontecendo e fiz uma lista de pessoas que meu pai precisaria contatar. O primeiro era Vlado.
Em casa, meu sogro abriu uma garrafa de uísque e começou a servir salgadinhos e bebida para nossos acompanhantes. Ana, num cercadinho, estava no meio da sala de estar. Ao lado, um de nossos acompanhantes e a sacola que guardava a metralhadora, comentava sobre a linda criança de olhos claros e cabelo loiro que brincava serenamente diante dele. Pude conversar mais um pouco com meu pai e lhe passar uma relação precisa do que deveria fazer. Expliquei que deveria recomendar expressamente a meus companheiros que fugissem, porque o Doi-Codi era o inferno.
Não agüentei por muito tempo aquela confraternização: depois do inevitável parabéns para Dilea, pelo aniversário e de cortarem o bolo que a mãe dela havia feito, pedi para irmos embora de vez. Como tínhamos de regressar ao inferno, aquele intervalo me parecia mais doloroso ainda.
Dilea arrebanhou alguns edredons para levar para a cela das mulheres. Não houve lágrimas na nossa despedida. Antes de voltar ao Doi-Codi, minha mulher pediu que os nossos acompanhantes comprassem – com o nosso dinheiro – um pacote de cigarros para suas companheiras. Ao entrar no pátio, fomos novamente separados. Ela foi recebida com festa pelas companheiras que estavam no pátio externo, em condições menos difíceis que os outros presos. Eu reencontrei meus colegas de cela.
Naquela mesma noite, meu pai esteve na casa da mãe do Marcelinho pediu que ela avisasse a ele e a outro companheiro. Foi também procurar Vlado, que cada vez mais desconfiado, fingiu não entender a mensagem. Chegou a dizer que eu deveria estar confuso, por causa da tortura, pois nada tinha a ver com o Partido. Foi tão convincente que meu pai concluiu que eu devia estar meio atrapalhado, realmente. De todo modo, na segunda-feira, levou meu pai para falar com Mindlin. Mas o secretário da Cultura estava nos Estados Unidos e eles só conversaram com Armando Figueiredo , seu assessor de imprensa.
No dia seguinte, em Brasília, o presidente Geisel foi informado de as prisões em São Paulo já passavam de 80. Com Heitor de Aquino Ferreira, seu secretário particular, Geisel desabafou:

– O Brasil tinha que ser uma ditadura. Arranjavam um ditador e eu ia embora daqui.

Mas para o público externo, o presidente manteve as aparências e declarou que há muitos anos, o Brasil não tinha tanta liberdade política.
Na quinta-feira, 23 de outubro, Vlado foi à festa de despedida do adido de imprensa do consulado britânico, John Guild, que ia voltar para a Inglaterra. Lá encontrou Marquito e o Konder. Numa espécie de diário, Marquito registrou o que aconteceu:

“Na saída, por volta das 11 da noite, descemos do apartamento, eu, Vlado e Clarice Herzog. Vlado pede que eu vá até o carro deles para conversarmos um pouco. Ali dentro, eu no banco de trás, Vlado e Clarice nos bancos da frente do Volkswagen, ele me conta que recebera um aviso de Paulo Markun. (…)
Na igreja, ele conseguira comunicar-se com o pai dele dizendo que “eles”, quer dizer, o pessoal do Doi-Codi, tinha uma lista de nomes a serem “caçados”e os nossos nomes – do Vlado e o meu – estavam nesta lista, assim como vários outros.
Isso significava que nós dois seríamos procurados e provavelmente presos.
Eu disse ao Vlado que durante a semana isso não ocorreria provavelmente por causa do congresso da Sociedade Interamericana de Imprensa que se realizava em São Paulo. Não iriam prender jornalistas num momento desses. Na semana seguinte começaria no Rio, o Congresso Internacional da ASTA (American Society of Travel Agents). Estava prevista a vinda de 200 ou 300 jornalistas do exterior. Também seria um período inoportuno para prender jornalistas brasileiros.
A conclusão, portanto, é que qualquer “caçada” surpresa deveria acontecer no final da semana, entre o término de um evento e o início do outro.
O Vlado e a Clarice acharam que meu raciocínio era plausível. E o Vlado perguntou o que deveríamos fazer.
Respondi que eu sairia da cidade. Iria para uma fazenda no interior. Na semana seguinte, conforme estivessem as coisas, voltaria. Aconselhei-o a fazer o mesmo. Ele disse que tinha muito trabalho na TV Cultura. E que além do mais, não tinha culpa no cartório; não era subversivo nem nada; não era criminoso. Se fossem procurá-lo para fazer perguntas, poderia responder a todas de cara limpa.
Insisti que vivíamos um momento político muito estranho no qual as coisas não estavam acontecendo de acordo com a lógica, o bom senso e a razão. As pessoas não eram procuradas para responder perguntas sobre seus atos. Eram “caçadas” para serem acusadas de crimes e espancadas quando se negavam a admitir tais acusações. Portanto, era um momento perigoso: “Pegue a Clarice, suas crianças e vá passar um fim-de-semana no Rio de Janeiro, num bom hotel, sem dizer para onde foi. Na segunda-feira, a gente vê como as coisas ficaram”. Ainda terminei o papo com uma brincadeira: “No mínimo, vocês terão uma espécie de lua-de-mel e voltam mais alegres”.
Despedimo-nos. Eu nunca mais veria o Vlado.”

Sobre o autor

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Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Leia mais...

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